RSS

Arquivo da tag: Teseu

Centauromaquia

Texto do leitor: Jarbas Leonel Porfírio de Moura

Os centauros aparecem em diversos mitos, mas talvez a citação mais famosa seja a CENTAUROMAQUIA TESSÁLICA – a mítica guerra entre centauros e lápitas, descrita por Públio Ovídio Nasão em Metamorphoses, XII, 210-445: “Piríthous, rei dos Lápitas, ao casar-se com Hipodâmia, convidou os Centauros para a festa, já que eram aparentados. Durante os festejos, o abuso do vinho atiçou a natureza selvagem dos Centauros e eles tentaram tomar as mulheres dos Lápitas, deitando-se com elas à força; consta que um deles – Êurito – tentou violentar até mesmo a própria noiva. Isso provocou uma violenta luta entre os Centauros e Lápitas, comandados por Piríthous e pelo ateniense Teseu, que estava presente na qualidade de grande amigo do noivo. A luta continuou até que todos os Centauros foram expulsos da festa… mas seguiu-se, então, uma verdadeira guerra entre eles, que provocou a morte da maioria dos centauros e os poucos sobreviventes fugiram da Tessália”.

Foram representados como seres com torso e cabeça humanos em um corpo de cavalo, que viviam em cavernas nas florestas dos montes Pélion e Ossa. Aos seus pés, fica a Bacia da Tessália, banhada por vários rios que descem das montanhas e se juntam sob o nome de Peneios (Heródoto VII, 128-130). Inventores da equitação e com grande conhecimento de botânica, medicina, astrologia e arte divinatória, foram educadores de muitos heróis gregos, entre eles Esculápio, Nestor, Meléagro, Teseu, Hipólito, Heráclito, Ulisses, Castor e Pólux, Jasão e Aquiles. Encontramo-los nos cortejos de Dioniso e quase sempre estão associados a episódios de barbárie e numerosos delitos. A centauromaquia é freqüentemente interpretada como metáfora do conflito entre os baixos instintos e o comportamento civilizado. E foi dessa forma que passaram para a posteridade: um povo rude, dado a bebedeiras que expõem ainda mais seus impulsos agressivos e sua sexualidade desenfreada.

Segundo a mitologia, os Centauros são descendentes de Íxion e Néfele. As néfelas são ninfas das nuvens de chuva, que bailam no topo dos montes como belas jovens de vestes ondulantes. Íxion é filho do turbulento deus-rio Peneios, que tem poderes de transformação (Hino Homérico 21). Sem dúvida, uma referência às águas torrenciais e aos bosques em que viviam. Outro mito conta que Íxion desposou Dio, mas tramou não pagar o dote de casamento a Dioneus; preparou um poço cheio de carvão em brasa onde empurrou o sogro. Uma provável alusão à cremação ritual dos mortos, que transparece nos cemitérios neolíticos de Soufli e da Caverna Franchthi, na Tessália, em que há traços de fogo na maioria dos corpos e inúmeros vasos com ossos carbonizados e cinzas. Com Dio, Ixion deve Piríthous, que se tornou rei dos Lápitas (de Lapithai, “usuário de pedras de fogo”). Desta forma, Centauros e Lápitas têm uma ancestralidade comum, podendo ser chamados de “parentes”.

A arqueologia mostra que a região da Tessália foi ocupada, no Neolítico, por um povo indo-europeu originário da região eurasiana do Danúbio. É provável que sejam os Pelasgos(em grego Πελασγοί, ‘Pelasgoí’, de etimologia incerta) que aparecem nos poemas de Homero como habitantes de Larissa e de Argos, perto do Monte Ótris, no sul da Tessália. Lugar, aliás, de origem de Hipodâmia. Falavam uma língua não-grega (HeródotoI, 56-58 e 171) e, com Homero, tornam-se sinônimo de “época imemorial”. É possível , portanto, que os Centauros (do grego Κένταυροι, “matador de touros”) sejam esse primitivo povo guerreiro, de origem pré-helênica, que os sítios arqueológicos de Dimini, Sesklo e Nea Nicomedia revelam ser uma civilização agropastoril, exímios na equitação, organizada em torno de uma família dirigente ou de um chefe de aldeia (Vermeule, 1972),  onde os homens cuidavam dos rebanhos enquanto as mulheres se encarregavam da agricultura. Essa divisão remete à crença de que a fecundidade feminina influencia a fertilidade das plantas e dos rebanhos, e que a divindade soberana é a Grande Mãe – comum na Europa neolítica. É possível, portanto, que, como eles, entendessem o chefe como a hipóstase do deus tribal, que unia-se ritualmente à Deusa-Mãe, que representava a terra. Alguns mitos colocam que os Centauros são originados de Centaurus (filho de Íxion e Néfele) com as Éguas da Magnésia. Dio, uma das esposas de Íxion, era da Magnésia. Muito provavelmente as filhas de chefes tribais daquela região, vizinha à Tessália, representassem a Deusa-Égua que transmitia a soberania da terra e selava um antigo acordo de parceria.

O “período obscuro” grego (1100 e 700 a.C.), segundo a historiografia recente, parece se caracterizar, entre outras coisas, por uma transferência do poder para o grupo militar, que normalmente se organizavam nas planícies. Nesse período, a Tessália torna-se, à semelhança dos dórios, uma sociedade marcada pela divisão entre uma classe guerreira, formada por uma aristocracia turbulenta que assume o domínio dos meios de produção, e uma classe agrária. O casamento com Hipodâmia, uma princesa do sul, parece estabelecer novos acordos que, talvez, justifiquem a presença de Teseu, o rei ateniense, naquele evento. Nesse caso, a Centauromaquia pode significar ou um veemente repúdio à quebra do acordo tradicional com a Magnésia, ou uma disputa entre classes ou famílias da mesma tribo pela Soberania da Terra, casando-se com a nova Deusa-Egua (Хиподамея/Hipodâmia – nobre senhora [dos] cavalos – pode ser mais um título que um nome). O novo acordo com as potências do sul, estabelecidas entre Piríthous e Teseu, deu aos Lápitas as condições militares para vencerem essa guerra e destruírem os oponentes.

No século V a.C., Péricles, no afã de celebrar a orgulhosa riqueza material e cultural de Atenas, nação mercantil com uma grande rede de colônias e postos comerciais, constrói o Pathernon como um monumento à auto-confiança e à razão. Um verdadeiro “Arco do Triunfo” ateniense, com noventa e duas metópes exaltando seus feitos bélicos: a Gigantomaquia (luta contra os Gigantes, onde Atenas foi a primeira a se colocar ao lado de Zeus); a Amazonomaquia (batalha contra as Amazonas); o saque de Tróia e a Centauromaquia. Mas, ao fazê-lo, também contempla com eternidade a misteriosa memória de Troianos, Amazonas, Gigantes e Centauros, que passaram a povoar o inconsciente ocidental. E assim, os amantes da velocidade, viris, sábios, apaixonados, incompreendidos, companheiros, belicosos e impulsivos Centauros atravessaram os séculos e chegaram até nós, praticamente intactos. J.K.Rowling, em seus romances da saga Harry Potter, informa que “eles estão presentes em muitas partes e as autoridades bruxas lhes destinaram áreas para viver sem serem incomodados pelos trouxas. Mas eles não têm grande necessidade de proteção bruxa, pois contam com recursos próprios para se esconder dos humanos”.

Hoje, encontramo-los disfarçados de “vaqueiros de todos os ventos, montados no relâmpago e no trovão”, atravessando a caatinga nos poemas do alagoano José Inácio Vieira de Melo, em Infância do Centauro (Escritura Editora, 2007); nos 28 rapazes paulistas da Comitiva Centauros, que se uniram em torno da amizade, do gosto country e nos projetos sociais; nos oficiais do Esquadrão Centauro, do 10º COMGAR, da Força Aérea Brasileira, em alusão à constelação de Sagitário – que envolve o Cruzeiro do Sul (símbolo do amor à pátria) –, e ao gaúcho, o “Centauro dos Pampas”; no grupo Centauros, que reúne 126 motociclistas pela amizade e companheirismo. Hollywood deu-lhes voz como legendários cowboys americanos em Centauros do Deserto, de 1956, com John Wayne, mostrando a obstinação de um homem e um jovem vagando a cavalo, durante anos, em busca da sobrinha raptada por indígenas. E, mas recentemente, em O Segredo de Brokeback Mountain: história de dois vaqueiros das montanhas, vivendo a sensualidade, o companherismo e a paixão incontrolada. Talvez esse seja o verdadeiro carater desses fabulosos vaqueiros neolíticos: o amor, a sexualidade, a amizade, a obstinação e a impulsividade como poderosas forças da natureza humana, que muito ainda têm a ensinar aos racionais, arrogantes, sedentários e materialistas homens ocidentais.

BIBLIOGRAFIA

  • HACQUARD, Georges – Dicionário de Mitologia Grega e Romana, Edições ASA.
  • DOWDEN, K. – Os Usos da Mitologia Grega. Trad. C.K. Moreira. Campinas: Papirus, 1994.
  • JAGUARIBE, H. – Um Estudo Crítico da História. Trad. S. Bath. São Paulo: Paz e Terra, 2001.
  • LAWRENCE, A.W. – Arquitetura Grega. Trad. M.L. Moreira de Alba. São Paulo: Cosac & Naify, 1998.
  • VERMEULE, E. – Greece in the Bronze Age. London: University of Chicago Press, 1972.
  • CASTRO, Paulo Pereira de – Apontamentos de História Antiga – O Período Obscuro.
  • PUGLIESI, Marcio – Mitologia Greco-Romana
  • BRANDÃO, Junito – Dicionário Mítico-Etimológico
  • ABRIL CULTURAL – Dicionário de Mitologia Grego-Romana, Ed. Abril, 1971

Caro leitor, para enviar o seu artigo, acesse https://cpantiguidade.wordpress.com/dia-do-leitor-envie-seu-artigo/, leia atentamente as informações e envie seu texto para o seguinte email: falecom@centroculturaljerusalem.com.br.

Após a análise de nossos curadores, entraremos em contato para a publicação de seu artigo em nosso site.

Anúncios
 
Deixe um comentário

Publicado por em 19/09/2012 em HISTÓRIA ANTIGA

 

Tags: , , , , , ,

 
%d blogueiros gostam disto: