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Arquivo da categoria: RELIGIÃO & MITOLOGIA

A essência da Cabala

Por pesquisadora convidada Thassia Izabel Ferreira Magalhães[i]

A Cabala ou Kabbalah são ensinamentos que fazem parte do misticismo judaico, e como todo misticismo a Cabala busca uma verdade espiritual e uma união com o divino, sendo assim ela é uma sabedoria espiritual que ensina as leis espirituais que governam a vida. E uma vez que para os cabalistas a Torah está codificada, os ensinamentos da Cabala eram e são utilizados até hoje para interpretar esses códigos e compreender o sentido espiritual dos textos sagrados.

A palavra Cabala vem do hebraico e significa literalmente receber, pois entendia-se  que os ensinamentos da cabala deveriam ser transmitidos de um mestre para um aluno escolhido, porque esses ensinamentos eram impossíveis de ser compreendidos sem orientação. Era necessário que o aprendiz tivesse a partir de 40 anos para poder aprender esse conhecimento, pois acreditava-se que nem todas as pessoas estavam preparadas para receber essa sabedoria.

A origem da Cabala tem sido freqüentemente apontada na idade média, no entanto ela não tem uma história com parâmetros definidos. Acreditasse que ela é de um período muito anterior a idade média, e segundo Eliphas Levi[1], a origem dessa sabedoria remete aos caldeus, e que os judeus durante o cativeiro babilônico tiveram contato e adaptaram as suas escrituras. Os cabalistas atribuem esse conhecimento a uma tradição oral que foi passada de Enoque para Abraão e depois esse transmitiu para seus filhos e netos, e que Moisés recebeu esse ensinamento da parte de Deus e transmitiu a alguns discípulos para que o conhecimento não fosse perdido.

A Cabala então combinou os fundamentos do judaísmo com diversos elementos de diferentes crenças, filosofias e ocultismo, como: a doutrina Hindu da metempsicose[2], o sistema caldaico de astrologia, a angiologia e demologia dos babilônicos e persas, as características do culto sincretizado de Serapis-Isis [3]do Egito helenizado e os cálculos numerológicos. E estruturou seu sistema teológico com base na doutrina neoplatônica das emanações[4], na seita Sufi maometana [5]e no ascetismo [6]da igreja medieval.

A Cabala esta dividida em duas correntes, a cabala teórica e a cabala prática. Na cabala teórica encontramos as tradições patriarcais sobre os mistérios da criação e da Divindade.  Existem três livros principais da Cabala que contém essas tradições, o Sefer Ietzirah (Livro da Criação), O Bahir (Brilho) e o Zohar (Esplendor). O Sefer Ietzirah é atribuído ao patriarca Abrão, e nele estão as Dez Sefirot (Esferas Místicas de Deus), que é a Árvore da Vida, um diagrama cabalístico quem contém os dez princípios que geraram a existência. Já a cabala prática é a parte mágica da Cabala, sua origem é apontada na idade média, e através dela se estuda a semântica do alfabeto hebraico, atribuindo as letras hebraicas valores numéricos, para que se pudessem ativar as forças criadoras do alfabeto, pois para os cabalistas Deus havia criado o mundo através das vinte duas letras hebraicas, e com isso era possível a operação de milagres.

AS 10 SEFIROT (Esferas místicas de Deus)- Árvore da Vida- Diagrama cabalístico dos dez princípios básicos que geraram a Existência.

Assim concluímos que a Cabala não é uma religião e sim um conjunto de conhecimentos tradicionais que foram transmitidos através da tradição oral e que durante um longo tempo foi uma sabedoria restrita a um determinado grupo, e a partir do século XX se popularizou e tem sido estudado por pessoas de diversos seguimentos.

[1] Eliphas Levi é o pseudônimo de Alphonse Louis Constant, foi um escritor e ocultista francês.

[2]  Metempsicose teoria que admite a transmigração da alma de um corpo para outro.

[3] Serapis-Isis o culto a essa divindade foi introduzido em Alexandria, por volta do século IV a.C. com o propósito de reunir em um sincretismo as tradições religiosas egípcias e helênicas. Serapis identificava-se com Osíris, o marido de Isis.

[4] Doutrina neoplatônica das emanações é a doutrina que diz que tudo quanto existe derivou-se da Realidade ou Ser supremo.

[5] Seita Sufi maometana é uma seita mística muçulmana, de práticas ascéticas e tendências panteístas, que se difundiu desde os primeiros séculos do Islã.

[6] Ascetismo prática da abstenção de prazeres e até do conforto material, adotada com o fim de alcançar a perfeição moral e espiritual.

[i] Graduada em História pela Universidade Estácio de Sá

 

Referências Bibliográficas:

AUSUBEL, Nathan. Coleção Judaica vol. 5 – Conhecimento Judaico I. São Paulo: Editora Sêfer, 2009. p.101-106

BLECH, Rabino Benjamin. O mais completo guia sobre Judaísmo. São Paulo: Editora Sêfer, 2004. p. 123-137

COOPER, David. A cabala e a prática do misticismo Judaico. 1 ed.Rio de Janeiro : Editora Campus, 2006. p. 9-11

KENTON, Warren Astrologia Cabalística- anatomia do destino. São Paulo: Editora Pensamento, 1982. p. 29-38

LEVI, Eliphas. As origens da Cabala. 12ª Ed. São Paulo: Editora Pensamento, 2007. p. 1-10

Lorenz, Francisco Valdomiro. Cabala- A Tradição Esotérica Do Ocidente. 1 ed. São Paulo: Editora Pensamento, 2011. p. 11-17

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Você Sabia? Casamento romano

Por pesquisadora Elaine Herrera

Paquius Proculus e a sua esposa. Fresco de Pompeia, século I, atualmente exposto no Museo di Capodimonte

Que o casamento na Roma Antiga era para a procriação, o casal não se unia porque se gostavam, nem para ter prazer amoroso e sim para produzir um herdeiro legítimo. O casamento romano também servia para a manutenção do culto familiar, porque a partir do momento que a moça deixava a casa de seus pais para unir-se ao seu marido, estabelecia-se a garantia de que mais uma pessoa estaria cumprindo o ritual diário ao deus reverenciado pela aquela família.

Outra motivação para o casamento era o aspecto econômico, porque toda noiva levava um dote para a nova família. Que resultaria numa transferência de patrimônio, daí a importância de se produzir um herdeiro legítimo rápido, pois se o chefe da família morresse, teria que ter um sucessor, ou seja, esse herdeiro ainda deveria ser homem, não adiantava ter filhas, porque elas não poderiam administrar a família e muito menos o patrimônio.

A esposa podia ser repudiada caso ela não produzisse herdeiros homens. Por outro lado se num relacionamento fora do casamento o homem engravidasse outra mulher, este filho não seria legítimo porque legítimos seriam somente aqueles concebidos pela mulher que passou pelo ritual do casamento.

Mesmo que no casamento legal, o amor ou o erotismo, praticamente não existisse isso não significava que as pessoas que se casavam se odiavam, apenas, seus objetivos eram outros.

Amor, práticas eróticas e sedução, tudo isto estava fora do casamento. Como dizia Galeno[1] um médico importante na antiguidade: “Para uma mulher engravidar no casamento ela deveria se mexer o mínimo possível, a posição dela dentro do casamento na hora de uma prática amorosa era a mais passiva possível, porque se ela se mexesse muito, ela não engravidaria”.

Emoções e prazer o homem procurava com outras mulheres, isso legitimava ao homem ter quantas mulheres lhe fosse necessário. Já que o casamento servia para outros propósitos.

[1] Galeno (129 – 210 d.C)  era médico e filósofo  em Roma, nascido em Pérgamo.

Referências Bibliográficas:

DUBY, Georges (orgs.) História da Vida Privada. Tradução Maria Lúcia Machado Vol I. São Paulo: Companhia das Letras, 2009

 FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Editora Contexto, 2003.

LE ROUX, Patrick. Império Romano. Porto Alegre: L&PM, 2009.

REBOLLO, Regina Andrés. O legado hipocrático e sua fortuna no período greco-romano: de Cós a Galeno.Scientiæ zudia, São Paulo, v. 4,n. 1, p. 45-82, 2006. Disponível em: <http://www.scientiaestudia.org.br/

SUETÔNIO. A vida dos doze Césares. 4ª Ed. São Paulo: Ediouro, 2002. 

 

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Rosh-Hashaná

Por Elaine Bordalo

Rosh Hashaná  significa “cabeça do ano”, é uma celebração que acontece, geralmente em setembro, e marca um período ainda mais propício para o homem comunicar-se com o criador do universo, segundo a tradição judaica.

Seguindo o calendário lunar, para os judeus o ano conta com 354 dias, e ao anoitecer do dia 16 de setembro de 2012 começará o ano 5773, chamado  de aniversário do mundo. A comemoração é feita através de intensas preces e alguns costumes específicos, como na vespéra ao anoitecer, inicia-se  o toque do shofar, um  instrumento feito de chifre de carneiro que remonta à época em que os judeus eram nômades. Além de que o som deste instrumento,  também soa como um despertar, chamando à reflexão, a consciência adormecida.

Outros costumes como tashlikh, que é a recitação de preces  atirando pedras ou pedaços de pão na água, a pratica deste ritual tem uma conotação de autopurificação, simboliza a eliminação dos pecados, apoiado nas escrituras que diz: “Ele esquecerá nossas faltas e jogará nossos pecados nas profundezas do mar[1]”. Outro costume é que o ano novo na realidade e celebrado não apenas em um dia, mas em dois, as explicações quanto a este costume  variam de acordo com o seu contexto social e temporal.

A alimentação tem um destaque especial nas festividades, comer determinados alimentos como: maçãs[2] com mel e açúcar, reforçam a ideia de um ano doce. Para dar forma aos paes, utilizasse o formato  circular, para demonstrar: eternidade, infinitude; e  o peixe  está sempre presente, por ser símbolo de fertilidade.

Mesmo que esta celebração tenha sofrido modificações ao longo da História, e que novos elementos tenham sido inseridos, o Rosh Hashaná continua sendo uma festa comum a tradição judaica, e ainda é vista como, uma comemoração para manter o otimismo e a esperança que refletem no ideal  futuro para o novo ano, o favor divino.

 [1] Miquéias 7:19

[2] A macieira aparece sendo compara ao ser amado, em o Cântico dos Cânticos.

Referências Bibliográficas:

 Araujo, Gilvan Leite de. História da Festa Judaica das tendas. São Paulo: Paulinas, 2011.

Fine, Dorren. O que sabemos sobre o judaísmo. São Paulo: Callis, 2003.

 Outras referências:

 http://www.cafetorah.com/portal/

 http://www.morasha.com.br/

 

 

Arqueólogos encontram barca funerária da 1ª dinastia faraônica no Egito

 

Uma equipe de arqueólogos encontrou no Egito uma barca funerária de madeira que possivelmente teria sido usada durante a era do rei Den, na primeira dinastia faraônica, em torno do ano 3.000 a.C., informou nesta quarta-feira (25) o Ministério egípcio de Antiguidades.

Em comunicado, o ministro Mohammed Ibrahim destacou que a barca se encontra em bom estado e foi achada na zona arqueológica de Abu Rauash, situada na província de Guiza, ao oeste da capital Cairo.

Ibrahim precisou que uma delegação do Instituto Cientista francês de Antiguidades Orientais estava escavando o lugar no momento em que descobriu alguns vestígios da barca, concretamente 11 tábuas de madeira, cada uma com 6 metros de comprimento e 1,5 de largura.

Estas peças arqueológicas foram transferidas ao centro de reabilitação do Grande Museu egípcio, onde serão tratadas para garantir sua conservação. Posteriormente, elas deverão ser expostas no Museu Nacional da Civilização Egípcia, na sala dedicada ao Rio Nilo.

Um responsável deste Museu, Hussein Abdel Basir, assegurou que a embarcação achada era do tipo funerário, que eram colocadas ao lado dos túmulos das pessoas para que estas pudessem utilizá-la em outro mundo.

Este mesmo tipo de embarcação já foi encontrada próxima às tumbas dos faraós, que também acreditavam que as mesmas poderiam ser usadas em uma nova vida.

Em fevereiro, arqueólogos iniciaram os trabalhos para extrair centenas de peças de madeira da segunda barca solar do mais poderoso dos faraós egípcios, Keops (2609-2584 a.C.), pertencente à IV dinastia faraônica.

 Fonte: UOL

http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/afp/2012/07/25/arqueologos-encontram-barca-funeraria-da-1-dinastia-faraonica-no-egito.htm

 

 

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Uma nova análise sobre o universo dos quadrinhos e a mitologia dos antigos

Por pesquisador Leandro Silvio Martins

 

A proposta aqui é comparar as diversas histórias em quadrinhos de super heróis com os mitos dos antigos. Para explicar este tema, primeiramente precisa-se entender o que é o mito. Não estamos trabalhando com o mito como uma mentira. Exemplo, o mito da “agulha com AIDS nos cinemas”. O mito pode ser trabalhado como diversos conceitos, depende do contexto.

 O mito que é passado aqui é o que representa uma verdade. Não que Zeus realmente exista, mas os mitos não são simplesmente um conjunto de histórias fantasiosas. A princípio o mito era a tentativa de explicar como o mundo surgiu de onde vinham as coisas, e também para onde vamos depois que morremos. É a História antes da Pré História. É o ancestral da ciência. Mas o mito ainda é mais. O mito é a forma mais antiga de literatura, era ele que dizia como os povos antigos deveriam viver, e ainda a base da moralidade da sociedade, dos governos e da identidade de uma nação. Era o código de conduta de uma nação… São as crenças que dão significado a vida.

 O mito também tem várias temáticas: moralidade, civilidade, e outras. Temos o mito do herói, aquele que mostra superação, determinação e coragem para enfrentar os problemas.  No mito grego, por exemplo, a riqueza de histórias e temáticas é enorme. Freud construiu em cima de um mito grande parte de sua teoria psicanalítica, o mito de Édipo. Não é então por acaso que muitas vezes nos identificamos com este mito. Mas não é só com este que nos identificamos, em momentos de nossas vidas nos vemos como muitos personagens dos mitos. Apaixonados como Apolo, vingativos como Hera, rejeitados como Hefesto. Conhecendo as faces destes deuses em seus mitos, entendemos as diversas possibilidades que também são nossas. Vemos através dos mitos a nós mesmos de uma forma mais abrangente.

Quando passamos por problemas na vida e tropeçamos na caminhada da vida e precisamos superar os obstáculos que a vida nos impõe, é difícil perceber nossa própria importância. Então chegam o momento de adquirir as características que nos retirem desta fase ruim, características de um herói. Coragem, força e determinação. Senso de justiça e estratégia. O mito do herói é freqüentemente analisado para se entender como se deve agir diante do problema que passarmos através da correlação que fizermos do mito com nossa vida.

Os heróis dos quadrinhos representam hoje de certa forma o que os heróis mitológicos representaram. Eles passam valores, em sua maioria, que são os valores passados nos mitos dos antigos.

A coragem do homem aranha em enfrentar tanto os vilões quanto os problemas amorosos e financeiros de sua vida como Peter Parker, o patriotismo do capitão América, a luta contra o preconceito dos X-Men, a tentativa de redimir os pecados cometidos no passado de Wolverine, assim como Hércules durante seus doze trabalhos, a superação dos problemas com a inteligência como Batman e Ulisses em a Odisséia, tornar-se imortal para os homens através de feitos que no fim culminam na Bela Morte, sendo transportado ao nível de lendas imortais a serem contadas por eras, como Aquiles na Ilíada e que teve a representação nos quadrinhos com a morte do Super Homem. Concluindo a intenção deste texto é fazer a ligação entre o mito e os quadrinhos, analisando o mito como uma verdade arquetípica e estabelecendo uma nova visão dos quadrinhos.

 

Referências Bibliográficas:

BIERLEIN, J. F. Mitos paralelos/ J.F Bierlein, tradução Pedro Ribeiro- Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

CARTLEDGE, Paul (Org.). História ilustrada Grécia antiga. Tradução Laura Alves e Aurélio  Rebello, 2 Ed. São Paulo: Ediouro, 2009.

VERNANT, Jean- Pierre.  Mito e pensamento entre os gregos. Trad. Haiganuch Sarian, 2ª Ed. Rio de Janeiro, 1990.

WILKINSON & PHILIP. Mitologia.2ª Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

 

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Perseguição aos cristãos – 1ª Aula (parte II)

Conforme começamos a disponibilizar o conteúdo do curso de extensão: Perseguições aos cristãos, segue a parte final da primeira aula.

Documentos para o estudo das Perseguições

Ø  Documentos “pagãos” de caráter historiográfico:

       Suetônio – Vida dos Doze Césares

       Tácito – Anais

       Plínio, o Jovem – Cartas

Ø  Documentos cristãos de caráter historiográfico:

       Lactâncio – Sobre a morte dos perseguidores

       Eusébio de Cesareia – História Eclesiástica, Mártires da Palestina, Crônica

       Atos dos Mártires

Ø  Documentos de caráter apologético

       Apologistas gregos:

Ø  Quadrato – Apologia

Ø  Aristides – Apologia

Ø  Justino – I Apologia, II Apologia, Diálogo com Trifão

Ø  Taciano – Oração aos gregos, “Diatessaron”

Ø  Atenágoras – Apologia, Sobre a Ressurreição;

Ø  Melitão de Sardes – Homilia pascal

Ø  Teófilo de Antioquia – Apologético

       Apologistas latinos:

Ø  Tertuliano – Apologeticum

Ø  Cipriano de Cartago – De lapsis, Cartas

Ø  Novaciano  – Sobre a trindade

       Documentos de caráter polêmico

       Origines – Contra Celso

       Clemente de Alexandria – Protreptico, Pedagogo

       Tertuliano – As nationes

       Minúcio Felix– Octávio

       Arnóbio de Sicca – Adversus Nationes

       Lactâncio – Instituições Divinas

 

Uma discussão historiográfica sobre as Perseguições

Ø  Por que os primeiros cristãos foram perseguidos?

       De Ste Croix (1963)

       De Ste. CROIX, G.E.M. Why were the Early Christians persecuted?. Past and Present. n.26, 1963. pp. 6-38.

       Sherwin-White (1964)

       SHERWIN-WHITE, A.N. Why were the Early Christians persecuted? – An amendment. Past and Present. n.27, 1964. pp. 23-27.

       De Ste Croix (1964)

       De Ste. CROIX, G.E.M. Why were the Early Christians persecuted? – A Rejoinder. Past and Present. n.27, 1964. pp. 28-33.

 

Ø  Por que os primeiros cristãos foram perseguidos?

 

       De Ste Croix (1963 e 1964)

       Hipótese do rompimento da pax deorum

       As perseguições aos cristãos se baseavam na recusa deste grupo em reconhecer os deuses de Roma, o que era visto como um comportamento perigoso e sedicioso. Afinal, os deuses tradicionais do panteão greco-romano eram as divindades principais da religião pública de Roma, que se não fossem cultuadas, mesmo que por apenas uma parcela da população, poderiam se enraivecer devido à quebra da pax deorum

 

       Sherwin-White (1964)

       Hipótese da obstinação

       As perseguições aos cristãos se baseavam não na questão do rompimento da pax deorum, mas na contumacia, isto é, na obstinação ferrenha dos cristãos em não cometer apostasia nem sacrificar para as divindades do panteão greco-romano. Segundo Sherwin-White, tal postura dos cristãos desafiava as autoridades

       romanas, e poderia minar o seu poder através da desobediência, conforme pode ser visto nas Cartas de Plínio, o Jovem, a Trajano.

 

       A.H.M. Jones (1964)

       Cristianismo enquanto um culto de mistério

       O Cristianismo era percebido pelas as autoridades imperiais romanas como uma religião de mistério, uma vez que os cristãos se recusavam a tomar parte dos espetáculos ou dos banquetes público, e, principalmente, cultuar os deuses tradicionais. Os cristãos ainda evitavam o serviço militar e, se fossem membros das elites locais, buscavam não tomar parte da administração das cidades.

 

       Décadas de 1980-1990

       Hipótese de De Ste Croix mais aceita

– FINLEY, M. I. O imperador Diocleciano. Aspectos da Antigüidade. 1968.

– BARNES, Timothy D. Constantine and Eusebius. 1981.

– MacMULLEN, Ramsay. Christianizing the Roman Empire (A.D. 100-400). 1984.

– CARRIÉ, J-M. ROUSSELLE, A. L’Empire romain en mutation. 1999.

– DIGESER, Elizabeth. The making of a Christian Empire: Lactantius and Rome. 2000.

– DRAKE, Harold Allen. Constantine and the Bishops; the politics of intolerance. 1999.

– CLARK, Gillian. Christianity and the Roman Society. 2004.

– CLARKE, Graeme. Third-century Christianity. In. BOWMAN, A. GARNSEY, P. CAMERON, Av. Cambridge Ancient History. Vol. XII, 2005.

– CHADWICK, Henry. The Church in Ancient History. 2001.

 

       Início do séc. XXI

       Conciliação das hipótese de De Ste Croix e Sherwin-White

                                    –     FREND, W.H.C. Persecutions: genesis and legacy. In. MITCHELL, M.,                   

                                           YOUNG, F. The Cambridge History of Christianity. Vol. I – Origins to Constantine. 2006.

          CORCORAN, Simon. Before Constantine. In. LENSKI, Noel. Age of Constantine. 2006.

          CHRISTOL, Michel. L’Empire Romain du IIIe siècle. 2006.

          RIVES, James B. Religions in the Roman Empire. 2007.

          Paul Veyne (2005)

          VEYNE, Paul. Culto, piedade e moral no paganismo greco-romano. In. O Império Greco Romano. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.

          Para Veyne, a atitude de crítica dos romanos frente às comunidades cristãs se baseava na repulsa “ao que era híbrido, impuro, ambíguo”.

          Sob este ponto de vista, que nos remete às questões de identidade cultural, pode-se inserir as perseguições no quadro dos conflitos com algo que não se conhece, um grupo que não se sabe bem ao certo o que seja.

          Neste sentido, Veyne propôs que os cristãos eram vistos como híbridos pelos pagãos romanos, uma vez que, possuíam as mesmas categorias de pensamentos dos demais cidadãos do Império Romano.

          “Os cristãos faziam parte do Império, mas sem os mesmos costumes, evitavam conviver com os outros, não participavam das festas ou dos espetáculos, não veneravam os deuses nacionais, seu Deus não pertencia a determinada nação, diferente do deus dos judeus. Além de querer se isolar como ma legítima diferença nacional, esse Deus pretendia superar os deuses nacionais”  (VEYNE, 2009:247)

          As perseguições eram causadas pela rejeição a algo inclassificável, anormal. E para justificar as ações persecutórias, os romanos lançavam mão de argumentos tradicionais, como o respeito ao mos maiorum (“o costume dos ancestrais”) e o respeito à unidade religiosa e moral da coletividade.

          Diogo Silva (2011)

          Embora Sherwin-White, Ste. Croix e, atualmente, Paul Veyne apresentem explicações diferentes sobre o fenômeno das perseguições que os cristãos sofreram no Império Romano, estas não são completamente opostas.

          Se por um lado, observamos a posição obstinada dos cristãos em manter a sua religião a ponto de se tornar uma desobediência contra as autoridades imperiais, por outro, a religião romana se baseava na manutenção do equilíbrio das relações entre o Império Romano e os deuses tradicionais.

          Da mesma forma, os cristãos e os pagãos compartilhavam os mesmos koinai imperiais (o grego e o latim), os mesmos espaços cívicos e o mesmo desejo de preservação do Império Romano.

 

 

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Pessach – Páscoa

Por pesquisador Wallace Anderson

A festa do pessach, também conhecida como a “Festa da primavera” foi a primeira a ser ordenada a sua celebração, ela comemora a libertação dos hebreus da escravidão egípcia. Comemora-se no dia 15 do mês de Nissan (março e abril), e se prolonga por oito dias no calendário judaico. Este acontecimento se constituiu como um dos principais fundamentos da tradição judaica, da criação espiritual e da civilização do povo hebreu.

Com um rápido exame dos Dez Mandamentos podemos perceber um indício de como o pessach era importante para o povo hebreu. Quando Deus quis dar uma definição de Si próprio ao seu povo, Ele não disse: Eu sou o Senhor que criou o mundo, ou Eu sou o Senhor que perdoa pecados. O que Ele disse foi: “Eu sou o Senhor teu Deus que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão.” (Ex 20,2).  Essas palavras revelam a relevância da celebração da páscoa.

 Celebra-se o nascimento e a formação da nação hebréia e na noite de “seider”, quando as famílias , amigos e convidados estão reunidos, é comemorada com muita pompa e rigor. O anseio pela liberdade nunca deixou de palpitar nos corações do povo de Israel, anseio este que passou de geração em geração e que atuou como uma motivação espiritual tão forte, que nenhuma opressão ou conquista conseguiu vencê-la.

 O nome mais usado desta festa é Chag há-pessach, e o mais popular de todos os outros que também são usados como: Festa dos pães asmos, Festa da liberdade, Festa da primavera. Desta festa é derivada a décima praga, a morte dos primogênitos, quando o Anjo da Morte saltou por cima das casas dos filhos de Israel. (Pessach = salto, passar por cima, passagem).

 Páscoa também é o nome do sacrifício, que era ofertado na véspera da Festa, naquela “noite de vigília”, pouco antes de saírem do Egito, os Filhos de Israel assinalaram suas casas, pintando os umbrais com o sangue do sacrifício. O nome Pessach, páscoa expressa também à eternidade do povo de Israel. O sábado que antecede a festa é chamado de “O Grande Shabat, os sábios judeus ensinam, que Deus libertou o seu povo justamente no shabat, ou seja, num dia de sábado.

 Os preparativos iniciam muito antes da festa, limpando toda a casa e em busca de “chametz” (alimento fermentado proibido no pessach), conforme está escrito: “ não seja visto nenhum chametz (fermento) no meio de vós”. Alimentos como: trigo, aveia, cevada, centeio, ou espelta não podem ser consumidos a não ser se passarem por um rigoroso exame para comprovar que não houve nenhum tipo de fermentação em sua preparação. O fermento simboliza defeitos pessoais, altivez e orgulho. Até mesmo os talheres na noite da páscoa devem passar por um ritual de purificação para serem usados na noite festiva.

 Outro ponto forte da festa é o relato ou a Hagadá que fornece respostas, que os filhos fazem a seus pais, sobre o conteúdo da festa. Cada relato ou “hagadá” acrescentava aos filhos dos hebreus, a fé no que Deus realizou por amor a um povo que foi escravo, prisioneiro, mas amado e liberto por esse Deus.

A Páscoa nos dias do Novo testamento

 A passagem do tempo e as mudanças sociais tiveram sensíveis efeitos sobre o povo de Israel, e a páscoa passou por modificações. Nos tempos de Cristo, as alterações que ela sofreu já estavam solidificadas. Nessa época o povo tinha de se deslocar para Jerusalém que recebia um grande número de cidadãos.

A cidade tinha de fornecer uma enorme quantidade de animais para o “abate”, cerca de 25.000 animais. Era uma quantidade bem expressiva e real de animais. Essa foi uma das mudanças que a páscoa sofrera. Já em 600 anos antes de Cristo, era costume imolar o cordeiro pascal em Jerusalém, mas no período de Jesus a festa deixou de ter um caráter familiar, transformando-se numa romaria.

Foi neste ambiente que caminhava para uma “imolação universal”, que Cristo nasceu e foi chamado de o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” Jo 1:36. A páscoa cristã comemora o papel de Cristo na Salvação do mundo quando Ele foi crucificado.

 Paulo ensinou que ele foi imolado como nosso Cordeiro pascal (1 Co 5.7). Em alguns pontos seu sacrifício é análogo ao cordeiro da páscoa no Antigo Testamento, como o fato de não terem quebrado seus ossos (Êx 12.46; Nm 09. 12; Sl 34. 20; Jo 19.36) Porque isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: “Nenhum dos seus ossos será quebrado.”

Contudo, tanto no Judaísmo quanto no Cristianismo, a Páscoa ou Pessach, nos remete a pensar que devemos ser unidos e consolidados por um único ato que tornou toda  uma sociedade livre e através desta, todos nós tornamos espiritualmente livre para viver e repensar os valores que Deus e a vida tem a nos ensinar.

 

Referências Bibliográficas:

 Asheri, Michel. O Judaísmo vivo. Rio de Janeiro: Editora Imago:1995

Coleman, William L. Manual dos Tempos e Costumes Bíblicos. Belo Horizonte: Editora Betânia – 1991

Fridlin, Jairo Fridlin. Sidur Completo. São Paulo: Editora Sefer, 1997.

 

 

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