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Arquivo da categoria: POLÍTICA

Grandes mulheres do Egito antigo – Tetisheri

A XVII dinastia egípcia (1630-1539 a.C.) entrou para a História daquela civilização devido aos seus reis guerreiros originários da cidade de Tebas, no Alto Egito, os quais iniciaram o movimento que levou à expulsão dos hicsos [1] da região do Delta do Nilo e a reunificação do país já no início da XVIII dinastia (1539-1292 a.C.), no reinado do faraó Ahmósis.

Estes homens que passaram grande parte de suas vidas enfrentando os invasores do Egito precisavam de companheiras confiáveis que estivessem prontas para reger o país, cuidar da segurança dos herdeiros e tomar decisões importantes enquanto seus maridos estivessem fora, nas campanhas militares.

Uma destas mulheres foi tão valorosa que após sua morte mereceu uma grande honra concedida pelo próprio Ahmósis, o faraó libertador: a construção de um túmulo em Abidos, uma das regiões mais sagradas do Egito por ser o centro do culto ao senhor do mundo dos mortos, o deus Osíris. Esta dama favorecida foi a rainha Tetisheri, avó do libertador e a primeira de uma linhagem de mulheres fortes que estiveram lado-a-lado com seus maridos faraós durante o movimento de expulsão dos invasores hicsos.

Tetisheri não era originária da Família Real, seus pais eram o juiz Tjenna e sua mulher Nefru [2], porém ela foi escolhida pelo faraó Senakhtenre Taô I para ser não somente sua esposa, mas sua Grande Esposa Real, ou seja, sua rainha principal. O casal gerou o príncipe Sekenenré Taô II, que se tornou faraó sucedendo ao pai e deu continuidade à luta contra os hicsos, morrendo em batalha, e as princesas Inhapy, Sitdjehuty e Ahotep I, sendo esta última a Grande Esposa Real do próprio irmão e mãe do libertador Ahmósis, tendo atuado como regente durante a minoridade do filho.

Desta forma, o faraó Ahmósis era neto da rainha Tetisheri tanto por parte de pai quanto de mãe e após a morte da avó quis honrar aquela que foi responsável por trazer ao mundo os homens e mulheres que lideraram os egípcios contra os invasores de suas terras. Sepultado inicialmente próximo a Tebas, cidade originária da Família Real, o corpo da rainha foi transladado por ordem do rei para uma nova tumba em forma de pirâmide localizada em Abidos, lugar de peregrinação para o culto de Osíris e onde o próprio faraó mandara construir seu templo funerário.

Em uma estela comemorativa encontrada no local, a falecida rainha Tetisheri é representada sentada em um trono, usando uma coroa com um abutre encimada por duas penas de avestruz e recebendo oferendas de seu neto, o faraó, demonstrando que ela própria já havia se tornado uma divindade. Um texto explicativo acompanha a imagem e mostra o respeito que o rei nutria pela avó:

“O próprio rei disse, ‘Eu me lembro da mãe de minha mãe, mãe de meu pai, a Grande Esposa Real e Mãe do Rei, Tetisheri, já falecida. Ela já possui uma tumba e um monumento funerário nas terras de Tebas e de Abidos, mas eu digo isto para vocês porque Minha Majestade deseja construir uma pirâmide para ela na necrópole próxima do meu próprio monumento, com um lago cavado, árvores plantadas, oferendas de pães’… Assim que Sua Majestade ordenou, tudo foi posto em ação rapidamente. Sua Majestade fez isso porque a amou mais do que tudo. Os reis do passado nunca fizeram algo parecido por suas mães”.

Tetisheri inaugurou uma linhagem de rainhas patriotas que continuou com Ahotep I e Ahmés Nefertari. Elas seriam lembradas pelos seus sucessores por terem desempenhado um papel fundamental na condução do Egito rumo à reunificação enquanto seus maridos e filhos combatiam os hicsos e, posteriormente à expulsão destes, na reconstrução das Duas Terras.

Estela comemorativa em honra à rainha Tetisheri. Museu egípcio do Cairo.

Estela comemorativa em honra à rainha Tetisheri. Nela seu neto, o faraó Ahmósis é retratado realizando uma oferenda para a soberana falecida e divinizada. Museu egípcio do Cairo.

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[1] Povo advindo da Ásia que por volta de 1650 a.C. se fixou na região do delta do rio Nilo e criou aí um governo paralelo ao dos faraós da cidade de Tebas, capital do Egito. Foram os primeiros estrangeiros que conseguiram invadir o território egípcio. Os hicsos trouxeram inovações militares como a introdução dos carros de guerra e do arco de longo alcance, que posteriormente foram dominados e utilizados pelos próprios egípcios para expulsá-los durante o reinado do faraó Ahmósis.

[2] Os nomes dos pais de Tetisheri foram encontrados gravados em bandagens de múmia que estavam na tumba da rainha.

 

Referências Bibliográficas:

NOBLECOURT, Christiane Desroches. A mulher no tempo dos faraós. Campinas: Papirus, 1994.

TYLDESLEY, Joyce. Chronicle of the queens of Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2006.

 

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Ptolomeu Keraunos, o príncipe deserdado

Ptolomeu, cognominado Keraunos (“o raio”, em grego), era filho mais velho de Ptolomeu I Sóter, fundador da dinastia macedônica que governou o Egito de 305 a.C. até a morte de Cleópatra VII em 30 a.C., com sua terceira esposa, Eurídice. A ele, em principio, estava destinada a sucessão do trono do Egito. Porém o caráter violento do jovem príncipe e a predileção do pai pelos filhos que teve com a esposa seguinte, Berenice I, levaram a uma mudança nos rumos da história.

Busto de Ptolomeu I, pai de Ptolomeu Keraunos, paramentado como faraó egípcio. Museu Britânico, Londres.

Busto de Ptolomeu I Sóter, pai de Ptolomeu Keraunos, paramentado como faraó egípcio. Museu Britânico, Londres.

Ptolomeu Keraunos foi deserdado e preterido em favor de Ptolomeu Filadelfo, seu irmão mais novo. Ao deixar Alexandria, o antigo herdeiro egípcio rumou para a Trácia [1], governada por Lisímaco, com quem sua irmã Arsínoe estava casada. Naquela corte Ptolomeu Keraunos participou com Arsínoe de uma intriga em 284 a.C. contra Agatocles, o primogênito de Lisímaco. O objetivo era conquistar a sucessão para seus sobrinhos.

Agatocles foi acusado de estar conspirando contra o pai para tomar o trono com o apoio do rei sírio Seleuco [2] e posteriormente condenado à morte.  Seleuco aproveitou o momento de confusão política e invadiu o país em 281 a.C. com a ajuda de Ptolomeu Keraunos. Lisímaco foi derrotado e morto e Seleuco proclamou-se rei da Trácia e também da Macedônia, que havia sido anexada alguns anos antes, em 285 a.C.

Porém o ambicioso Ptolomeu Keraunos não estava satisfeito: queria governar onde quer que fosse. Em 280 a.C. ele assassinou Seleuco e conseguiu tornar-se soberano da Macedônia. Tomou sua irmã Arsínoe como esposa e no dia do casamento mandou assassinar todos os filhos que ela tivera com Lisímaco com o intuito de formar uma nova dinastia.

Após um breve governo e uma vida cheia de intrigas e batalhas, Ptolomeu Keraunos encontrou seu fim de forma violenta quando foi executado em 279 a.C. pelos gauleses que destroçaram o exército da Macedônia e invadiram seu reino.

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[1] Região do sudeste da Europa banhada pelos mares Negro, Mármara e Egeu onde atualmente localizam-se parte da Grécia, Turquia e Bulgária. Fazia parte do Império de Alexandre, o Grande e após a morte deste em 332 a.C. foi legada a Lisímaco, um de seus generais.

[2] Oficial de Alexandre, o Grande que após a morte do jovem conquistador fundou o Império Selêucida, que cobria as terras do Mar Egeu até o Afeganistão, em 312 a.C. e inaugurou a dinastia de mesmo nome. Ficou conhecido com o cognome Nicator que significa “vencedor”.

 

Referências Bibliográficas:

PAUSÂNIAS. Descripción de Grecia, livro I. Madrid: Gredos, 1994.

SCHWENTZEL, Christian-Georges. Cleópatra. Porto Alegre: L&PM, 2009.

 

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Grandes mulheres do Egito antigo – Sobekneferu

Merytre Sat-sekhem-nebettawy Djed-et-kha Sobekkare Sobeknefru “Amada de Rá” ”Filha do deus gracioso” “De aparência estável” “Sobek é o espírito de Rá” “A beleza de Sobek”

Merytre Sat-sekhem-nebettawy Djed-et-kha Sobekkare Sobeknefru
“Amada de Rá” ”Filha do deus gracioso” “De aparência estável” “Sobek é o espírito de Rá” “A beleza de Sobek”

Um papiro descoberto nas ruínas da antiga capital egípcia de Tebas (atual Luxor) no século XIX corrobora com a existência de uma mulher que reinou no Egito muitos anos antes de Hatshepsut, a rainha faraó mais conhecida pelos estudiosos daquela civilização. Este papiro, conhecido como “Lista de Reis de Turim”, data da XIX dinastia egípcia (c. 1293 a 1185 a.C.) e coloca entre reis como  Menés, Djoser, Pepi II e Amenemhat III o nome da rainha Sobekneferu.

De acordo com a lista real, Sobekneferu teria reinado durante três anos, dez meses e 24 dias no final do século XIX a.C. Ela sucedeu o faraó Amenemhat IV que possivelmente era seu meio-irmão e esposo que morreu sem deixar herdeiros. Porém, como forma de legitimar-se no poder ela procurou associar-se ao seu pai, o poderoso Amenemhat III, que aumentou a riqueza do Egito anos antes através da exploração de pedreiras e minas na região do Sinai e construiu obras de drenagem e contenção das águas da cheia na região do Faiyum, próximo ao lago Moeris, onde fundou a cidade de Shedyet (para os gregos Crocodilópolis) principal centro de culto do deus crocodilo Sobek.

Sobekneferu teria sido a primeira a cultuar seu falecido pai como divindade naquela região, o que politicamente falando faria sentido, visto que a filha de um deus seria aceita sem grandes questionamentos no trono egípcio como faraó. Não existem registros até o momento que demonstrem que Sobekneferu foi apenas uma regente temporária, pelo contrário, os únicos títulos usados pela rainha, encontrados nas poucas inscrições sobre ela que chegaram aos nossos dias foram somente “filha do rei” e “rei”.

Já nas estátuas, a rainha era representada com uma mistura de atributos femininos e masculinos. Existem três bustos sem cabeça de Sobekneferu encontrados nas ruínas da cidade de Avaris sendo que o mais significativo é uma peça de sílex, que se encontra hoje exposta no Museu do Louvre, onde a rainha aparece trajando um vestido sobreposto por um saiote típico daqueles que eram utilizados pelos faraós. Sobre os ombros é possível ver o nemes, toucado usado pelos reis do Egito. O nome da soberana aparece envolto pelo cartucho que o protegia, de acordo com a tradição religiosa dos egípcios.

Busto de Sobekneferu exposto no Museu do Louvre: representação que mistura atributos masculinos e femininos.

Busto de Sobekneferu exposto no Museu do Louvre: representação que mistura atributos masculinos e femininos.

Parece uma tentativa dos artesãos daquela época em adaptar séculos de tradição onde os reis do Egito como forma de divulgar seu poder e associá-lo as divindades, independente de sua verdadeira forma física, eram representados sempre com os mesmos atributos idealizados (altos, magros, fortes, capazes de destroçar os inimigos e extremamente viris) a uma nova realidade onde o rei era agora uma mulher. E com esta idealização de sua imagem, Sobekneferu seria beneficiada para legitimar-se como rei.

Inscrições encontradas na fortaleza núbia de Kumma confirmam que Sobekneferu governou todo o Egito, porém o final de seu curto reinado é um período ainda obscuro na história egípcia. A tumba da rainha não foi encontrada até os dias de hoje e sua morte encerrou a próspera XII dinastia. Uma série de lutas desencadeada entre os pretendentes ao trono levou ao enfraquecimento político nas duas dinastias seguintes que culminou com a invasão do Baixo Egito pelos hicsos.

 

Referências Bibliográficas:

  • MELLA, Federico A. Arborio. O Egito dos faraós: história, civilização, cultura. São Paulo: Hemus, 1998.

  • TYLDESLEY, Joyce. Chronicle of the queens of Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2006.

 

 

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A batalha por Jerusalém

Por Amarildo Silva

 

Diante do cerco iniciado a partir do dia 25 de maio de 70 d.C. a população de Jerusalém tinha nas facções a esperança da vitória contra as tropas do general Tito, desde a iniciativa em 66 d.C quando os revoltosos derrotaram a XIIª legião, João de Giscala, Eleazar e Simão bar Gioras preparavam o povo para o cerco ao mesmo tempo batalhavam entre si para assumir o poder total tanto na cidade de Jerusalém como na província rebelada.

A guerra da Judéia iniciada em 66 d.C tem como elemento de estopim a atitude de Floro de oprimir os judeus de Cesaréia e exigir-lhes tributos e de tomar do Templo uma quantia de dezessete talentos, a fim de empregá-los como dizia, para o serviço do imperador. Flávio Josefo relata a indignação do povo.

O povo revoltou-se imediatamente, correu ao Templo gritando e implorando, em nome de César, que o libertassem da tirania de Floro. Não houve imprecações que os mais exaltados não fizessem, nem palavras ofensivas de que não usassem contra o governador, alguns com uma caixa na mão pediam, por zombaria, uma esmola em seu nome, como o teriam feito para o mais pobre e o mais miserável de todos os homens. (JOSEFO: 1154)

A repressão de Floro foi seguida de massacres de anciãos, mulheres e crianças e a comunicação ao governador da Síria, Céstio, sobre a revolta do povo judeu. O temperamento do povo saturado pelo domínio estrangeiro conduziu a província a uma guerra aberta contra o império romano.

  

Conduzidos por João Giscala, Eleazar e Simão Bar Gioras o povo judeu armou-se derrotando assim a legião comandada pelo governador Céstio I e que era responsável pelos primeiros ataques a província da Judéia rebelada.

Como relata o historiador Flávio Josefo à morte do próprio governador, não foi pelas mãos dos rebelados, mas pela vergonha que provocou ao império.

  

A posição favorável da cidade dificultou os trabalhos de cerco do exército romano, ainda assim Josefo destacou a ferocidade do exército romano que após o inicio do cerco levou 15 dias para tomar o cinturão mais externo, ou seja, a 3ª Muralha terminada no inicio da revolta. Segundo o historiador francês Mireille Hadas-Lebel[1]: “Desde a primeira fase do cerco, que durou cerca de quinze dias e terminou com a tomada da muralha externa, Josefo tivera a confirmação daquilo que já sabia: um surto de loucura acometera os seus”.

 A conquista da cidade foi total, com o aprisionamento do único líder da revolta sobrevivente, Simão Bar Giora e o massacre dos civis, entregues a fúria dos soldados. O General Tito ainda conservou as torres construídas por Herodes para demonstrar o poderio militar romano e ordenou que a 10ª Legião acampasse na região para impedir o retorno dos judeus para cidade.

[1] Mireille Hadas-Lebel. Flavio Josefo – o Judeu de Roma p. 175 e 177.

 

Referências Bibliográficas:

 Josefo, Flávio. História dos Hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Mireille Hadas-Lebel. Flavio Josefo – o Judeu de Roma. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

 

 

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Os donos do mundo

Por Leandro Silvio Martins

Ao estudar as mitologias existentes, é averiguado que nelas sempre está reservado um lugar especial para aquele que cria. O criador é o deus que geralmente além de criar a si mesmo, molda o universo. Seres poderosos e misteriosos, os deuses criadores chegam a ser figuras sombrias. Os chineses e os gregos, como afirmam PHILIP WILKINSON & NEIL PHILIP produziram diversas estátuas de seus deuses, mas poucas de divindades como a grega Eurínome e o chinês Pan Gu. O trabalho destas divindades é misterioso demais e difícil demais para ser representado.

PHILIP WILKINSON & NEIL PHILIP afirmam que Eurínome é um dos mitos gregos mais antigos sobre a criação. Tendo sobrevivido apenas parcialmente, este mito refere-se a deusa de todas as coisas. Eurinome significa a “eterna caminhante”. Ela criou o universo e deu vida a antiga raça dos titãs, que representam o poder primitivo do cosmo.

J.F. Bierlein, coloca o mito como uma constante entre os seres humanos de todos os tempos, tendo em seus padrões narrativos representados na forma que a sociedade vive. Por isso existem os contos onde os deuses são “substituídos” por divindades que se adéqüem aos que os líderes e principais representantes da sociedade querem para aquela sociedade. Os mitos tornam-se parte da estrutura da nossa mente inconsciente, sendo a “cola” que mantém a coerência da sociedade, sendo a base comum para as comunidades e nações. Sendo também o padrão de crenças que dá significado a vida. E devido a esta capacidade do mito, é que surge a importância dos criadores. Os “donos” do mundo.

Pan Gu e Eurinome podem não ter sido representados da mesma forma que outras várias divindades devido ao seu caráter misterioso. Porém isso não ocorre com as altas divindades de personalidades mais marcantes, como Zeus ou Odin. Divindades como estas são mais aceitas por seus cultores, pois se assemelham aos seus reis e rainhas e possuem papel mais relevante nas questões humanas.

Estes altos deuses possuem estas características marcantes devido ao antropomorfismo, que como explica J.F Bierlein, é a projeção de características ou qualidades humanas na divindade. “Fazer um deus segundo a imagem do homem”. O sol não era meramente o corpo celeste, mas um deus com uma história de vida de aparência humana.

 Em diversos mitos o casamento do “pai” céu e da “mãe” terra produz a vida. Em geral, esses deuses personificam forças poderosas que afetam diretamente o mundo. O trovão de Zeus ou mesmo o sol em relação aos egípcios Rá e Áton. Estas divindades superiores, os donos do mundo, geralmente são os regentes de cortes celestiais. Os líderes de seus respectivos panteões. PHILIP WILKINSON & NEIL PHILIP lembram que ao longo da história a ligação entre o rei mortal de uma localidade e o regente celestial era mútua. Assim para ampliar seu poder, os reis mortais retratavam-se como deuses, ou homens que, esperavam se juntar aos imortais após a morte, como os faraós egípcios ou os imperadores chineses.

Referências Bibliográficas:

BIERLEIN, J.F..Mitos paralelos, tradução Pedro Ribeiro, Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

WILKINSON, PHILIP. Guia ilustrado zahar: mitologia/ Philip Wilkinson & Neil Philip; tradução Áurea Akemi; revisão técnica Miriam Sutter.- 2º edição – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2010.

 
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Publicado por em 23/02/2012 em POLÍTICA

 

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Colóquio História e Imagem – Múltiplas Leituras

O pesquisador do CPA Mauricio dos Santos esteve  na primeira semana de outubro aconteceu na Uff, para o Colóquio História e Imagem – Múltiplas Leituras, realizado pelo Nereida núcleo de estudos multidisciplinar e interdisciplinar cujo objetivo é desenvolver pesquisas, sobre a troca, e o comércio entre comunidades que compunham o Mediterrâneo Antigo.

O evento contou com a participação na conferência e em oficinas: da Professora Pauline Shmitt Pantell da Universidade de Sorbone e do Professor Fraçois Lissarrague EHESS Paris École des Hautes Études en Scienses Sociales.

O assunto tratado pela Professora confronta a imagem, o historiador do mundo grego antigo e as perspectivas do trabalho de análise de imagens gregas, passando pela crítica de que medida a análise é feita de um tempo passado ou de um tempo presente.

Os dois professores são precursores da análise histórica de imagens gregas, e eles vem desenvolvendo  suporte teórico e metodológico para o estudo das imagens na História.

O CPA parabeniza a iniciativa do Nereida e o sucesso do Colóquio.

 

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Como a História vai lembrar o 11 de Setembro?

Por pesquisador Rodrigo Rocha

 

 

Neste domingo, bilhões de seres humanos vão relembrar onde estavam quando assistiram as imagens dos aviões atingindo as Torres Gêmeas na terça-feira do dia 11 de setembro de 2011, há exatos 10 anos.

Pela primeira vez em sua história, os Estados Unidos da América sofriam um ataque em seu continente. Bem diferente da base naval de Pearl Harbor, em 1941, situada no arquipélago de ilhas do Havaí, 60 anos depois, o atentado ao World Trade Center marcou um capítulo na história norte-americana e mundial. Os americanos fizeram questão de passar o recado ao restante do mundo. Os terroristas não teriam ferido apenas a nação estadunidense, mas a paz mundial, toda a comunidade internacional.

Simbolicamente foram rasgadas as páginas da Soberania de Vestfália (1648), e renasceu o Império Norte-Americano, sedento por vingar as mortes e honrar seus ideais patriotas. Mas todo império cresce, cresce, chega ao apogeu e tropeça. Ou estoura, como uma bolha. Hoje colhemos os cacos de uma bolha de vidro erguida na última década sob os céus de nosso planeta. Uma bolha ideológica que buscou separar o ‘bem’ e o ‘mal’, uma bolha militar alimentada por incalculáveis guerras, além da grande bolha econômica e seus reflexos, em mini-bolhas sociais em cada nação do mundo.

 

Mas será que podemos comparar os atentados do 11/9, e suas consequências a outros marcos na história da humanidade?

 

 

 

Seriam semelhantes à invasão de Roma pelas tribos germânicas? Ou da queda de Constantinopla? Talvez seja mais prudente observar os acontecimentos sob o prisma da economia e da geografia.

Ao longo dos séculos em que se desenvolveu, de simples práticas mercantis às complexas operações financeiras do século XXI, o capitalismo vive em fases. Ora cresce, ora se retrai, ora entra em crise, ora surgem novos mercados. A única certeza neste sistema é que a geografia deste mundo estará dividida entre metrópole/colônia, centro/periferia. E que o centro de poder, a capital do mundo é um conceito itinerante, que viaja na medida em que ocorrem os deslocamentos de dinheiro e poder.

Roma julgava-se indestrutível, mas sucumbiu. De sua crise nasceu uma nova ordem social, de senhores e vassalos, de um Estado servo de uma Igreja. Mas apesar de ter durado longos séculos, esse poder também de quebrou.

De igual modo poderíamos comparar com o poderio econômico de algumas cidades européias a partir do século XIV. Gênova, Veneza, Antuérpia, Amsterdã, Londres, cada cidade vivenciou períodos sem igual. Prósperos homens passaram por suas ruas e vielas, construíram castelos, fundaram Companhias, descobriram o mundo e o levaram ao velho continente. E graças a essa dinâmica, ora a conjuntura econômica apontava ao crescimento de uma cidade, por sua localização, infra-estrutura, poderio comercial, ora apontava para outra.

Talvez fosse isso o que muitos esperavam de Nova York, após aquele fatídico dia. A ‘capital do mundo’ sucumbiria em medo, terror e desordem e um novo centro nasceria. Mas a ‘Grande Maçã’ ainda nos reservava grandes surpresas. Os atentados a deixaram mais global, isso porque o antes excluído mundo árabe, graças à midiatização dos atentados, do descobrimento da Al Qaeda, de Osama Bin Laden, veio á luz do mundo.

Árabes são uma civilização centenária, e sempre estiveram presentes nos principais capítulos da história. Mas de figurantes, apresentaram-se como coadjuvantes, ou mesmo, atores principais. Muitos passaram a vê-los com ódio e preconceito, outros esforçaram-se em vencer o fundamentalismo e apresentar as raízes da religião muçulmana e da cultura árabe. As guerras do Afeganistão e do Iraque não pareciam mais tão distantes de nós, ainda mais aliadas ao crescimento do Islã em todo o mundo.

Eles estão em todo lugar, e não estão sozinhos. Indianos, chineses, africanos, latino-americanos e nós, brasileiros, estamos absorvendo parte desse vazio de poder econômico da Europa e dos EUA, crescendo e realimentado um sistema maior, mais complexo e múltiplo. Mais sujeito a conflitos de opinião, mas não necessariamente mais tolerante. Certas coisas demoram a mudar… Quando mudam…

Talvez seja pretensão demais colocar todas as mudanças da última década na conta dos atentados ao World Trade Center, mas ironias à parte, não podemos imaginar o comércio mundial sem a China, o Brasil, a Índia, os países árabes, os demais BRICS’s, e a África. Se há 20 anos caíram os muros do mundo bipolar, há dez anos desmoronaram as colunas da economia unilateral, e hoje tentamos reerguer não um novo World Trade Center, mas novos centros, múltiplos, que compartilhem (e disputem) a circulação de capitais, pessoas, serviços e poder. A exemplo da economia e das cidades, fica claro que “nada é novo debaixo do sol”.

Só não podemos aplicar essa frase às pessoas. Essas mudam, todos os dias. E depois daquele dia, elas passaram a ter medo, medo de verdade, medo do invisível, do inesperado, do desconhecido. O pior de todos os medos. Antes era a guerra nuclear, a ameaça soviética, até ontem eram os terroristas árabes, hoje são todos nós. O atentado em Oslo, mostrou que não é apenas uma exclusividade dos muçulmanos fundamentalistas a crença de que ‘sacrifícios de vidas são necessários’. Hitler já dizia isso, reis e imperadores na antiguidade também. E agora, em meio a crise, os estrangeiros, imigrantes, podem sofrer cada vez mais, com perseguições infundadas, ou melhor, fundadas sobre o ódio.

O 11 de setembro foi um ato de ódio, guiado pela visão fundamentalista de um grupo, e resultou em um ódio ainda maior. Ódio alimentado diariamente pelo medo. Sentimento esse que volta a nos assombrar, com as imagens do passado, do ontem, daquela terça-feira de sol claro e céu azul, em que Nova York ficou coberta por cinzas. E medo do amanhã, do que pode acontecer, do que vai acontecer, não sabemos onde, ou como, quando, e se mesmo haveria respostas a um por quê?

Resta a nós, cidadãos globais, aprendermos a lição de Nova York, a cidade que não para, que se reinventa. O bairro onde ficavam as torres dobrou sua população nos últimos anos. São pessoas que não vivenciaram o trauma, e que podem imprimir ao espaço da cidade novos rumos. Se uma cidade pode superar os tristes acontecimentos do 11 de setembro, por que nós não podemos superar as tristes verdades construídas a partir daquele ‘marco zero’, e que mudam até hoje nosso cotidiano?

Nova York, seu memorial, sua Torre da Liberdade, estão imprimindo novos fatos à História. E nós, como vamos contar essa história para a geração que não viu o fatídico dia Onze de Setembro?

Imagens: Flickr.com

 

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