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Arquivo da categoria: GUERRA

Ptolomeu Keraunos, o príncipe deserdado

Ptolomeu, cognominado Keraunos (“o raio”, em grego), era filho mais velho de Ptolomeu I Sóter, fundador da dinastia macedônica que governou o Egito de 305 a.C. até a morte de Cleópatra VII em 30 a.C., com sua terceira esposa, Eurídice. A ele, em principio, estava destinada a sucessão do trono do Egito. Porém o caráter violento do jovem príncipe e a predileção do pai pelos filhos que teve com a esposa seguinte, Berenice I, levaram a uma mudança nos rumos da história.

Busto de Ptolomeu I, pai de Ptolomeu Keraunos, paramentado como faraó egípcio. Museu Britânico, Londres.

Busto de Ptolomeu I Sóter, pai de Ptolomeu Keraunos, paramentado como faraó egípcio. Museu Britânico, Londres.

Ptolomeu Keraunos foi deserdado e preterido em favor de Ptolomeu Filadelfo, seu irmão mais novo. Ao deixar Alexandria, o antigo herdeiro egípcio rumou para a Trácia [1], governada por Lisímaco, com quem sua irmã Arsínoe estava casada. Naquela corte Ptolomeu Keraunos participou com Arsínoe de uma intriga em 284 a.C. contra Agatocles, o primogênito de Lisímaco. O objetivo era conquistar a sucessão para seus sobrinhos.

Agatocles foi acusado de estar conspirando contra o pai para tomar o trono com o apoio do rei sírio Seleuco [2] e posteriormente condenado à morte.  Seleuco aproveitou o momento de confusão política e invadiu o país em 281 a.C. com a ajuda de Ptolomeu Keraunos. Lisímaco foi derrotado e morto e Seleuco proclamou-se rei da Trácia e também da Macedônia, que havia sido anexada alguns anos antes, em 285 a.C.

Porém o ambicioso Ptolomeu Keraunos não estava satisfeito: queria governar onde quer que fosse. Em 280 a.C. ele assassinou Seleuco e conseguiu tornar-se soberano da Macedônia. Tomou sua irmã Arsínoe como esposa e no dia do casamento mandou assassinar todos os filhos que ela tivera com Lisímaco com o intuito de formar uma nova dinastia.

Após um breve governo e uma vida cheia de intrigas e batalhas, Ptolomeu Keraunos encontrou seu fim de forma violenta quando foi executado em 279 a.C. pelos gauleses que destroçaram o exército da Macedônia e invadiram seu reino.

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[1] Região do sudeste da Europa banhada pelos mares Negro, Mármara e Egeu onde atualmente localizam-se parte da Grécia, Turquia e Bulgária. Fazia parte do Império de Alexandre, o Grande e após a morte deste em 332 a.C. foi legada a Lisímaco, um de seus generais.

[2] Oficial de Alexandre, o Grande que após a morte do jovem conquistador fundou o Império Selêucida, que cobria as terras do Mar Egeu até o Afeganistão, em 312 a.C. e inaugurou a dinastia de mesmo nome. Ficou conhecido com o cognome Nicator que significa “vencedor”.

 

Referências Bibliográficas:

PAUSÂNIAS. Descripción de Grecia, livro I. Madrid: Gredos, 1994.

SCHWENTZEL, Christian-Georges. Cleópatra. Porto Alegre: L&PM, 2009.

 

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Diário de Bordo! Parte Final

Tudo que é bom, dura pouco, já diz o ditado popular e amanheceu nosso último dia em Israel. Ideia: aproveitar cada minuto.

Assim saímos rapidamente para concluir nosso roteiro, acordamos cedo, tomamos nosso café árabe e seguimos para visitar o Domo da Rocha. A fila era grande, sem custo, mas com revista, nossos pertences passam por um Raio X e somos revistados, para segurança tudo bem.

Caminhar pela plataforma construída por Herodes, onde era o antigo Templo de Jerusalém, já é o máximo, ver a beleza da arte islâmica nas paredes da Cúpula Dourada é ainda mais incrível.

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É impressionante como é grande lá em cima, vimos crianças estudando, homens, mulheres todos em círculos sentados ouvindo o que acredito serem mestres. Seguramente um lugar muito bonito, um chão cheio das pisadas do tempo e marcado por diferentes religiões.

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Saímos e já caímos dentro das muralhas da Cidade Antiga, suas ruas estreita e repleta de lojas de objetos de prata, tecidos, perfumes, e muitos locais para saborear a comida local.

Estar em Jerusalém é estar num mundo à parte, a presença marcante da religião está em tudo, nas roupas, no semblante das pessoas, e nos sons da cidade.

O clima é bem seco, o que dificulta um pouco a respiração. A diferença entre os povos que lá residem salta aos olhos a todo o momento, são muitos interesses que divergem numa tentativa constante de sobrevivência.

Visitar a terra de minhas pesquisas faz toda a diferença, já que todos os detalhes são importantes. Infelizmente só tínhamos metade do dia, por conta da volta. Então pegamos um taxi de Jerusalém para Tel Aviv rumo ao aeroporto, nosso vôo estava marcado para as 14:45. Chegamos cedo a tempo para o almoço, uma passada rápida num fast food kasher, e entramos novamente num túnel do tempo para voltar à realidade. Afinal estar em Israel é mergulhar no passado e quanto à guerra, posso dizer: eu fui!

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Como a História vai lembrar o 11 de Setembro?

Por pesquisador Rodrigo Rocha

 

 

Neste domingo, bilhões de seres humanos vão relembrar onde estavam quando assistiram as imagens dos aviões atingindo as Torres Gêmeas na terça-feira do dia 11 de setembro de 2011, há exatos 10 anos.

Pela primeira vez em sua história, os Estados Unidos da América sofriam um ataque em seu continente. Bem diferente da base naval de Pearl Harbor, em 1941, situada no arquipélago de ilhas do Havaí, 60 anos depois, o atentado ao World Trade Center marcou um capítulo na história norte-americana e mundial. Os americanos fizeram questão de passar o recado ao restante do mundo. Os terroristas não teriam ferido apenas a nação estadunidense, mas a paz mundial, toda a comunidade internacional.

Simbolicamente foram rasgadas as páginas da Soberania de Vestfália (1648), e renasceu o Império Norte-Americano, sedento por vingar as mortes e honrar seus ideais patriotas. Mas todo império cresce, cresce, chega ao apogeu e tropeça. Ou estoura, como uma bolha. Hoje colhemos os cacos de uma bolha de vidro erguida na última década sob os céus de nosso planeta. Uma bolha ideológica que buscou separar o ‘bem’ e o ‘mal’, uma bolha militar alimentada por incalculáveis guerras, além da grande bolha econômica e seus reflexos, em mini-bolhas sociais em cada nação do mundo.

 

Mas será que podemos comparar os atentados do 11/9, e suas consequências a outros marcos na história da humanidade?

 

 

 

Seriam semelhantes à invasão de Roma pelas tribos germânicas? Ou da queda de Constantinopla? Talvez seja mais prudente observar os acontecimentos sob o prisma da economia e da geografia.

Ao longo dos séculos em que se desenvolveu, de simples práticas mercantis às complexas operações financeiras do século XXI, o capitalismo vive em fases. Ora cresce, ora se retrai, ora entra em crise, ora surgem novos mercados. A única certeza neste sistema é que a geografia deste mundo estará dividida entre metrópole/colônia, centro/periferia. E que o centro de poder, a capital do mundo é um conceito itinerante, que viaja na medida em que ocorrem os deslocamentos de dinheiro e poder.

Roma julgava-se indestrutível, mas sucumbiu. De sua crise nasceu uma nova ordem social, de senhores e vassalos, de um Estado servo de uma Igreja. Mas apesar de ter durado longos séculos, esse poder também de quebrou.

De igual modo poderíamos comparar com o poderio econômico de algumas cidades européias a partir do século XIV. Gênova, Veneza, Antuérpia, Amsterdã, Londres, cada cidade vivenciou períodos sem igual. Prósperos homens passaram por suas ruas e vielas, construíram castelos, fundaram Companhias, descobriram o mundo e o levaram ao velho continente. E graças a essa dinâmica, ora a conjuntura econômica apontava ao crescimento de uma cidade, por sua localização, infra-estrutura, poderio comercial, ora apontava para outra.

Talvez fosse isso o que muitos esperavam de Nova York, após aquele fatídico dia. A ‘capital do mundo’ sucumbiria em medo, terror e desordem e um novo centro nasceria. Mas a ‘Grande Maçã’ ainda nos reservava grandes surpresas. Os atentados a deixaram mais global, isso porque o antes excluído mundo árabe, graças à midiatização dos atentados, do descobrimento da Al Qaeda, de Osama Bin Laden, veio á luz do mundo.

Árabes são uma civilização centenária, e sempre estiveram presentes nos principais capítulos da história. Mas de figurantes, apresentaram-se como coadjuvantes, ou mesmo, atores principais. Muitos passaram a vê-los com ódio e preconceito, outros esforçaram-se em vencer o fundamentalismo e apresentar as raízes da religião muçulmana e da cultura árabe. As guerras do Afeganistão e do Iraque não pareciam mais tão distantes de nós, ainda mais aliadas ao crescimento do Islã em todo o mundo.

Eles estão em todo lugar, e não estão sozinhos. Indianos, chineses, africanos, latino-americanos e nós, brasileiros, estamos absorvendo parte desse vazio de poder econômico da Europa e dos EUA, crescendo e realimentado um sistema maior, mais complexo e múltiplo. Mais sujeito a conflitos de opinião, mas não necessariamente mais tolerante. Certas coisas demoram a mudar… Quando mudam…

Talvez seja pretensão demais colocar todas as mudanças da última década na conta dos atentados ao World Trade Center, mas ironias à parte, não podemos imaginar o comércio mundial sem a China, o Brasil, a Índia, os países árabes, os demais BRICS’s, e a África. Se há 20 anos caíram os muros do mundo bipolar, há dez anos desmoronaram as colunas da economia unilateral, e hoje tentamos reerguer não um novo World Trade Center, mas novos centros, múltiplos, que compartilhem (e disputem) a circulação de capitais, pessoas, serviços e poder. A exemplo da economia e das cidades, fica claro que “nada é novo debaixo do sol”.

Só não podemos aplicar essa frase às pessoas. Essas mudam, todos os dias. E depois daquele dia, elas passaram a ter medo, medo de verdade, medo do invisível, do inesperado, do desconhecido. O pior de todos os medos. Antes era a guerra nuclear, a ameaça soviética, até ontem eram os terroristas árabes, hoje são todos nós. O atentado em Oslo, mostrou que não é apenas uma exclusividade dos muçulmanos fundamentalistas a crença de que ‘sacrifícios de vidas são necessários’. Hitler já dizia isso, reis e imperadores na antiguidade também. E agora, em meio a crise, os estrangeiros, imigrantes, podem sofrer cada vez mais, com perseguições infundadas, ou melhor, fundadas sobre o ódio.

O 11 de setembro foi um ato de ódio, guiado pela visão fundamentalista de um grupo, e resultou em um ódio ainda maior. Ódio alimentado diariamente pelo medo. Sentimento esse que volta a nos assombrar, com as imagens do passado, do ontem, daquela terça-feira de sol claro e céu azul, em que Nova York ficou coberta por cinzas. E medo do amanhã, do que pode acontecer, do que vai acontecer, não sabemos onde, ou como, quando, e se mesmo haveria respostas a um por quê?

Resta a nós, cidadãos globais, aprendermos a lição de Nova York, a cidade que não para, que se reinventa. O bairro onde ficavam as torres dobrou sua população nos últimos anos. São pessoas que não vivenciaram o trauma, e que podem imprimir ao espaço da cidade novos rumos. Se uma cidade pode superar os tristes acontecimentos do 11 de setembro, por que nós não podemos superar as tristes verdades construídas a partir daquele ‘marco zero’, e que mudam até hoje nosso cotidiano?

Nova York, seu memorial, sua Torre da Liberdade, estão imprimindo novos fatos à História. E nós, como vamos contar essa história para a geração que não viu o fatídico dia Onze de Setembro?

Imagens: Flickr.com

 

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Hinos de guerra: A Esparta do século VII a.C . nas elegias de Tirteu

Hinos de guerra: A Esparta do século VII a.C¹. nas elegias de Tirteu

Por pesquisador convidado Cristiano Maia¹

A cidade-Estado de Esparta sempre suscitou curiosidades por parte dos acadêmicos, nos estudos clássicos, bem como pelo público geral de leitores. Assim, o presente texto tem por objetivo trazer uma breve explanação sobre a Esparta do século VII, por meio do estudo das elegias de Tirteu. Dessa forma, apresentaremos a situação sociopolítica, na região do Peloponeso, vigente no século VII e suas consequências para a formação da Esparta clássica. Após, iremos tratar da imagem do aedo II Tirteu e, por fim, buscaremos os traços estruturais da sociedade espartana na obra elegíaca de Tirteu.

A forma clássica da pólis de Esparta que conhecemos, mormente, nos livros didáticos e nas obras fílmicas, nem sempre de maneira fiel com a historiografia helênica, foi um processo de construção permeado por rupturas e continuidades das estruturas espartanas – “(…) a infra-estrutura de distribuição de terra, hilotas III e perioikoi IV, com tudo que inclui de trabalho, produção e circulação; (…) o sistema governamental (incluindo-se o militar); (…) o sistema ritual (…)” – no decorrer dos séculos VI-IV, (FINLEY, 1989, p. 27 e 29). Segundo Moses Finley (1989, p. 26), a Segunda Guerra Messênica serviu de elemento catalítico para o cenário de crise (stasis), que imperava na sociedade de Esparta do século VII. Notemos que à época os messênios insatisfeitos com a subjugação espartana sobre seu povo, transformados em hilotas, e sobre suas propriedades, convertidas em celeiros destinado a alimentar com parte da produção a população dos homoioi V, enquanto estes se ocupavam dos assuntos de interesse da cidade, deram início a uma revolta, em meio a uma instabilidade social, provocada pelas lutas intestinais no grupo dos homoioi.  Para Finley (1989, p. 26), o findar da guerra com a supremacia de Esparta sobre os messênios, possibilitou a introdução de diversas mudanças de ordem política, econômica e ideológica na sociedade lacedemônia.

De modo similar, o renomado historiador brasileiro Ciro Cardoso ressalta a relevância da conquista da região da Messênia na formação clássica de Esparta, e ainda, aprofunda a relação entre a Segunda Guerra Messênica e as convulsões sociais com as transformações da sociedade lacedemônia:

No século seguinte (século VII), a revolta dos messênios levou à segunda guerra da Messênia, que segundo se crê coincidiu com o auge da luta social em Esparta pela redivisão das terras e com a adoção do sistema hoplítico de combate. Esta coincidência foi decisiva. Como as divisões entre os esparciatas estavam dificultando a vitória, num momento em que uma forma de lutar que exigia coesão havia-se tornado essencial, decidiu-se a redivisão das terras da Lacônia e da Messênia (…)(CARDOSO, 1993, p. 52)

 

Figura 1: Falange hoplita – Vaso Chigi

(Fonte: http://www.fflch.usp.br/dh/heros/traductiones/tirteu/elegias.html#**)

Para tanto, Finley e Cardoso recorrem às elegias de Tirteu (Τυρταιος) para fundamentarem seus argumentos sobre o processo de cristalização do que viria a ser a sociedade clássica espartana. Mas, quem foi essa personagem e qual a sua proeminência na elaboração da historiografia da pólis de Esparta? Na obra intitulada Os elegíacos gregos: de Calino a Crates, Falco e Coimbra (1941, p.124) asseveram que a história tirtaica foi transmitida pelos escritores da antiguidade, sendo Pausânias um deles. Pausânias (4.15.4; 4.15.5; 4.15.6) narra que após um ano da revolta na Messênia, os messênios e os lacedemônios se bateram na região de Darae, não havendo vitoriosos. O comandante messênio, Aristomenes, desejoso de infundir o medo nos lacedemônios, invadiu suas terras, à noite, e depositou no templo de Atená da Casa de Bronze um escudo com a seguinte inscrição: “Um presente de Aristomenes à deusa, tomado dos lacedemônios”. Por sua vez, os lacedemônios receberam um oráculo de Delfos o qual dizia que eles deveriam procurar um conselheiro ateniense. Assim, enviaram mensageiros à Atenas para anunciar o oráculo, perguntando por aquele que deveria aconselhá-los o que fazer. Os atenienses não desejosos de ajudá-los, mas não querendo desobedecer o deus, enviaram um homem de letras, de baixa inteligência e manco de uma perna, de nome Tirteu. Complementam Falco e Coimbra (1941, p. 124, 125 e 131), que este através de seus hinos de guerra insuflou coragem nos espartanos, que mesmo após alguns reveses, conseguiram derrotar os messênios. Destacam, ainda, que suas obras estão ligadas a dois eventos importantes na historiografia de Esparta, a saber: as guerras messênicas e as reformas de Licurgo.

 

Figura 02: Mapa da região do Peloponeso

(Fonte: http://www.utexas.edu/courses/introtogreece/lect10/img14spartmap.html)

Foi nesse cenário de guerra e revoltas que Tirteu construiu sua obra, relegando a posteridade um precioso conjunto de cantos (árias e elegias) nos quais é possível vislumbrar características das estruturas da pólis de Esparta, no século VII, através de dez fragmentos que perduraram até os nossos tempos. Trataremos aqui somente dos fragmentos I, III A e V, visto o teor exíguo do nosso texto.

Nas palavras de Tirteu (fr. I) destaca-se a formação hoplítica do exército espartano que foi uma forma inovadora na arte bélica, em contra-oposição aos duelos aristocráticos, bem visíveis na Ilíada de Homero. Outro fator a ser iluminado é a descrição do armamento do hoplita dividido-o em escudo, lança, peitoral e elmo. Esse tipo de armamento seria a identidade da falange hoplítica. Nota-se que Tirteu aludiu a divisão por tribos do exército (FALCO; COIMBRA, 1941, p. 156).

“E, como leões de ardentes olhos, filas cerradas, sob os côncavos escudos, por tribus (sic), Ileis, Pânflios, Dimanes vamos, brandindo as lanças matadoras;” VI

Adiante, Tirteu (fr. IIIA) canta a estrutura hierárquica da sociedade espartana. Recorreremos mais uma vez a Cardoso (1993, p. 55) para explicarmos esta ordem política. Á frente das funções religiosas e do comando do exército estavam os dois reis hereditários e provenientes de duas famílias proeminentes, os Ágidas e os Euripôntidas. Por seguinte, a Gerúsia ou Conselho dos Anciões composto por 28 esparciatas (homoioi) com idade acima de 60 anos, com cargos vitalícios, empossados através de um sistema eletivo. Ainda, tínhamos a Ápela ou Assembleia Popular, compostas pelos esparciatas com mais de trinta anos e os magistrados no número de cinco, sendo eleitos pela Ápela, entre os esparciatas com mais de trinta anos (CARDOSO, 1993, p.55 e 56), contudo estes não são descritos nos versos de Tirteu.

“Os reis (diarquia), que guardas são de Esparta amavel (sic) e aos deuses caros, do Conselho (Gerúsia) à frente fiquem; depois os velhos; e, terceiros, obedientes às leis, do povo os homens;”

Por fim, analisaremos o que Tirteu (fr. V) relegou em seus versos à população explorada pela pólis de Esparta: os hilotas. No trecho abaixo, exprime-se o meio de subsistência da sociedade espartana, i.e., o julgo pesado sobre a população dominada, a qual devia cultivar a terra e entregar os frutos de seu labor aos seus amos. Neste fragmento, Falco e Coimbra (1941, p.164) refletem sobre a função que ele exerceria na mentalidade coletiva espartana. Para estes autores teria a finalidade de advertir aos espartanos de um revés na ordem, caso fossem derrotados. Bergk (Apud FALCO; COIMBRA, 1941, p. 164), expõe que seria um conselho humano de brandura para com os vencidos e Romagnoli (Apud FALCO; COIMBRA, 1941, p. 164) acreditava ser um bom conselho político não exacerbar na tirania com os messênios, visto a posição delicada de Esparta ante inimigos externos e internos.

“Quais asnos que pesada carga oprime, sob o jugo funesto aos amos levam a metade de quanto a terra cria.

…………………………………………………………………………………………………………

Dessa forma, as esposas e eles próprios (messênios) os amos choram, quando a morte os tira.”

Ao final, podemos concluir que foi no auge das convulsões sociais que em Esparta emergiu Tirteu. Sob seus hinos de guerra, os espartanos marcharam insuflados pelos sentimentos de honra, coragem e destemor perante a morte. A vitória espartana ante os messênios foi decisiva para as transformações sociais posteriores dos séculos VI-IV.


Cristiano Maia é graduando em História pela UNIRIO.


I – Todas datas aqui mencionadas são anteriores a Era Cristã.

II – Cantor, poeta. (οιδός, em grego antigo)

III – Os hilotas eram os escravos da pólis de Esparta, oriundos das populações subjugadas nas guerras.

IV – Cidadãos livres das regiões vizinhas, contudo subordinados à Esparta.

V – Eram os cidadãos espartanos do sexo masculino que gozavam de plenos direitos, denominados  esparciatas ou “iguais”.

VI – Os versos foram transcritos fora de sua estrutura rítmica para facilitar a leitura e compreensão.

Referências Bibliográficas:

  • BAILLY, Anatole. Dictionnaire Grec Français. Paris: Hachette, 2000.
  • CARDOSO, Ciro Flamarion S. A cidade-estado Antiga. São Paulo: Ática, 1993.
  • FALCO, Vittorio de; COIMBRA, Aluízio de Faria. Os elegíacos gregos: de Calino a Crates. São Paulo: 1941.
  • FINLEY, Moses I. Economia e sociedade na Grécia antiga. Tradução por Marylene Pinto Michael. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
  • Para os textos de Pausânias. Acessado em 24/07/2011, às 10 horas.
  • Fonte:text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0160%3Abook%3D4%3Achapter%3D15%3Asection%3D5>
 
 
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