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Arquivo do autor:Prof. Amarildo Salvador

Sobre Prof. Amarildo Salvador

Historiador formado pelo Centro Universitário Augusto Motta, Pesquisador e membro do Centro de Pesquisas da Antiguidade.

A batalha por Jerusalém

Por Amarildo Silva

 

Diante do cerco iniciado a partir do dia 25 de maio de 70 d.C. a população de Jerusalém tinha nas facções a esperança da vitória contra as tropas do general Tito, desde a iniciativa em 66 d.C quando os revoltosos derrotaram a XIIª legião, João de Giscala, Eleazar e Simão bar Gioras preparavam o povo para o cerco ao mesmo tempo batalhavam entre si para assumir o poder total tanto na cidade de Jerusalém como na província rebelada.

A guerra da Judéia iniciada em 66 d.C tem como elemento de estopim a atitude de Floro de oprimir os judeus de Cesaréia e exigir-lhes tributos e de tomar do Templo uma quantia de dezessete talentos, a fim de empregá-los como dizia, para o serviço do imperador. Flávio Josefo relata a indignação do povo.

O povo revoltou-se imediatamente, correu ao Templo gritando e implorando, em nome de César, que o libertassem da tirania de Floro. Não houve imprecações que os mais exaltados não fizessem, nem palavras ofensivas de que não usassem contra o governador, alguns com uma caixa na mão pediam, por zombaria, uma esmola em seu nome, como o teriam feito para o mais pobre e o mais miserável de todos os homens. (JOSEFO: 1154)

A repressão de Floro foi seguida de massacres de anciãos, mulheres e crianças e a comunicação ao governador da Síria, Céstio, sobre a revolta do povo judeu. O temperamento do povo saturado pelo domínio estrangeiro conduziu a província a uma guerra aberta contra o império romano.

  

Conduzidos por João Giscala, Eleazar e Simão Bar Gioras o povo judeu armou-se derrotando assim a legião comandada pelo governador Céstio I e que era responsável pelos primeiros ataques a província da Judéia rebelada.

Como relata o historiador Flávio Josefo à morte do próprio governador, não foi pelas mãos dos rebelados, mas pela vergonha que provocou ao império.

  

A posição favorável da cidade dificultou os trabalhos de cerco do exército romano, ainda assim Josefo destacou a ferocidade do exército romano que após o inicio do cerco levou 15 dias para tomar o cinturão mais externo, ou seja, a 3ª Muralha terminada no inicio da revolta. Segundo o historiador francês Mireille Hadas-Lebel[1]: “Desde a primeira fase do cerco, que durou cerca de quinze dias e terminou com a tomada da muralha externa, Josefo tivera a confirmação daquilo que já sabia: um surto de loucura acometera os seus”.

 A conquista da cidade foi total, com o aprisionamento do único líder da revolta sobrevivente, Simão Bar Giora e o massacre dos civis, entregues a fúria dos soldados. O General Tito ainda conservou as torres construídas por Herodes para demonstrar o poderio militar romano e ordenou que a 10ª Legião acampasse na região para impedir o retorno dos judeus para cidade.

[1] Mireille Hadas-Lebel. Flavio Josefo – o Judeu de Roma p. 175 e 177.

 

Referências Bibliográficas:

 Josefo, Flávio. História dos Hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Mireille Hadas-Lebel. Flavio Josefo – o Judeu de Roma. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

 

 

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Os sacrifícios nos Andes

                                                                             Por pesquisador Amarildo Salvador

Os primeiros documentos escritos relacionados à civilização Inca provem dos conquistadores espanhóis e dos mestiços filhos dos índios com os conquistadores espanhóis como a exemplo do inca Garcilaso de La Veja (1539-1606)[1], não contestando a veracidade da documentação devemos no entanto ter um olhar critico  já que os autores estavam comprometidos com a coroa espanhola

No período que se estendeu do desembarque de Pizarro (1476-1541)[2] em Tumbez[3] (1530 – 1532) a captura do sapa inca Atahualpa (1502-1533), o Cronista Pedro de Cieza de Leon descreveu minuciosamente a civilização inca, daremos ênfase no presente texto aos rituais de sacrifício desenvolvidos por uma classe formada pelos sacerdotes que transmitiam a vontade dos deuses aos homens e que interpretavam  as catástrofes naturais como irritação desses ditos deuses que exigiam então sacrifícios humanos.

fig.1

O historiador Pedro Freire reuniu em seu livro “O soldado Pedro de Cieza de Léon e o império incaico” os principais pontos de vista catalogados por esse cronista no período da conquista dotado de uma moral cristã, como comprova essa passagem do livro de Paulo Freire.

Um dos objetivos oficiais dos descobridores e conquistadores espanhóis era evangelizar aqueles povos que desconheciam a religião cristã, sendo ateus ou praticando formas religiosas diversas. (FREIRE, p.59)

fig.2

Embora os sacrifícios tenham ocorrido nas principais civilizações pré-colombinas na civilização inca existia um diferencial a preparação psicológica da vítima para o holocausto era utilizado alucinógeno para amenizar as dores no momento da passagem.

Uma das primeiras observações citadas pelo cronista espanhol foi a presença de uma infinidade de deuses no panteão divino inca, templos majestosos e ação dos sacerdotes que iam além das funções dos templos, estavam também ligados também a agricultura e ao cotidiano social.

Os sacrifícios ocorriam em ocasiões especiais em períodos de colheita, catástrofes naturais ou em momentos de conquistas militares. Assim descreve Cieza diante dos relatos dos incas do seu tempo.

E depois de ouvir as palavras que os mentirosos sacerdotes lhes diziam, lhes davam de beber muito de sua chicha com grandes vasos de ouro, e solenizavam com cânticos o sacrifício, tornando publico neles que, para servir seus deuses, ofereciam suas vidas de tal maneira ficando alegres em receber em seu lugar a morte”.

fig.3

Podemos assim concluir a particularidade que a civilização inca conduziu as cerimônias sacrificais mesmo existindo, como na confederação Asteca nos Andes o sacrifício era entendido como uma honra, mesmo que pelo efeito das drogas o sangue das vítimas acalmavam os deuses e garantiam a existência do império.

Referencias iconográficas:

Fig.1 Altar de sacrifício inca . livro Civilizações perdidas O império Inca

Fig.2 Ossada inca achada ao norte do país. www2.uol.com.br

Fig.3 Donzela inca http://www.alagoas24horas.com.br

Referencias Bibliográficas:

Acosta, José de. História Natural y Moral de lãs Índias. Madri: Ed. José Alcina Franch. 1987

Favre, Henri. A civilização Inca. Rio de Janeiro: Editor Jorge Zahar, 2004

Freire, Pedro Ribeiro O soldado Pedro de Cieza de León e o Império Incaico. Rio de Janeiro Ed. UERJ, 2000.

Gordan F. McEwan, Michael E. Moseley, R.Tom Zuidema Civilizações Perdidas O Império Inca. Abril Coleções-Rio de Janeiro, 1998

Ribeiro, Darcy – As Américas e a civilização. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1988.


[1] Garcilaso de La Vega historiador peruano que viveu no período da dominação espanhola de origem nobre relatou as proezas da civilização inca dominada pela Espanha cristã.

[2] Pizarro conquistador espanhol que liderou a conquista do império inca.

[3] Tumbez cidade na costa do Pacifico que Pizarro desembarcou com suas tropas iniciando a conquista espanhola.

 

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Da milícia camponesa a constituição de um exército nacional

Por pesquisador Amarildo Salvador

Atualmente questionamos a existência de exércitos nacionais, as bombas nucleares e as armas com tecnologia de ponta nos fazem imaginar um conflito sem homens, no entanto essa estrutura militar tem seu nascimento na necessidade dos primeiros agrupamentos de se defenderem de invasores e ao mesmo tempo de realizar expansões territoriais.

Desde a antiguidade os dirigentes perceberam a necessidade de manter homens treinados e equipados aos seus serviços, a evolução das armas e o seu manejo proporcionavam hora a um império ora a outra a superioridade militar.

Relevo Hitita

Um dos exemplos que podemos citar foi o período em que os egípcios foram dominados pelos hiscos[1](1780 a.C. a 1570 a.C) que introduziram então na região os perigosos e assustadores carros de guerra, uma inovação logo copiada pelos próprios egípcios que os desenvolveram e foram combater os hititas[2] em Kadesh[3] (1312 a.C. a 1275 a.C) e construíram um vasto império.

Baixo relevo batalha de Kadesh

No seu livro “A constituição dos exércitos no reino de Israel” Carlos Dreher descreve como foi à coexistência das forças populares com as tropas regulares e depois o desaparecimento daquela diante desta no então reino de Israel.

 O uso do termo “exércitos” pressupõe os dois tipos distintos de forças armadas: as das forças populares ou as unidades tribais de defesa, já existentes antes do surgimento do Estado continuaram a atuar ao tempo da monarquia, e as tropas regulares, que surgiram paralelas ao reinado. Embora tenham atuado em conjunto, os dois tipos de exército também se confrontaram em conflitos internos. (pag.7 2002)

Através desse trecho podemos assim analisar desde antes da formação de um exército nacional os camponeses largavam os campos e com suas ferramentas rústicas garantiam a sua liberdade através da luta armada.

A história da humanidade está pontilhada pelos conflitos armados no seu livro “A arte da Guerra” escrita provavelmente no século IV a.C. por Sun Tzu. Esse brilhante estrategista percebe que a guerra, é “uma questão vital importância para o Estado.” Encontramos assim também no oriente uma percepção militar que norteava tanto filósofos como historiadores, por fim o próprio pai da História entra em destaque por relatar os conflitos entre os gregos e os persas.

Concluímos que a necessidade de um exército nacional está relacionada com o moral de um povo, temos que manter tropas nacionais na atividade e na constante vigilância sobre o perigo eminente de uma contestação internacional sobre nossos direitos de
liberdade nacionais e assim impor nossa crença pela força.

 [1] Hiscos soberanos estrangeiros que dominaram o Egito durante o iniciando o segundo período intermediário.

[2] Hititas povo de origem indo-européia conquistaram um território que compreendia a Anatólia atual Turquia norte e oeste da Mesopotâmia e a Palestina.

[3] Kadesh batalha entre egípcios e hititas, o resultado da batalha é tratado pelos maiores historiadores como empate, ocorrendo assim o primeiro acordo de paz da humanidade.

 Referências bibliográficas:

DREHER A. Carlos A constituição dos exércitos no reino de Israel. São Paulo: Paulus, 2002.

HERÓDOTO. História O relato clássico da guerra entre Gregos e Persa. São Paulo: Ediouro, 2001.

TZU SUN. A Arte Da Guerra. São Paulo:Paz e Terra, 2006 .


 

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A conquista de Jerusalém pelo rei Davi

Por pesquisador Amarildo Salvador

A historiografia busca através de todos os recursos para chegar à veracidade dos fatos ocorridos na sociedade humana, observando as fontes desde que essas estejam mais próximas da realidade. A tradição oral, objetos domésticos, os costumes cotidianos de um povo proporciona a direção ao qual será desenvolvida uma pesquisa, com isso nós hoje podemos retratar a região da Jerusalém do século X a.C. reduto do povo jebuseu[1], conquistada pelo rei hebreu Davi (1040 a.C. a 971 a.C.).

As fontes historiográficas remontam uma ocupação de Jerusalém desde o século XI a.C. registros mencionam a existência do povo cananeu[2], os jebuseus, que utilizavam de uma posição estratégica topográfica da região, para se proteger das investidas dos inimigos. Citados na Bíblia[3] no momento do cerco do rei Davi que observara o valor da região.

 A cidade de Jebus ficava localizada no alto do monte Ofel segundo a autora Karen Armstrong: “Davi não poderia prever tais conseqüências. Quando tomou Jerusalém, por volta do ano 1000 a.C., deve ter sentido duplamente aliviado, pois capturou esse enclave jebuseu situado no centro de seu Reino Unido e encontrou uma capital mais adequada. A união entre Israel e Judá era frágil. O reino do norte ainda se considerava uma entidade distinta, e a submissão a Davi, o antigo traidor, certamente despertava sentimentos confusos na população. Manter a sede do governo em Hebron seria imprudência, pois indicaria de modo inequívoco a ligação do soberano com o reino meridional. Já a velha Jerusalém era um território neutro: não pertencia nem a Israel, nem a Judá, tampouco tinha relação qualquer uma das vetustas tradições tribais“. (ARMSTRONG: 62)

Ao assumir o reinado Saul não mudou a estrutura tribal ao qual o povo hebreu ainda vivia. Davi ao assumir o comando do reino organiza a administração aos moldes dos exemplos do período inclusive utilizando do apoio da elite jebuséia para auxiliá-lo na condução das diretrizes do povo, incluindo também um cargo típico da organização egípcia e da mesopotâmica que era o de vizir[4].

“…vemos na Bíblia que a corte de Davi e Salomão eram idênticas à do faraó. Tinha um grão-vizir, um secretário de Relações Exteriores, um arquivista para assuntos internos e um amigo do rei“. (ARMSTRONG: 63)

Estela em inscrição hebraica - "Casa de Davi"

Além da administração, Davi utiliza-se como instrumento da legitimação do seu poder tropas regulares altamente treinadas subjugando as regiões vizinhas e implantando impostos aos povos conquistados, toma a medida religiosa de trazer para Jerusalém a Arca da Aliança, e assim constrói o Tabernáculo na Eira de Araruna[5], no Monte Moriá, comprovando o caráter diplomático desse rei. O relato bíblico menciona que a efetiva construção do Templo foi liderada pelo terceiro rei de Israel, Salomão filho de Davi.

Podemos assim concluir o efeito estabilizador que Davi proporcionou ao povo hebreu ao capturar Jerusalém, uma capital bem protegida e neutra tanto para o Reino do Norte (Israel) como para o Reino do Sul (Judá) reunindo sobre si um povo que estava se estabilizando diante das grandes potencias do Oriente Próximo, as fontes bíblicas são fortalecidas pelo desenvolvimento da Arqueologia que confirma os relatos históricos acerca do povo hebreu relatado na Bíblia.

[1] Jebuseu povo cananeu que habitava o monte Ofel conquistados por Davi.

[2] Cananeu povos semíticos que viviam na região do atual Israel.

[3] 2 Samuel: 5,8.

[4] Vizir cargo típico utilizado na região da Mesopotâmia e do Nilo um ministro responsável pela organização administrativa do reino.

[5] Eira de Araruna, território pertencente a um dos últimos governantes   jebuseu.

Fontes iconográficas:

Fig.1 Foto da réplica da Bíblia de Martinho Lutero (CCJ)

Fig.2 Mapa topográfico da região de Israel (www.snpcultura.org)/anexo: detalhes da colina Ofel descrito no livro Jerusalém uma cidade, três religiões.

Referências Bibliográficas:

ARMSTRONG, Karen. Jerusalém: uma cidade, três religiões. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2000.

JOHNSON, Paul. História dos Judeus, Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1995.

JOSEFO, Flávio. A História dos Hebreus, 8ªEd. Rio de Janeiro: Ed. CPAD, 2007.

SELTZER, Robert M. Povo Judeu Pensamento Judaico I, Rio de Janeiro: Ed. A. Koogan, 1990.

 

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Perfil Histórico: Tito Vespasiano

Por pesquisador Amarildo Salvador

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Tito Vespasiano

Tito era o filho mais velho do Imperador Tito Flávio Vespasiano[1], nasceu no ano da morte do Imperador Calígula[2]em Roma. Como prática da nobreza romana, Tito teve uma educação refinada junto com o príncipe Britânico[3], filho do Imperador Cláudio assassinado por Nero em 55 d.C.

Um ótimo orador e dominador do latim e do grego, Tito por diversas vezes discursou no senado, assumindo a responsabilidade de seu pai, de falar diante dos seus patrícios. Serviu como tribuno militar na Germânia e na Bretanha e nestes locais ainda existe inscrições e estátuas contando sobre a sua passagem e seus feitos.  

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Triunfo de Tito.

Tito foi questor e assumiu o comando da Legião correspondente a região da Judéia e devido à crise imperial diante da morte do Imperador Nero (37 d.C.- 68 d.C.)[4]assumiu toda responsabilidade na condução da guerra contra os judeus na Primeira Revolta Judaica 66 d.C. a 70 d.C., já que seu pai Vespasiano precisou retornar a Roma assumindo o comando do Império.

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Mapa do Império, no ano dos quatro imperadores.

Ao lado do pai, o imperador Vespasiano consolidou-se no poder, compôs a guarda pretoriana e na ausência paterna conduziu as principais atividades administrativas do Império, segundo o historiador Suetônio:

 Tito, chamado do mesmo jeito que o seu pai, foi querido por todo o povo romano, coisa muito difícil. Era tão superior que era um prazer para a raça humana, foram estas características o que lhe fizeram ganhar o afeto da população(2002,p.481).

Como imperador, Tito permaneceu por apenas dois anos, foi acometido por uma enfermidade aparentemente sem cura, alguns historiadores sugerem que pode ter sido causado por envenenamento encomendado pelo seu irmão Domiciano, que foi seu sucessor.

Podemos assim concluir que os feitos de Tito se igualaram aos grandes imperadores que conduziram o expansionismo romano além das fronteiras, com grande destaque na condução de sua política de apaziguamento, não perseguiu o senado, propiciou um período de tranqüilidade, estabilidade e prosperidade ao povo romano.

[1] Tito Flavio Vespasiano imperador romano que iniciou a dinastia Flávia, ocupou o poder o ano de 69 d.C.
[2] Calígula imperador romano (37 d.C. a 41 d.C).
[3] Britânico filho do imperador Cláudio e de sua terceira mulher Messalina, teve o nome alterado de Germânico para Britânico após as conquistas das ilhas Britânicas pelo seu pai em 43 d.C.
[4] Ano dos quatro imperadores, período conturbado da História imperial após a morte do Imperador Nero(68 d.C.).
 
 

Referências Bibliográficas:

SUETÔNIO. A vida dos doze Césares. 4ª Ed. São Paulo: Ediouro, 2002.

VEYNE, Paul. O Império Greco-Romano. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.

 

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Polêmica – Tanque de Betesda

Tanque de Betesda - descoberta arqueológica

A Jerusalém do século I a.C. reunia vários elementos das culturas anteriores, como babilônicos, persas e helênicos, que as tinha conquistado. O helenismo[1] profundamente difundido pela alta sociedade encontrava forças nas suas bases culturais principalmente quando estava relacionado à cura de doenças, estas eram entendidas pelos povos semíticos[2] como provenientes de demônios crença essa difundida desde períodos remotos.

O culto desenvolvido no Tanque de Betesda possuiu uma referência no texto bíblico atribuído a João em um período posterior a destruição de Jerusalém mais precisamente na década de 90 d.C. fato esse discutido por historiadores atuais que buscam a comprovação de um Jesus Histórico e que utilizam de textos joaninos para buscar tal referência.  Segundo o professor doutor André Chevitarese[3]:

“Há uma passagem em João 5:1-9 bastante conhecida porque ela diz respeito a um individuo com problemas de saúde, de movimento, que está há anos com esse problema, tentando entrar na piscina de Betesda. Jesus se aproximar dele e o cura, sem que ele precise entrar nessa piscina. Isso é a leitura (teológica) do texto. Mas, essa piscina, descoberta quando da ampliação de uma casa no contexto de Jerusalém no final do século XIX, foi escavada em meados do século XX. Para surpresa dos arqueólogos, alguns dados vieram à tona: o primeiro deles é que essa piscina faz parte de um complexo ligado ao santuário de Serápis (Asclépio) que era o deus associado à cura. Ela tem muito pouco (pelo menos o que foi escavado) haver com o ambiente estritamente judaico. Talvez, por isso, Jesus não mandou o homem mergulhar na piscina; ele o curou ali mesmo na borda. Este era um santuário do deus da cura, Asclépio, e parece ter muito mais relação com as guarnições multiétnicas romanas estacionadas em Jerusalém, o que não quer dizer que ele também não possa ter atendido a judeus helenizados[4]”.

O helenismo provocou uma intensa troca cultural, que veio a provocar grandes modificações na estrutura religiosa do povo judeu, entre esses elementos podemos assim observar a presença de cultos de deuses estrangeiros, enraizados no imaginário do povo que, como exemplo pode observar o aglomerado de pessoas que utilizavam o Tanque de Betesda fato esse comprovado pelos achados arqueológicos, o sitio arqueológico encontrado possuía mais de 5.000 m2 a importância das construções indica que se tratava de lugar público.

O local foi encontrado durante as reparações e escavações da Basílica Santa Ana em 1888 pelo professor arqueólogo, Dr. Conrad Shick, localizado atualmente no bairro Mulçumano em Jerusalém, no século I, segundo o historiador Flávio Josefo[5] esse bairro era chamado de Beseta[6] o Tanque ficava próximo da Porta das Ovelhas e da Fortaleza Antônia englobado pela terceira muralha construída inicialmente pelas ordens do rei Agripa I[7] (41-44 d.C.), muralha essa que teve sua construção embargada pelo Imperador Claudio no ano de 44 d.C. e finalmente completada no ano de 66 d.C. pelos judeus revoltosos.

Tanque de Betesda - Centro Cultural Jerusalém

Foram encontradas no local colunatas do estilo romano e uma pintura de um anjo agitando as águas que segundo os especialistas responsáveis pelo achado comprovam que essa pintura é do período dos imperadores romanos cristãos, fato esse comprovado pelos profissionais químicos atuais, responsáveis por estudos mais profundos utilizando a técnica do carbono 14.

Os romanos reutilizaram a estrutura e a aumentaram consideravelmente. Acrescentaram cisternas, bancos nas salas cobertas e, possivelmente, um altar para sacrifícios. O lugar era claramente um santuário onde se tomavam banhos de cura, sob a proteção de Serápis, como mostra as peças arqueológicas descobertas. Afrescos murais representando a cura; ex-voto comemorando as duas funções de Serápis (curas e salvamentos no mar); moedas reproduzindo a efígie de Serápis e da deusa Hígia, filha de Esculápio; uma representação mostrando Serápis como serpente com a cabeça de homem barbado. (CHRISTINE, p.18)

 O Tanque de Betesda ficava localizado próximo a uma fonte que segundo registros,  já tinha a função de abastecimento desde o período de Salomão como os mapas utilizados pela autora Karen Armstrong[8]. A primeira menção de ocupação da atual área de Jerusalém, remonta do século X a.C. pelo povo Jebuseu nesse período não tinha referências de águas subterrâneas a parte ocupada pelos Jebuseu se resumia a um elevado bem protegido e com a fonte de Gion.

No tempo de Davi e posteriormente no período de Salomão, a área foi estendida para a Eira de Araruna[9] mais ao norte o local onde seria erguido o 1º Templo e as fontes trazem a informação da construção da piscina de Siloé, um tanque que teria a sua história contada através dos milênios tendo nesse lugar também relatos de curas milagrosas.

O período do Asmoneus[10] sucedeu a um longo periodo de  intervenção estrangeira a exemplo do cativeiro na Babilônia em 587 a.C. e depois com a dominação dos persas. Esse periodo foi marcado por um sincretismo da religião judaica, com os deuses da fertilidade e da cura que eram  cultuados em fontes de águas que eram na realidade centros de cura, que reuniam assim enfermos que buscavam a libertação física e espiritual das enfermidades. O tanque nesse período (147 a.C. a 63 a.C.) recebeu o nome de um guerreiro asmoneu que lutou contra o domínio selêucida “Simão o Justo” filho de Judas Matatias[11] que prosseguiu contra os batalhões dos selêucidas que continuamente avançavando sobre a Judéia e que por diversas vezes foram derrotados pelos exércitos mercenários dos reis judeus.

Há dois períodos distintos na vida do sitio: o período judaico e o período romano. O período judaico começou quando o sumo sacerdote Simão, filho de Onias (220-195 a.C.), construiu dois grandes reservatórios para o fornecimento de água ao Templo (cf. Eclo 50,3 e Carta de Aristéias). “Tais reservatórios não podiam, é claro, ser utilizados por doentes”. (PRIETO, p.18)

Herodes o grande (37 a.C.-4 d.C.) foi o grande construtor da Judéia assumiu o reinado sobre a região com o apoio do Senado romano em 37 a.C. e após a tomada da cidade de Jerusalém empreendeu seu mega projeto de transformar Jerusalém de uma simples área de dominação romana em uma das jóias do Oriente dando a cidade contornos de uma polis greco-romana. Nesse período segundo  Pietro, Herodes o Grande mandou construir um terceiro reservatório separando assim a ala dos doentes. No período de Herodes o Tanque de Betesda também era chamado de Tanque das Ovelhas devido à proximidade com a Porta das Ovelhas utilizadas nos sacrifícios.

Após a destruição do ano de 70 d.C. a cidade de Jerusalém foi ocupada pela X Legião romana a parte ocupada correspondia ao bairro da elite de Jerusalém o bairro da Cidade Alta que tinha como proteção o conjunto de torres (Fazael, Mariane e Hipicus) construídas também por Herodes o Grande. A X Legião ficou responsável pela ocupação da cidade destruída para impedir a sua ocupação o culto a Asclépio fora mantido por esses soldados que utilizavam as águas do Tanque para os banhos ritualísticos dedicados ao deus da medicina.

Transformada em uma cidade de porte reduzido Jerusalém passou a ser conhecida como Aelia Capitolina projeto de reconstrução empreendido pelo imperador Adriano e dedicada a Júpiter em 135 d.C. após a terceira revolta Judaica liderada por Simão Bar Kokhba[12] Jerusalém tem seu tamanho reduzido e assim o Tanque de Betesda que outrora fora consagrado a deuses semíticos como Eshmun, Sadrafa agora mais uma vez dava lugar ao deus sincretizado greco-romano Serapís-Asclépio.

Jerusalém destruída

Os semitas acreditavam na habitação de deuses ou de espíritos na águas e fontes. A fonte é manifestação da vida divina e, na literatura hebraica, vamos encontrar “anjos das águas” e “anjos dos rios”. A helenização da Palestina, apesar da resistência nacionalista e religiosa ortodoxa, abriu as mentalidades para o exterior e permitiu a implantação de tradições terapêuticas estrangeiras como, por exemplo, aquelas praticadas na Síria cuja influência foi muito forte. Os romanos retomaram e desenvolveram as atividades medicinais religiosas ao redor dos pontos de água. Temos sinais disso: banhos de Bethzatha foram aumentados; banhos de Tiberíades tinham grande reputação; em Gadara, na Decápole cerimônias religiosas, com grande concorrência de público, eram realizadas até o século VI d.C. (PRIETO, p. 20)

A narrativa bíblica em relação a cura de um homem coxo fora das águas da piscina, demonstra que Jesus interrompe uma crença pagã, crença essa que cultuava o semideus Asclépio filho de Apolo, cultuado pelas legiões romanas devido ao estado bélico desse império, os soldados moribundos apelavam para a clemência desse deus-médico para sobreviver às ferocidades das batalhas fato esse comprovado posteriormente pela sobrevivência do culto mesmo após a destruição da cidade após 70 d.C.onde a população de Jerusalém teve cinqüenta por cento da população assassinada pelas legiões e a parte restante entregue aos jogos de gladiatura e a escravidão.

Podemos assim concluir através dos séculos que a construção envolvendo o abastecimento de água com fontes também estava relacionados aos cultos pagãos ligados à cura. O sincretismo religioso iniciado nos primórdios da civilização hebréia em contato com as civilizações da Mesopotâmia foi ganhando força com a dominação dos babilônicos, dos persas e posteriormente dos helênicos assim no século I d.C. a naturalidade dos cultos pagãos de cura milagrosa coexistia com as atividades ligadas ao templo tendo uma forte oposição liderada pelos saduceus[13] que formavam a elite do Templo.

[1] Helenismo expansão da cultura grega pelo oriente difundida no período das conquistas de Alexandre o Grande

[2] Semítico eram povos que vivam no Oriente Médio formado por judeus, caldeus babilônicos etc.

[3] André Leonardo Chevitarese atualmente é Professor Associado I da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Professor do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu Nacional do Rio de Janeiro, Professor Visitante do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Antiga Grega, Romana, Judaísmo Helenístico e Paleocristianismo.

 [4] Trecho da entrevista concedida aos pesquisadores do Centro de Pesquisas da Antiguidade Maurício Santos e Elaine Herrera pelo Professor André Chevitarese postada no Blog CPA em 05 de março de 2010.

[5]Flávio Josefo historiador judeu que viveu no período de 37 d.C. até 100 d.C. general rebelde judeu que se entrega ao general Vespasiano futuro imperador Romano (69 d.C. a 79 d.C.)

[6] Beseta bairro mais setentrional de Jerusalém relação ao monte Beseta.

[7] Agripa I rei da Judéia no período de 41 a 44 d.C. reino de Herodes o Grande reconstituído ao seu neto denominado Herodes  Agripa I por ordem do imperador Calígula e posteriormente por Cláudio.
 
[8] Karen Armstrong historiadora especialista na história do povo judeu Bacharel em Literatura pela faculdade de Oxford na Inglaterra atualmente é comentarista de assuntos religiosos envolvendo as três maiores religiões monoteístas do mundo.
 
[9] Eira de Araruna localizado no Monte Moriá propriedade adquirida através de compra pelo rei Davi pelo jebuseu Araruna.
 
[10] Asmoneus dinastia que governou a Judéia do periodo de 167 a.C. a 63 a.C..

[11] Judas Matatias sacerdote judeu que não inclinou ao intervencionismo selêucida refugiado no deserto e iniciando uma guerrilha contra os batalhões selêucidas que investiam contra os opositores judeus contrários ao helenismo.

[12] Simão Bar Kokhba “filho da estrela” líder rebelde judeu que liderou o povo judeu contra o sincretismo do Imperador Adriano que buscou centralizar o seu domínio tendo como base cultural religioso o helenismo.

[13] Saduceu parcela da população que formava a elite de Jerusalém os membros dessa classe social formava a elite sacerdotal que detinha o poder econômico da Judéia.

Referências Bibliográficas:

ARMSTRONG, Karen. Jerusalém: uma cidade, três religiões. São Paulo: Ed. Companhia das Letras,2000.

 BORGER, Hans. Uma história do povo judeu. 4ª Ed. São Paulo: Sêfer, 1999. 

 JOSEFO, Flávio A História dos Hebreus, 8ªEd. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

GOODMAN, Martin. A classe dirigente da Judéia. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

OTZEN, Benedikt. O judaísmo na antiguidade. São Paulo: Paulinas, 2003.

PRIETO, Christine. Cristianismo e Paganismo. São Paulo: Paulus, 2007.

 

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Imagética do Império Inca – Parte II

 

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