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Um monarca brasileiro à solta no Egito

06 dez

* Uma homenagem a S.M.I. D. Pedro II, na semana de seu aniversário.

D. Pedro II por volta dos 22 anos de idade, c. 1848.

D. Pedro II por volta dos 22 anos de idade, c. 1848.

O estudo do antigo Egito foi objeto de fascínio dos dois imperadores brasileiros. Motivado pelo interesse pessoal e pelos objetos deixados pelo pai, D. Pedro I, que até adquiriu uma múmia rara da região de Tebas, D.Pedro II, um poliglota e estudioso, foi o primeiro governante brasileiro a viajar ao Egito.

No acervo do imperador constavam três múmias e uma delas, a sacerdotisa Sha-Amon-em-su, (uma cantora do templo de Amon) era uma das oito do mundo que se encontrava com os braços enrolados separados do corpo e seu sarcófago ainda está fechado nos dias de hoje. Graças a um exame de tomografia foi constatado que a múmia possui todos os amuletos de ouro, incluindo um escaravelho.

A imperatriz Teresa Cristina, esposa de D. Pedro II, trouxe da Sicília, como dote de casamento, mais de 700 itens distribuídos entre vasos de cerâmica, lamparinas e estatuetas de terracota, objetos de bronze, esculturas em pedra e frascos de vidro. Outros elementos da coleção, como os vasos etruscos, foram encontrados durante as escavações arqueológicas promovidas pela própria imperatriz em suas terras.  As peças datam de um período histórico que se estende dos séculos VII a.C ao III d.C. Foi por intermédio de Teresa Cristina que, em 1853, Fernando II – Rei das Duas Sicílias e irmão da imperatriz – mandou para o Brasil peças de vários sítios arqueológicos da Itália, a maioria de Herculano e Pompéia.

D. Pedro II contribuiu com diversas peças de arte egípcia e também com fósseis e exemplares botânicos obtidos por ele em suas viagens. Todo este acervo contribuiu para a fundação do Museu Nacional, que se tornou o centro mais importante da América do Sul em História Natural e Ciências Humanas.

A presença ativa do Imperador estava em todos os assuntos relacionados com a ciência, a tecnologia e a educação. Fazendo o papel de mecenas, o interesse de Dom Pedro II pelas ciências o levou a buscar a companhia de cientistas, tanto no Brasil como no exterior, e a participar de todos os acontecimentos culturais e científicos mais importantes do país. Para se ter uma idéia, o colégio D. Pedro II – a única Instituição a realizar os exames que possibilitavam o ingresso nos cursos superiores – era mantido pelo imperador e ele mesmo escolhia os professores, assistia às provas e conferia as médias. Ajudou, de várias formas, o trabalho de vários cientistas. Financiou ainda vários profissionais como arquitetos, engenheiros, farmacêuticos, médicos e pintores.

Apreciador da literatura e das artes, o monarca incentivou a criação das Escolas Normais, dos Liceus de Artes e Ofícios, dos Conservatórios Dramático Brasileiro e Imperial de Música. Criou e coordenou o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e apoiou os estudos de artes plásticas com doações de bolsas e prêmios, financiados por ele próprio.

Em 1871, após conseguir autorização da Câmara para viajar à Europa em função do falecimento de sua filha caçula, D. Leopoldina Teresa, o imperador aproveitou a oportunidade para realizar uma excursão de quinze dias ao Egito. Possuindo um grande conhecimento sobre diversos assuntos, D. Pedro II ansiava por poder visualizar tudo aquilo que aprendera nos livros e com seus preceptores e também encontrar os homens sábios do Velho Mundo para discutir com eles suas idéias.

Os apontamentos realizados pelo imperador em sua primeira viagem ainda revelam uma Egiptologia que estava em um grau de desenvolvimento inicial – apesar desta viagem já ter ocorrido na segunda metade do século XIX, as informações ao qual o monarca tivera acesso no Brasil ainda correspondiam a fase da Egiptologia do início do século XIX. O roteiro da visita se restringiu apenas à região do Baixo Egito, foram visitadas as cidades de Alexandria e do Cairo e de lá o monarca seguiu com sua comitiva também até os sítios arqueológicos de Mênfis, onde haviam sido feitas descobertas recentes. Mesmo com o tempo escasso, D. Pedro II participou de sessões no Instituto Egípcio de Alexandria e foi eleito membro honorário do Institut National d´Egypte.

Ao retornar ao Brasil, novamente o monarca mergulhou nos livros, estudando a fundo o que vinha se produzindo sobre a civilização egípcia e tomando ciência daquilo que os egiptólogos que conhecera na primeira viagem estavam descobrindo, e previamente organizou uma nova viagem ao Egito. Passando primeiramente pelos Estados Unidos e depois pela Europa, no final de novembro de 1876 D. Pedro II retornou às terras egípcias. Esta segunda viagem era uma verdadeira expedição de reconhecimento, durou vinte e sete dias, nos quais o imperador pôde participar de reuniões no Institut National d´Egypt, fotografar, consultar obras com estudos sobre o Egito e debater com os principais egiptólogos daquela época.

D. Pedro II pôde vivenciar in loco o processo de legitimação colonial pelo qual o Egito estava passando. A busca pela criação de uma nova memória, como evidenciado no capítulo anterior, que permitisse uma ligação direta entre o antigo Egito faraônico e o atual dominado pelos ocidentais, desconsiderando o período da dominação muçulmana serviu como ferramenta para inferiorizar os egípcios muçulmanos modernos. Na concepção dos europeus, os habitantes do Egito eram incapazes de produzir conhecimentos sobre si próprios e desta forma as grandes potências da Europa é que deveriam guiá-los, pois já estavam mais adiantadas dentro de um processo de evolução, o que as tornavam capacitadas para tal missão.

Dentro desta concepção, o imperador em suas anotações procurou relacionar os egípcios muçulmanos aos indígenas e negros brasileiros, pois estariam todos no mesmo patamar evolutivo – entre a selvageria e a barbárie – de acordo com a ideologia evolucionista. Também as dádivas naturais do Egito mereceram a atenção de D. Pedro II, pois permitiram o desenvolvimento de uma grande civilização que se tornou um poderoso Estado na antiguidade. Diante de tais condições não estaria o Brasil, com suas riquezas naturais, predisposto a se tornar também uma grande potência no futuro como o Egito fora no passado?

D. Pedro II e sua comitiva junto à esfinge de Gizé. O. Schoeff, 1872. Biblioteca Nacional

D. Pedro II e sua comitiva junto à esfinge de Gizé. O. Schoeff, 1872. Biblioteca Nacional

Referências Bibliográficas:

CAMARA, Giselle Marques; RODRIGUES, Antonio Edmilson Martins. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO DE JANEIRO Departamento de História. “Então esse é que é o Imperador? Ele não se parece nada com reis”: algumas considerações sobre o intelectual brasileiro Pedro de Alcântara e suas viagens pelas terras do Nilo. 2005. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, 2005, cap. 4.

LEFEBVRE, Georges. O nascimento da moderna historiografia. Lisboa: Sá da Costa, 1981.

SAID, Edward W. Orientalismo – o Oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

SCHARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

VERCOUTTER, Jean. Em busca do Egito esquecido. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

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