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Grandes mulheres do Egito antigo – Tetisheri

23 nov

A XVII dinastia egípcia (1630-1539 a.C.) entrou para a História daquela civilização devido aos seus reis guerreiros originários da cidade de Tebas, no Alto Egito, os quais iniciaram o movimento que levou à expulsão dos hicsos [1] da região do Delta do Nilo e a reunificação do país já no início da XVIII dinastia (1539-1292 a.C.), no reinado do faraó Ahmósis.

Estes homens que passaram grande parte de suas vidas enfrentando os invasores do Egito precisavam de companheiras confiáveis que estivessem prontas para reger o país, cuidar da segurança dos herdeiros e tomar decisões importantes enquanto seus maridos estivessem fora, nas campanhas militares.

Uma destas mulheres foi tão valorosa que após sua morte mereceu uma grande honra concedida pelo próprio Ahmósis, o faraó libertador: a construção de um túmulo em Abidos, uma das regiões mais sagradas do Egito por ser o centro do culto ao senhor do mundo dos mortos, o deus Osíris. Esta dama favorecida foi a rainha Tetisheri, avó do libertador e a primeira de uma linhagem de mulheres fortes que estiveram lado-a-lado com seus maridos faraós durante o movimento de expulsão dos invasores hicsos.

Tetisheri não era originária da Família Real, seus pais eram o juiz Tjenna e sua mulher Nefru [2], porém ela foi escolhida pelo faraó Senakhtenre Taô I para ser não somente sua esposa, mas sua Grande Esposa Real, ou seja, sua rainha principal. O casal gerou o príncipe Sekenenré Taô II, que se tornou faraó sucedendo ao pai e deu continuidade à luta contra os hicsos, morrendo em batalha, e as princesas Inhapy, Sitdjehuty e Ahotep I, sendo esta última a Grande Esposa Real do próprio irmão e mãe do libertador Ahmósis, tendo atuado como regente durante a minoridade do filho.

Desta forma, o faraó Ahmósis era neto da rainha Tetisheri tanto por parte de pai quanto de mãe e após a morte da avó quis honrar aquela que foi responsável por trazer ao mundo os homens e mulheres que lideraram os egípcios contra os invasores de suas terras. Sepultado inicialmente próximo a Tebas, cidade originária da Família Real, o corpo da rainha foi transladado por ordem do rei para uma nova tumba em forma de pirâmide localizada em Abidos, lugar de peregrinação para o culto de Osíris e onde o próprio faraó mandara construir seu templo funerário.

Em uma estela comemorativa encontrada no local, a falecida rainha Tetisheri é representada sentada em um trono, usando uma coroa com um abutre encimada por duas penas de avestruz e recebendo oferendas de seu neto, o faraó, demonstrando que ela própria já havia se tornado uma divindade. Um texto explicativo acompanha a imagem e mostra o respeito que o rei nutria pela avó:

“O próprio rei disse, ‘Eu me lembro da mãe de minha mãe, mãe de meu pai, a Grande Esposa Real e Mãe do Rei, Tetisheri, já falecida. Ela já possui uma tumba e um monumento funerário nas terras de Tebas e de Abidos, mas eu digo isto para vocês porque Minha Majestade deseja construir uma pirâmide para ela na necrópole próxima do meu próprio monumento, com um lago cavado, árvores plantadas, oferendas de pães’… Assim que Sua Majestade ordenou, tudo foi posto em ação rapidamente. Sua Majestade fez isso porque a amou mais do que tudo. Os reis do passado nunca fizeram algo parecido por suas mães”.

Tetisheri inaugurou uma linhagem de rainhas patriotas que continuou com Ahotep I e Ahmés Nefertari. Elas seriam lembradas pelos seus sucessores por terem desempenhado um papel fundamental na condução do Egito rumo à reunificação enquanto seus maridos e filhos combatiam os hicsos e, posteriormente à expulsão destes, na reconstrução das Duas Terras.

Estela comemorativa em honra à rainha Tetisheri. Museu egípcio do Cairo.

Estela comemorativa em honra à rainha Tetisheri. Nela seu neto, o faraó Ahmósis é retratado realizando uma oferenda para a soberana falecida e divinizada. Museu egípcio do Cairo.

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[1] Povo advindo da Ásia que por volta de 1650 a.C. se fixou na região do delta do rio Nilo e criou aí um governo paralelo ao dos faraós da cidade de Tebas, capital do Egito. Foram os primeiros estrangeiros que conseguiram invadir o território egípcio. Os hicsos trouxeram inovações militares como a introdução dos carros de guerra e do arco de longo alcance, que posteriormente foram dominados e utilizados pelos próprios egípcios para expulsá-los durante o reinado do faraó Ahmósis.

[2] Os nomes dos pais de Tetisheri foram encontrados gravados em bandagens de múmia que estavam na tumba da rainha.

 

Referências Bibliográficas:

NOBLECOURT, Christiane Desroches. A mulher no tempo dos faraós. Campinas: Papirus, 1994.

TYLDESLEY, Joyce. Chronicle of the queens of Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2006.

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