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Referências a homossexualidade no Egito antigo

17 nov
Mulheres participando de banquete. Detalhe de mural proveniente da tumba de Nebamun. Museu Britânico. Londres.

Mulheres participando de banquete. Detalhe de mural proveniente da tumba de Nebamun. Museu Britânico. Londres.

As referências à homossexualidade entre homens e, especialmente entre as mulheres são muito escassas nos textos e na arte do Egito antigo. Tal fato de forma alguma elimina a possibilidade da existência deste comportamento na esfera daquela sociedade, apenas torna mais difícil seu estudo.

A homossexualidade masculina, ainda que tolerada, não era um ato moralmente aprovado, e foi condenada legalmente em determinados períodos da história egípcia. Violar outro homem era considerado um ato de agressão, pois era visto como um meio de obter poder sobre um adversário. Um conto envolvendo os deuses narra o estupro de Hórus por Seth (apesar de outra versão do mesmo conto apresentar a relação dos dois deuses como consensual). Já o lesbianismo é mencionado em alguns poucos textos, como o do Papiro Carlsberg XIII, normalmente com tom de desaprovação: “Se uma mulher sonha que tem relações sexuais com outra mulher, caminha para um triste fim”.

No Livro dos Mortos [1] há uma passagem que menciona as virtudes de não praticar um ato homossexual. Existem textos de sabedoria e listas de proibições que condenam a prática homossexual. Já a passagem 32 do Papiro Prisse [2], que se encontra na Biblioteca Nacional da França, especifica a homossexualidade e os prazeres das relações com pessoas do mesmo sexo:

“Não copules com um efebo, principalmente se ele pensa o contrário lhe agrada e somente isso pode satisfazer a sua paixão. Não passes a noite fazendo com ele, o que é contrário a fim de satisfazer os seus anseios”.

No Louvre, o papiro E 25351 que data da XXV dinastia (c. 700 a.C.) narra a história de um homem chamado Teti, filho de Hemut, que vê o seu soberano sair sozinho durante a noite para um encontro furtivo:

“Sua Majestade, o Rei do Alto e do Baixo Egito Neferkare, saiu à noite, totalmente sozinho, não havendo ninguém com ele. Teti afastou-se de modo a não ser visto por ele. Parou e disse de si para consigo, ‘Sendo as coisas o que são, parece ser verdade o que dizem: ele sai à noite’.

Teti, filho de Hemut, seguiu o soberano sobre os calcanhares deste sem desfalecimento para descobrir o que ia fazer. Chegou à casa do general Sisene. Jogou um tijolo e bateu com o pé no chão, em virtude do que uma escada foi baixada até onde se encontrava. O Faraó subiu por ela enquanto Teti permaneceu lá embaixo esperando pelo seu retorno. Quando Sua Majestade tinha terminado de fazer com o general o que desejava, voltou ao palácio, e Teti o seguiu. Quando o Faraó entrou no palácio, Teti foi para casa.

Sua Majestade tinha ido à casa do general Sisene quando quatro horas da noite haviam se passado, e lá permaneceu outras quatro horas. E só voltou ao palácio quando faltavam quatro horas para o amanhecer”.

Os estudiosos ainda não chegaram a uma conclusão sobre quem seria o faraó mencionado no texto, pois dois soberanos egípcios utilizaram o nome de trono Neferkare (“Belo é o espírito de Rá”) [3], porém independente disto, o texto parece corroborar com o tom de desaprovação da sociedade egípcia em relação a homossexualidade, pois o rei mesmo sendo a autoridade máxima no Egito antigo e, inclusive considerado uma divindade, precisava fugir durante a noite de seu palácio para encontrar-se com seu amante, fato que já motivava comentários por parte de outras pessoas, e que despertou a curiosidade de Teti levando-o a secretamente seguir o monarca.

Cabeça colossal do faraó Shabaka. Museu do Louvre, Paris.

Cabeça colossal do faraó Shabaka. Museu do Louvre, Paris.

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[1] O chamado Livro dos Mortos era uma série de encantamentos, ações e preces que os egípcios reproduziam em seus túmulos com a finalidade de conseguir a aprovação dos deuses para alcançar o mundo dos mortos governado por Osíris.

[2] Este papiro também conhecido como Ensinamento de Ptahotep, é atribuído a Ptahotep, vizir do faraó Isesi que reinou na V dinastia, entre 2380 e 2342 a.C. aproximadamente.

[3] Um dos possíveis faraós ao qual o texto se refere seria Pepi II Neferkare que governou o Egito por volta de 94 anos (c. 2281 a 2187 a.C.), no final da VI dinastia, tendo iniciado seu reinado aos seis anos de idade. Já a outra possibilidade seria Shabaka Neferkare, faraó de ascendência núbia (a Núbia localizava-se no território onde hoje se encontra a República do Sudão), que governou o Egito entre 721 e 707 a.C., durante a XXV dinastia.

 

Referências bibliográficas:

EL-QHAMID & TOLEDANO, J. Erotismo e sexualidade no antigo Egito. Barcelona: Folio, 2007.

MANNICHE, Lise. A vida sexual no antigo Egito. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

MELLA, Federico A. Arborio. O Egito dos faraós: história, civilização, cultura. São Paulo: Hemus, 1998.

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