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O Cristianismo como o maior desafio à cultura grega

17 abr

Por pesquisador convidado Jorge Gabriel Rodrigues de Oliveira[1]

A princípio, talvez para leigos, dissertar num mesmo contexto acerca do Paganismo e do Cristianismo pode parecer uma tarefa contraditória, se for levada em conta uma das características mais básicas entre a(s) religião(ões) dos gregos, que possuía base politeísta (VERNANT, 2009) e a religião cristã, que apesar da Trindade, apresenta um Deus único, ou até mesmo por conta da forte aversão ao Paganismo politeísta empreendida pela Igreja Católica durante todo o Medievo, que resultou no movimento da Inquisição (DELUMEAU, 2009). Contudo, por mais estranho que possa parecer, entendemos que boa parte dos pressupostos cristãos se originaram no pensamento filosófico grego, através do Helenismo.

Podemos dizer que o Helenismo, numa análise histórica, foi um processo, essencialmente cultural, baseado na influência da cultura grega sobre Oriente, incluindo-se aí o próprio Cristianismo, inicialmente uma seita judaica isolada na Judeia (CHEVITARESE; CORNELLI, 2003). Entretanto, cabe ressaltar que para a Historiografia, esses contatos culturais que ocorrem entre as civilizações não são unilaterais; ou seja, quando culturas ou determinadas práticas culturais de um povo entram em contato com as de outro povo, o que ocorre é uma espécie de “contaminação cultural” mútua (CHARTIER, 1990). Partindo dessa premissa teórica da História Cultural (BURKE, 1992), podemos afirmar então que, ao passo que o Cristianismo foi um desafio à cultura grega, esta cultura também foi um desafio ao Cristianismo.

Doravante, o primeiro desafio foi justamente o da chegada da cultura grega ao Cristianismo, ou ainda uma seita cristã da Judeia, uma vez que com a difusão do idioma grego koiné pelo Oriente, graças a atuação primeva de Alexandre, os judeus tiveram que passar por um amplo processo de helenização. Ou seja, se deixaram levar pela tendência da época e aprenderam a língua grega, entretanto, ao constatarmos o uso do koiné por judeus-cristãos, cabe considerar que esses palestinos apropriaram-se também de um conjunto de conceitos próprios da linguagem e cultura grega helenística (SANTOS, [?]). Por outro lado, consideramos que esse desafio enfrentado na Judeia, foi relativamente facilitado, uma vez que o Cristianismo, originalmente, foi um movimento judaico e os próprios judeus tinham consciência de sua própria helenização já nos tempos de Paulo, não somente por conta da Diáspora, mas dentro da própria Palestina; tanto é que foi em direção a essa parcela de judeus já helenizados que os missionários cristãos atuaram (JAEGER, 1993).

O segundo desafio é inversamente proporcional ao primeiro, uma vez que movimenta-se do Cristianismo para o Paganismo grego. Jaeger considerou que apesar da identificação da figura de Jesus e mesmo de algumas práticas cristãs com o Oriente, no caso o Judaísmo no Antigo Oriente Próximo, a cultura grega exerceu um profundo impacto na mentalidade cristã. A hipótese do autor é baseada na ideia de que o kérygma ou a transmissão da “boa nova” não se limitou ao isolamento da Judeia e na medida em que o Cristianismo ganhou força, principalmente após a conversão do imperador Constantino, tornou-se necessário fundamentar as bases do movimento em sólidos argumentos filosóficos (JAEGER, 1993).

Contudo, falar de Cristianismo e Paganismo, tomando como fio condutor o processo de helenização do Mediterrâneo e Oriente Próximo, é uma tarefa muito mais profunda e complexa que traçar limites entre esses dois pólos (Cristianismo e filosofia grega). Um exemplo dessa afirmação está contido nas pesquisas desenvolvidas por Cornelli, sobre os chamados Papiros Mágicos Gregos. O conteúdo desses documentos compreende um conjunto de fórmulas e rituais mágicos, que fazem encontrar-se elementos místicos gregos, egípcios, judaicos e cristãos, tornando-se assim uma das maiores expressões do Helenismo (CHEVITARESE; CORNELLI, 2003). Partindo dessas premissas, para ilustrar a simbiose ocorrida entre a tradição grega pagã e a cristã contida nos Papiros Mágicos Gregos, podemos citar um ritual de exorcismo utilizado para a cura de doentes; apesar do ritual indicar a súplica a diversas divindades egípcias, em seu momento crucial, da expulsão do demônio do doente, o que ocorre são invocações feitas a figuras judaico-cristãs como Moisés e Jesus:

“Te suplico em nome do deus dos hebreus, Jesus, (orkizo se kata tou theou ton ebraion Iesou) IABAE IAE Abraoth AIA Thot ELE ELO AEO EOU IIIBAECH ABARMAS IABARAOU ABELBEL LONA ABRA MAROIA BRAKION você que aparece no fogo, que está no meio das roças, na neve e na neblina.

(…)

Te suplico em nome daquele que apareceu em Israel numa coluna de luz [Moisés] e numa nuvem em pleno dia, que libertou seu povo do Faraó…” (CHEVITARESE; CORNELLI, 2003). Grifo nosso.

Ou seja, nesse exemplo podemos ver os gregos utilizando elementos cristãos em rituais mágicos, o que comprova a ideia desenvolvida no início do texto, acerca do processo de trocas culturais entre o Cristianismo e o Paganismo. Ambos os desafios foram superados a sua própria maneira: se por um lado, o Cristianismo carente de uma base filosófica para fundamentar suas ideias se apropriou e deu novos significados aos conceitos gregos (pagãos), por outro lado, os gregos também se apropriaram de elementos cristãos, ou mesmo da própria figura de Jesus, para auxiliá-los em seus rituais mágicos. Esses contatos e inculturações com o Paganismo, acabaram multifacetando o Cristianismo, principalmente através do surgimento de correntes gnósticas, que bastante influenciadas por esses costumes e ideias antigas, deram um caráter não-ortodoxo ao Cristianismo e que, portanto, foram combatidas pelos grandes pensadores dos primeiros momentos do cristianismo. Avançando as fronteiras da Antiguidade Tardia, podemos afirmar inclusive, que é possível detectarmos vestígios desse processo de inculturação do Paganismo no Cristianismo até na Idade Média, com o aparecimento das heresias. Entretanto, a Igreja de um lado com a solidez de seus dogmas e sua ortodoxia e de outro com o uso da violência, mais uma vez conseguiu suprimir esses resultados de séculos de inculturações entre o Paganismo e o Cristianismo na Antiguidade Tardia.

[1] Jorge Gabriel Rodrigues de Oliveira é Graduado em História – UGF, pós-graduando em História Antiga e Medieval – FSB, professor SEEDUC-RJ

Está postagem refere-se ao “Dia do Leitor”

Referências:

BURKE, Peter. A Revolução Francesa da Historiografia: A Escola dos Annales (1929-1989). Tradução Nilo Odália. 2ª ed. São Paulo: UNESP, 1992.

CHARTIER, Roger. A História Cultural: Entre Práticas e Representações. Tradução Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.

CHEVITARESE, André Leonardo; CORNELLI, Gabrielli. Judaismo, Cristianismo, Helenismo: Ensaios sobre Interações Culturais no Mediterrâneo Antigo. Itu: Ottoni Editora, 2003.

DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente 1300-1800: Uma Cidade Sitiada. Tradução Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

JAEGER, Werner. Cristianismo Primitivo y Paideia Griega. 6ª Reimpressão, México: Fondo de Cultura Económica, 1993.

SANTOS, Rita de Cássia Codá dos. A Herança Helenística na Pregação Paulina. [S.l.: s.n], [?].

VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Religião na Grécia Antiga. Tradução Joana Angélica D’Ávila Melo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

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