RSS

Arquivo da categoria: HISTÓRIA ANTIGA

Pesquisadora Elaine Bordalo, do CPA/RJ, lança livro

Acaba de ser publicado, pelo Grupo Editorial Scortecci, um livro que trata de um assunto ainda pouco pesquisado, mas muito instigante e que envolve História Antiga e Direito.

Delitos Contra A Divindade No Mundo Antigo é um livro que propõe uma viagem ao período Pré-Clássico na Babilônia de Hammurabi e ao período bíblico do Antigo Testamento com o profeta Moisés. Uma análise comparativa dos códigos de Hammurabi e de Moisés com intuito de trazer à discussão questões que envolviam o roubo ao “Sagrado”.

A autora Elaine Bordalo, historiadora, especialista em História Antiga e Medieval pela Faculdade São Bento/RJ e Pós-Graduanda em Arqueologia, História e Sociedade pela Universidade de Santo Amaro, pesquisadora da História do Antigo Israel e membro do Centro de Pesquisas da Antiguidade (CPA/RJ) tratou o tema com seriedade buscando na historiografia e em fontes históricas a argumentação necessária para fundamentar a pesquisa. Esta poderá abrir novos questionamentos sobre a política e a religião no Antigo Oriente Próximo.

Com prefácio do Professor Doutor em Filosofia Victor Sales Pinheiro, Delitos Contra A Divindade No Mundo Antigo é um livro que vale a pena conferir!

O livro já se encontra disponível no site da Livraria Virtual Asabeça:

http://www.asabeca.com.br/detalhes.php?prod=6654&friurl=_-DELITOS-CONTRA-A-DIVINDADE-NO-MUNDO-ANTIGO–Elaine-Bordalo-_&kb=884#.UrI5HOl3vIU

Livro Elaine

 

Tags: , , , , , ,

Um monarca brasileiro à solta no Egito

* Uma homenagem a S.M.I. D. Pedro II, na semana de seu aniversário.

D. Pedro II por volta dos 22 anos de idade, c. 1848.

D. Pedro II por volta dos 22 anos de idade, c. 1848.

O estudo do antigo Egito foi objeto de fascínio dos dois imperadores brasileiros. Motivado pelo interesse pessoal e pelos objetos deixados pelo pai, D. Pedro I, que até adquiriu uma múmia rara da região de Tebas, D.Pedro II, um poliglota e estudioso, foi o primeiro governante brasileiro a viajar ao Egito.

No acervo do imperador constavam três múmias e uma delas, a sacerdotisa Sha-Amon-em-su, (uma cantora do templo de Amon) era uma das oito do mundo que se encontrava com os braços enrolados separados do corpo e seu sarcófago ainda está fechado nos dias de hoje. Graças a um exame de tomografia foi constatado que a múmia possui todos os amuletos de ouro, incluindo um escaravelho.

A imperatriz Teresa Cristina, esposa de D. Pedro II, trouxe da Sicília, como dote de casamento, mais de 700 itens distribuídos entre vasos de cerâmica, lamparinas e estatuetas de terracota, objetos de bronze, esculturas em pedra e frascos de vidro. Outros elementos da coleção, como os vasos etruscos, foram encontrados durante as escavações arqueológicas promovidas pela própria imperatriz em suas terras.  As peças datam de um período histórico que se estende dos séculos VII a.C ao III d.C. Foi por intermédio de Teresa Cristina que, em 1853, Fernando II – Rei das Duas Sicílias e irmão da imperatriz – mandou para o Brasil peças de vários sítios arqueológicos da Itália, a maioria de Herculano e Pompéia.

D. Pedro II contribuiu com diversas peças de arte egípcia e também com fósseis e exemplares botânicos obtidos por ele em suas viagens. Todo este acervo contribuiu para a fundação do Museu Nacional, que se tornou o centro mais importante da América do Sul em História Natural e Ciências Humanas.

A presença ativa do Imperador estava em todos os assuntos relacionados com a ciência, a tecnologia e a educação. Fazendo o papel de mecenas, o interesse de Dom Pedro II pelas ciências o levou a buscar a companhia de cientistas, tanto no Brasil como no exterior, e a participar de todos os acontecimentos culturais e científicos mais importantes do país. Para se ter uma idéia, o colégio D. Pedro II – a única Instituição a realizar os exames que possibilitavam o ingresso nos cursos superiores – era mantido pelo imperador e ele mesmo escolhia os professores, assistia às provas e conferia as médias. Ajudou, de várias formas, o trabalho de vários cientistas. Financiou ainda vários profissionais como arquitetos, engenheiros, farmacêuticos, médicos e pintores.

Apreciador da literatura e das artes, o monarca incentivou a criação das Escolas Normais, dos Liceus de Artes e Ofícios, dos Conservatórios Dramático Brasileiro e Imperial de Música. Criou e coordenou o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e apoiou os estudos de artes plásticas com doações de bolsas e prêmios, financiados por ele próprio.

Em 1871, após conseguir autorização da Câmara para viajar à Europa em função do falecimento de sua filha caçula, D. Leopoldina Teresa, o imperador aproveitou a oportunidade para realizar uma excursão de quinze dias ao Egito. Possuindo um grande conhecimento sobre diversos assuntos, D. Pedro II ansiava por poder visualizar tudo aquilo que aprendera nos livros e com seus preceptores e também encontrar os homens sábios do Velho Mundo para discutir com eles suas idéias.

Os apontamentos realizados pelo imperador em sua primeira viagem ainda revelam uma Egiptologia que estava em um grau de desenvolvimento inicial – apesar desta viagem já ter ocorrido na segunda metade do século XIX, as informações ao qual o monarca tivera acesso no Brasil ainda correspondiam a fase da Egiptologia do início do século XIX. O roteiro da visita se restringiu apenas à região do Baixo Egito, foram visitadas as cidades de Alexandria e do Cairo e de lá o monarca seguiu com sua comitiva também até os sítios arqueológicos de Mênfis, onde haviam sido feitas descobertas recentes. Mesmo com o tempo escasso, D. Pedro II participou de sessões no Instituto Egípcio de Alexandria e foi eleito membro honorário do Institut National d´Egypte.

Ao retornar ao Brasil, novamente o monarca mergulhou nos livros, estudando a fundo o que vinha se produzindo sobre a civilização egípcia e tomando ciência daquilo que os egiptólogos que conhecera na primeira viagem estavam descobrindo, e previamente organizou uma nova viagem ao Egito. Passando primeiramente pelos Estados Unidos e depois pela Europa, no final de novembro de 1876 D. Pedro II retornou às terras egípcias. Esta segunda viagem era uma verdadeira expedição de reconhecimento, durou vinte e sete dias, nos quais o imperador pôde participar de reuniões no Institut National d´Egypt, fotografar, consultar obras com estudos sobre o Egito e debater com os principais egiptólogos daquela época.

D. Pedro II pôde vivenciar in loco o processo de legitimação colonial pelo qual o Egito estava passando. A busca pela criação de uma nova memória, como evidenciado no capítulo anterior, que permitisse uma ligação direta entre o antigo Egito faraônico e o atual dominado pelos ocidentais, desconsiderando o período da dominação muçulmana serviu como ferramenta para inferiorizar os egípcios muçulmanos modernos. Na concepção dos europeus, os habitantes do Egito eram incapazes de produzir conhecimentos sobre si próprios e desta forma as grandes potências da Europa é que deveriam guiá-los, pois já estavam mais adiantadas dentro de um processo de evolução, o que as tornavam capacitadas para tal missão.

Dentro desta concepção, o imperador em suas anotações procurou relacionar os egípcios muçulmanos aos indígenas e negros brasileiros, pois estariam todos no mesmo patamar evolutivo – entre a selvageria e a barbárie – de acordo com a ideologia evolucionista. Também as dádivas naturais do Egito mereceram a atenção de D. Pedro II, pois permitiram o desenvolvimento de uma grande civilização que se tornou um poderoso Estado na antiguidade. Diante de tais condições não estaria o Brasil, com suas riquezas naturais, predisposto a se tornar também uma grande potência no futuro como o Egito fora no passado?

D. Pedro II e sua comitiva junto à esfinge de Gizé. O. Schoeff, 1872. Biblioteca Nacional

D. Pedro II e sua comitiva junto à esfinge de Gizé. O. Schoeff, 1872. Biblioteca Nacional

Referências Bibliográficas:

CAMARA, Giselle Marques; RODRIGUES, Antonio Edmilson Martins. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO DE JANEIRO Departamento de História. “Então esse é que é o Imperador? Ele não se parece nada com reis”: algumas considerações sobre o intelectual brasileiro Pedro de Alcântara e suas viagens pelas terras do Nilo. 2005. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, 2005, cap. 4.

LEFEBVRE, Georges. O nascimento da moderna historiografia. Lisboa: Sá da Costa, 1981.

SAID, Edward W. Orientalismo – o Oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

SCHARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

VERCOUTTER, Jean. Em busca do Egito esquecido. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

 

Tags: , , , , ,

Indiana Jones… Que nada, arqueólogo brasileiro

“O esforço do arqueólogo traz consigo, além do suor, a possibilidade de apoderar-se da história real indo em busca do cansaço e da exploração”

Pedro P. A. Funari[1]

No imaginário humano de muitas pessoas, habitam seres capazes de decifrar mistérios e enigmas. Essas criaturas possuem sua indumentária própria, e acredita-se que observem muito, que falem pouco e tenham hábitos excêntricos. E prefiram estar em lugares inóspitos, cercados por todos os tipos de perigos; desde insetos venenosos até os mais sinistros monstros criados pelo medo, claro que esses seletos seres são vistos ao final, como numa visão hollywoodiana; em meio a muita fumaça, saindo de uma caverna subterrânea, eis que surge a figura corajosa do desbravador, carregada de descobertas valiosas do passado. Mas será essa a vida do arqueólogo?

As áreas escolhidas pelos arqueólogos brasileiros em geral são na arqueologia histórica e na pré-histórica, e seus campos de atuação podem ser o acadêmico, trabalhando diretamente na produção do conhecimento, em museus e instituições culturais na educação patrimonial, o arqueólogo pode ainda trabalhar também em consultoria, como na arqueologia de contrato. (FUNARI, 2012, p. 112).

O trabalho do arqueólogo é sem dúvida complexo, pois as metodologias devem ser utilizadas conforme as diversas características, que variam também de acordo com a cultura local e contemporânea. Por exemplo, dependendo do lugar, os desenterramentos de corpos, ou mesmo transitar em cemitérios passa, a ser uma atividade impossível.

As etapas do trabalho arqueológico, que consiste em antes do campo com todo o planejamento, no campo com a escavação e levantamento de todo o contexto arqueológico e pós-campo com a identificação, armazenamento e publicação de informações, deve ser sistemático e de acordo com as condições apresentadas. Visto que quando o arqueólogo é contratado por uma empresa, dentro de uma arqueologia de contrato, tempo é um fator determinante. Além do cuidado, para não acabar vinculado aos interesses do seu contratante.

Quanto à educação patrimonial há ainda um vasto campo de atuação a ser preenchido por arqueólogos, nas instituições que regularizam o patrimônio e mesmo em museus. Há um grande número de museus brasileiros, mas que trate da temática arqueológica esse número ainda é bastante reduzido. Espera-se que haja fomento nestas áreas, pois há no Brasil um grande potencial de material arqueológico a ser exposto, pesquisado e publicado. Ou seja, há sem dúvida, muito trabalho para os futuros arqueólogos.

Essa profissão não regulamentada, com poucos cursos de mestrado, doutorado e especialização, oferecidos em nosso país, faz do arqueólogo um profissional desbravador. Com empresas de arqueologia, ou prestando serviços nelas, o arqueólogo é um profissional que viaja e trabalha conforme as condições apresentadas.

Mesmo que o arqueólogo decida a permanecer nas universidades, o número reduzido de cursos limitam suas possibilidades de ministrar aulas. E a aproximação com a cultura material também tem seus obstáculos, pois dependem de uma infinidade de avaliações deste profissional.

Concluindo, diante de tantas dificuldades, que passam pelo imprescindível diálogo com outras ciências, pela necessária regulamentação que fixem as condições não apenas do arqueólogo, mas do trabalho em si.  Isto é, o auxilio de uma legislação voltada para arqueologia. Com tudo isto, percebemos que o arqueólogo é sim, um profissional aventureiro, pois mesmo em meio a todo tipo de circunstância, ele emerge das areias do tempo, coberto muitas vezes de lama, mas gratificado sempre pelo seu achado arqueológico.

Imagem 1- Museu Navio Franco de Godoy - Mogi-Guaçu/SP. Imagem 2 – Sítio Escola (Arqueologia) Franco de Godoy – Mogi-Guaçu/SP. Dois lugares reservados para o aprendizado da Arqueologia. Fonte: Acervo pessoal

Imagem 1- Museu Navio Franco de Godoy – Mogi-Guaçu/SP.
Imagem 2 – Sítio Escola (Arqueologia) Franco de Godoy – Mogi-Guaçu/SP.
Dois lugares reservados para o aprendizado da Arqueologia.
Fonte: Acervo pessoal

Referências Bibliográficas

CHILDE, G. V. Para uma recuperação do passado: a interpretação dos dados arqueológicos. São Paulo: DIFEL, Difusão Editorial, 1969.

DREWETT, P. Field Archaeology. An Introduction. London: UCL Press, 1999.

FLORENZANO, T. G. Imagens de Satélite Para Estudos Ambientais. São Paulo: Oficina de Textos, 2002.

FUNARI, Pedro Paulo. A Arqueologia. 3.Ed.  São Paulo: Contexto, 2012.

MCINTOSH, J. Guía práctica de arqueología. Madrid: Hermann Blume, 1987.

MOBERG, C-A. Introdução à Arqueologia. Lisboa: Edições 70, 1981.

TRIGGER, B. G. História do Pensamento Arqueológico. Trad. Ordep Trindade Serra. São Paulo: Odysseus Editora, 2004.


[1] FUNARI, Pedro Paulo. 2012, p. 56.

 

Tags: , , , ,

Arqueólogos descobrem adega de 3.700 anos

Arqueólogos da Universidade George Washington fizeram uma grande descoberta ao escavar uma região ao norte de Israel, conhecida como Canaã. Lá, eles desencavaram 40 jarras de vinho bem preservadas que datavam de 3.700 anos atrás.

“Esses provavelmente não eram os vinhos correntes, do dia a dia. Provavelmente eram caros. Talvez tenham sido usados por um rei”, aponta o professor Eric Cline, um dos diretores da escavação. Os jarros foram encontrados em uma sala que aparentemente era usada como adega e análises químicas mostram que vinho era guardado lá, provavelmente um lote real, caracterizado por uma impressionante padronização de ingredientes nas jarras de 50 litros.

Segundo os historiadores, essa é a mais antiga adega descoberta, já que jarras de vinhos encontradas em escavações mais antigas não parecem estar vinculadas a um lugar de consumo próximo. O palácio da cidade de Tel Kabri foi usado até 1700 a.C e, diferentemente das outras ruínas mundo afora, o lugar da estocagem de vinhos estava claramente ligado à sala de jantar.

A adega cananeia dá pistas da evolução da produção de vinho e do consumo pela alta sociedade da época. Os cananeus provavelmente já produziam vinho desde 5.000 a.C e trouxeram vinhas do Egito através do Mediterâneo para o sul da Europa. Análises químicas revelaram certos compostos em algumas jarras, sugerindo a presença de mel, menta, canela, zimbro e resinas de árvores, mostrando que o vinho era aromatizado.

Fonte: UOL - http://revistaadega.uol.com.br/artigo/arqueologos-descobrem-adega-de-3700-anos_9593.html

 
Deixe um comentário

Publicado por em 29/11/2013 em ARQUEOLOGIA, HISTÓRIA ANTIGA

 

Tags: , , , ,

Grandes mulheres do Egito antigo – Tetisheri

A XVII dinastia egípcia (1630-1539 a.C.) entrou para a História daquela civilização devido aos seus reis guerreiros originários da cidade de Tebas, no Alto Egito, os quais iniciaram o movimento que levou à expulsão dos hicsos [1] da região do Delta do Nilo e a reunificação do país já no início da XVIII dinastia (1539-1292 a.C.), no reinado do faraó Ahmósis.

Estes homens que passaram grande parte de suas vidas enfrentando os invasores do Egito precisavam de companheiras confiáveis que estivessem prontas para reger o país, cuidar da segurança dos herdeiros e tomar decisões importantes enquanto seus maridos estivessem fora, nas campanhas militares.

Uma destas mulheres foi tão valorosa que após sua morte mereceu uma grande honra concedida pelo próprio Ahmósis, o faraó libertador: a construção de um túmulo em Abidos, uma das regiões mais sagradas do Egito por ser o centro do culto ao senhor do mundo dos mortos, o deus Osíris. Esta dama favorecida foi a rainha Tetisheri, avó do libertador e a primeira de uma linhagem de mulheres fortes que estiveram lado-a-lado com seus maridos faraós durante o movimento de expulsão dos invasores hicsos.

Tetisheri não era originária da Família Real, seus pais eram o juiz Tjenna e sua mulher Nefru [2], porém ela foi escolhida pelo faraó Senakhtenre Taô I para ser não somente sua esposa, mas sua Grande Esposa Real, ou seja, sua rainha principal. O casal gerou o príncipe Sekenenré Taô II, que se tornou faraó sucedendo ao pai e deu continuidade à luta contra os hicsos, morrendo em batalha, e as princesas Inhapy, Sitdjehuty e Ahotep I, sendo esta última a Grande Esposa Real do próprio irmão e mãe do libertador Ahmósis, tendo atuado como regente durante a minoridade do filho.

Desta forma, o faraó Ahmósis era neto da rainha Tetisheri tanto por parte de pai quanto de mãe e após a morte da avó quis honrar aquela que foi responsável por trazer ao mundo os homens e mulheres que lideraram os egípcios contra os invasores de suas terras. Sepultado inicialmente próximo a Tebas, cidade originária da Família Real, o corpo da rainha foi transladado por ordem do rei para uma nova tumba em forma de pirâmide localizada em Abidos, lugar de peregrinação para o culto de Osíris e onde o próprio faraó mandara construir seu templo funerário.

Em uma estela comemorativa encontrada no local, a falecida rainha Tetisheri é representada sentada em um trono, usando uma coroa com um abutre encimada por duas penas de avestruz e recebendo oferendas de seu neto, o faraó, demonstrando que ela própria já havia se tornado uma divindade. Um texto explicativo acompanha a imagem e mostra o respeito que o rei nutria pela avó:

“O próprio rei disse, ‘Eu me lembro da mãe de minha mãe, mãe de meu pai, a Grande Esposa Real e Mãe do Rei, Tetisheri, já falecida. Ela já possui uma tumba e um monumento funerário nas terras de Tebas e de Abidos, mas eu digo isto para vocês porque Minha Majestade deseja construir uma pirâmide para ela na necrópole próxima do meu próprio monumento, com um lago cavado, árvores plantadas, oferendas de pães’… Assim que Sua Majestade ordenou, tudo foi posto em ação rapidamente. Sua Majestade fez isso porque a amou mais do que tudo. Os reis do passado nunca fizeram algo parecido por suas mães”.

Tetisheri inaugurou uma linhagem de rainhas patriotas que continuou com Ahotep I e Ahmés Nefertari. Elas seriam lembradas pelos seus sucessores por terem desempenhado um papel fundamental na condução do Egito rumo à reunificação enquanto seus maridos e filhos combatiam os hicsos e, posteriormente à expulsão destes, na reconstrução das Duas Terras.

Estela comemorativa em honra à rainha Tetisheri. Museu egípcio do Cairo.

Estela comemorativa em honra à rainha Tetisheri. Nela seu neto, o faraó Ahmósis é retratado realizando uma oferenda para a soberana falecida e divinizada. Museu egípcio do Cairo.

_________________________________________________________________________________________

[1] Povo advindo da Ásia que por volta de 1650 a.C. se fixou na região do delta do rio Nilo e criou aí um governo paralelo ao dos faraós da cidade de Tebas, capital do Egito. Foram os primeiros estrangeiros que conseguiram invadir o território egípcio. Os hicsos trouxeram inovações militares como a introdução dos carros de guerra e do arco de longo alcance, que posteriormente foram dominados e utilizados pelos próprios egípcios para expulsá-los durante o reinado do faraó Ahmósis.

[2] Os nomes dos pais de Tetisheri foram encontrados gravados em bandagens de múmia que estavam na tumba da rainha.

 

Referências Bibliográficas:

NOBLECOURT, Christiane Desroches. A mulher no tempo dos faraós. Campinas: Papirus, 1994.

TYLDESLEY, Joyce. Chronicle of the queens of Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2006.

 

Tags: , , , ,

Referências a homossexualidade no Egito antigo

Mulheres participando de banquete. Detalhe de mural proveniente da tumba de Nebamun. Museu Britânico. Londres.

Mulheres participando de banquete. Detalhe de mural proveniente da tumba de Nebamun. Museu Britânico. Londres.

As referências à homossexualidade entre homens e, especialmente entre as mulheres são muito escassas nos textos e na arte do Egito antigo. Tal fato de forma alguma elimina a possibilidade da existência deste comportamento na esfera daquela sociedade, apenas torna mais difícil seu estudo.

A homossexualidade masculina, ainda que tolerada, não era um ato moralmente aprovado, e foi condenada legalmente em determinados períodos da história egípcia. Violar outro homem era considerado um ato de agressão, pois era visto como um meio de obter poder sobre um adversário. Um conto envolvendo os deuses narra o estupro de Hórus por Seth (apesar de outra versão do mesmo conto apresentar a relação dos dois deuses como consensual). Já o lesbianismo é mencionado em alguns poucos textos, como o do Papiro Carlsberg XIII, normalmente com tom de desaprovação: “Se uma mulher sonha que tem relações sexuais com outra mulher, caminha para um triste fim”.

No Livro dos Mortos [1] há uma passagem que menciona as virtudes de não praticar um ato homossexual. Existem textos de sabedoria e listas de proibições que condenam a prática homossexual. Já a passagem 32 do Papiro Prisse [2], que se encontra na Biblioteca Nacional da França, especifica a homossexualidade e os prazeres das relações com pessoas do mesmo sexo:

“Não copules com um efebo, principalmente se ele pensa o contrário lhe agrada e somente isso pode satisfazer a sua paixão. Não passes a noite fazendo com ele, o que é contrário a fim de satisfazer os seus anseios”.

No Louvre, o papiro E 25351 que data da XXV dinastia (c. 700 a.C.) narra a história de um homem chamado Teti, filho de Hemut, que vê o seu soberano sair sozinho durante a noite para um encontro furtivo:

“Sua Majestade, o Rei do Alto e do Baixo Egito Neferkare, saiu à noite, totalmente sozinho, não havendo ninguém com ele. Teti afastou-se de modo a não ser visto por ele. Parou e disse de si para consigo, ‘Sendo as coisas o que são, parece ser verdade o que dizem: ele sai à noite’.

Teti, filho de Hemut, seguiu o soberano sobre os calcanhares deste sem desfalecimento para descobrir o que ia fazer. Chegou à casa do general Sisene. Jogou um tijolo e bateu com o pé no chão, em virtude do que uma escada foi baixada até onde se encontrava. O Faraó subiu por ela enquanto Teti permaneceu lá embaixo esperando pelo seu retorno. Quando Sua Majestade tinha terminado de fazer com o general o que desejava, voltou ao palácio, e Teti o seguiu. Quando o Faraó entrou no palácio, Teti foi para casa.

Sua Majestade tinha ido à casa do general Sisene quando quatro horas da noite haviam se passado, e lá permaneceu outras quatro horas. E só voltou ao palácio quando faltavam quatro horas para o amanhecer”.

Os estudiosos ainda não chegaram a uma conclusão sobre quem seria o faraó mencionado no texto, pois dois soberanos egípcios utilizaram o nome de trono Neferkare (“Belo é o espírito de Rá”) [3], porém independente disto, o texto parece corroborar com o tom de desaprovação da sociedade egípcia em relação a homossexualidade, pois o rei mesmo sendo a autoridade máxima no Egito antigo e, inclusive considerado uma divindade, precisava fugir durante a noite de seu palácio para encontrar-se com seu amante, fato que já motivava comentários por parte de outras pessoas, e que despertou a curiosidade de Teti levando-o a secretamente seguir o monarca.

Cabeça colossal do faraó Shabaka. Museu do Louvre, Paris.

Cabeça colossal do faraó Shabaka. Museu do Louvre, Paris.

___________________________________________________________________________________________

[1] O chamado Livro dos Mortos era uma série de encantamentos, ações e preces que os egípcios reproduziam em seus túmulos com a finalidade de conseguir a aprovação dos deuses para alcançar o mundo dos mortos governado por Osíris.

[2] Este papiro também conhecido como Ensinamento de Ptahotep, é atribuído a Ptahotep, vizir do faraó Isesi que reinou na V dinastia, entre 2380 e 2342 a.C. aproximadamente.

[3] Um dos possíveis faraós ao qual o texto se refere seria Pepi II Neferkare que governou o Egito por volta de 94 anos (c. 2281 a 2187 a.C.), no final da VI dinastia, tendo iniciado seu reinado aos seis anos de idade. Já a outra possibilidade seria Shabaka Neferkare, faraó de ascendência núbia (a Núbia localizava-se no território onde hoje se encontra a República do Sudão), que governou o Egito entre 721 e 707 a.C., durante a XXV dinastia.

 

Referências bibliográficas:

EL-QHAMID & TOLEDANO, J. Erotismo e sexualidade no antigo Egito. Barcelona: Folio, 2007.

MANNICHE, Lise. A vida sexual no antigo Egito. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

MELLA, Federico A. Arborio. O Egito dos faraós: história, civilização, cultura. São Paulo: Hemus, 1998.

 

Tags: , , , , ,

Cinco cabeças de estátuas faraônicas são descobertas no Egito

Uma equipe de arqueólogos egípcios e franceses descobriu cinco cabeças de estátuas de faraós do Egito ao sul de Luxor, anunciou neste sábado o Ministério das Antiguidades.

“As cabeças de estátuas descobertas possuem coroas do Alto e Baixo Egito esculpidas em calcário”, afirmou o ministro das Antiguidades, Mohamed Ibrahim.

O chefe do Departamento de Antiguidades Faraônicas, Mohamed Abdel Maqsud, informou que cada uma das cabeças, incluindo a coroa, mede 50 centímetros e indicou que essas estátuas datam da época do Império Médio egípcio, fundado há cerca de 4.000 anos.

Maqsud acrescentou que, atualmente, os especialistas estão estudando essas cabeças para determinar se pertencem a estátuas que foram encontradas decapitadas há vários anos.

Fonte: UOL – http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/afp/2013/11/16/cinco-cabecas-de-estatuas-faraonicas-sao-descobertas-no-egito.htm

 
Deixe um comentário

Publicado por em 16/11/2013 em ARQUEOLOGIA, HISTÓRIA ANTIGA

 

Tags: , , , ,

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 57 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: