
Professora Doutora Rita de Cássia Barros
QUAL É A PARTE DA ÁFRICA QUE PODEMOS ENTENDER COMO POBRE E MISERÁVEL?
A grande maioria do continente é assim, muito pobre e ligada à uma miséria extrema. Podemos encontrar certa riqueza e padrão econômico mais alto ao norte do continente.
QUAIS SÃO AS VERDADEIRAS INTENÇÕES DAS POTÊNCIAS MUNDIAIS EM RELAÇÃO A ESSE CONTINGENTE AFRICANO MISERÁVEL?
É difícil sabermos as verdadeiras intenções das potências mundiais porque, hoje, os discursos são politicamente corretos. O que podemos fazer é olhar a realidade. Na África existe, como já disse, um pool de mega empresas que se apresentam como portadores do desenvolvimento, o que parece ser verdade, no entanto, quando olhamos para os níveis de desenvolvimento humano, a realidade é bem diferente.
É CORRETO AO SE REFERIR AO CONTINENTE AFRICANO COMO UMA MISÉRIA TOTAL, SEM PERSPECTIVAS DE DESENVOLVIMENTO?
Não acredito que não exista perspectiva para o continente africano. Existe sim. O que ocorre, ao meu ver, é que todas as ações para um desenvolvimento sustentável ainda são visivelmente insuficientes diante dos problemas que assolam o continente desde a chegada do colonizador.
QUAIS OS FATORES QUE CERCAM O CONTINENTE AFRICANO A TÃO RUIM ESTIGMA?
Acredito que o problema da corrupção em alto grau e a falência das gestões governamentais, por exemplo, sejam fatores preponderantes, além da pobreza e das longas guerras civis, é claro.
EM QUE MOMENTO OCORRE NA HISTÓRIA DO CONTINENTE AFRICANO ESSE CONCEITO DE DIVISÃO ENTRE ÁFRICA A ÁFRICA DO NORTE POBRE E A ÁFRICA DO SUL RICA NA ERA CONTEMPORÂNEA?
Na minha leitura é o contrário. O sul da África passou a ser conhecido como a região mais pobre do planeta, na verdade surgiu um estigma de que tudo abaixo do Saara é extremamente pobre, o que não deixa de ser verdade. Podemos citar alguma riqueza na Mauritânia que desponta com sua fartura mineral e o petróleo, por exemplo; no Marrocos, no Egito que estão no extremo norte do continente. No entanto, se olharmos para a Tunísia, veremos uma população que está abaixo da linha da pobreza, como a Eritréa (ou Eritréia) onde massas humanas morrem de sede pela falta de água.
Então, eu não comungo dessa opinião de que o sul da África é rico e o norte do continente é pobre.
COMO PODEMOS ENTENDER A POBREZA EXISTENTE NO CONTINENTE AFRICANO? EM QUAIS PARTES?
Como afirmei na questão número 15, olhando para a África, a pobreza é visível em todos os lados.
Um fator que explica a grande pobreza nesse continente, ao meu ver, é a política de exploração de todos os recursos que vem sendo praticada desde a presença colonial e a falta de capacitação para a gestão da coisa pública.
É SABIDO QUE O SOLO DO CONTINENTE AFRICANO É MUITO RICO EM MINÉRIOS. QUAIS SÃO?
Na áfrica podemos encontrar ouro, diamante, cobre, fosfato, bauxita, manganês, chumbo, minério de ferro, enxofre, entre outros.
O QUE RENDE DE FATO ESSA RIQUEZA MINERAL EXISTENTE NA ÁFRICA PARA OS PONTOS MAIS DEPENDENTES DO CONTINENTE?
A renda para a população em situação de risco social é, ainda, muito pequena e a extração dos minérios que servem à exploração de grandes companhias é muito grande.
COMO ESTÃO AS RELAÇÕES SOCIAIS NO CONTINENTE AFRICANO HOJE EM DIA?
Essa pergunta não ficou muito clara para mim. Mas tentarei responder a partir do que penso ter entendido.
Sobre o continente não podemos afirmar que exista uma regra ou um modelo único para todas as sociedades que lá vivem. Há muita diversidade cultural e cada país abriga várias particularidades. De maneira geral é possível afirmar que questões étnicas e conflitos civis ainda são presentes na realidade do povo africano, além da grande diferença de classes.
QUAL É A IDELOGIA DE DESENVOLVIMENTO QUE CAMPEIA ATUALMENTE NO CONTINENTE AMERICANO?
Confesso que essa pergunta também não ficou muito clara para mim, mas farei o mesmo esforço para tentar responder.
No meu ponto de vista, percebo duas correntes com mais presença sobre o desenvolvimento no continente africano. Uma que ainda entende ser a África um território unicamente explorável e eternamente dependente. Outra defendendo a idéia de que o continente necessita de investimento para o desenvolvimento local e sustentabilidade das populações, principalmente aquelas que vivem em risco social.
GOSTARIAMOS QUE FIZESSE AS SUAS CONSIDERAÇÕES FINAIS, E NOS FALASSE DE SEUS TRABALHOS ACADÊMICOS DISPONÍVEIS AO NOSSO PÚBLICO:
No momento, tudo o que venho registrando sobre a minha experiência com o continente africano e minhas reflexões acadêmicas sobre a África ainda não estão disponíveis no Brasil. Mas já estou em diálogo com minha editoração para que eu possa, legalmente, partilhar essas experiências com os amigos e interessados na temática.
Agradeço imensamente a honra de ter participado dessa entrevista e desejo todo sucesso aos integrantes do Centro de Pesquisas da Antiguidade e o Centro Cultural Jerusalém. Coloco-me à inteira disposição e deixo meu e-mail para contatos: ritaafricaconsulting@gmail.com.
E, por fim, deixo uma reflexão final para aqueles que têm interesse nos Estudos Africanos.
Atualmente o Continente Africano faz parte do interesse de diversos grupos nas diversas sociedades ao redor do mundo. Ainda existem aqueles que tomam a história da África, que foi construída pelo ocidente colonizador, como verdade absoluta. Porém, há os que, mais dispostos, acreditam que essa visão deva ser fortemente questionada e defendem a máxima de que a História do Continente Africano sempre esteve lá. Para esses, destaco três requisitos que julgo importantes para trilhar o caminho dos Estudos Africanos: disposição e abertura para admitir que o ocidente pecou quando decidiu apresentar a África ao mundo; desejo de encontrar autores africanos e suas literaturas e coragem para conhecer uma nova epistemologia sobre a África e os Africanos. Muito obrigada e um forte abraço!










