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2ª Parte – O Professor e Pesquisador do CPA, Ronaldo Silva, entrevistou a Professora Doutora Rita de Cássia Barros, confira:

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, ENTREVISTA com as tags em 18 18UTC Dezembro 18UTC 2009 por Prof. Ronaldo

Professora Doutora Rita de Cássia Barros

 

QUAL É A PARTE DA ÁFRICA QUE PODEMOS ENTENDER COMO POBRE E MISERÁVEL? 

A grande maioria do continente é assim, muito pobre e ligada à uma miséria extrema. Podemos encontrar certa riqueza e padrão econômico mais alto ao norte do continente. 

  

QUAIS SÃO AS VERDADEIRAS INTENÇÕES DAS POTÊNCIAS MUNDIAIS EM RELAÇÃO A ESSE CONTINGENTE AFRICANO MISERÁVEL? 

É difícil sabermos as verdadeiras intenções das potências mundiais porque, hoje, os discursos são politicamente corretos. O que podemos fazer é olhar a realidade. Na África existe, como já disse, um pool de mega empresas que se apresentam como portadores do desenvolvimento, o que parece ser verdade, no entanto, quando olhamos para os níveis de desenvolvimento humano, a realidade é bem diferente. 

  

É CORRETO AO SE REFERIR AO CONTINENTE AFRICANO COMO UMA MISÉRIA TOTAL, SEM PERSPECTIVAS DE DESENVOLVIMENTO? 

Não acredito que não exista perspectiva para o continente africano. Existe sim. O que ocorre, ao meu ver, é que todas as ações para um desenvolvimento sustentável ainda são visivelmente insuficientes diante dos problemas que assolam o continente desde a chegada do colonizador. 

  

QUAIS OS FATORES QUE CERCAM O CONTINENTE AFRICANO A TÃO RUIM ESTIGMA? 

Acredito que o problema da corrupção em alto grau e a falência das gestões governamentais, por exemplo, sejam fatores preponderantes, além da pobreza e das longas guerras civis, é claro. 

  

EM QUE MOMENTO OCORRE NA HISTÓRIA DO CONTINENTE AFRICANO ESSE CONCEITO DE DIVISÃO ENTRE ÁFRICA A ÁFRICA DO NORTE POBRE E A ÁFRICA DO SUL RICA NA ERA CONTEMPORÂNEA? 

Na minha leitura é o contrário. O sul da África passou a ser conhecido como a região mais pobre do planeta, na verdade surgiu um estigma de que tudo abaixo do Saara é extremamente pobre, o que não deixa de ser verdade. Podemos citar alguma riqueza na Mauritânia que desponta com sua fartura mineral e o petróleo, por exemplo; no Marrocos, no Egito que estão no extremo norte do continente. No entanto, se olharmos para a Tunísia, veremos uma população que está abaixo da linha da pobreza, como a Eritréa (ou Eritréia) onde massas humanas morrem de sede pela falta de água. 

Então, eu não comungo dessa opinião de que o sul da África é rico e o norte do continente é pobre. 

  

COMO PODEMOS ENTENDER A POBREZA EXISTENTE NO CONTINENTE AFRICANO? EM QUAIS PARTES? 

Como afirmei na questão número 15, olhando para a África, a pobreza é visível em todos os lados. 

Um fator que explica a grande pobreza nesse continente, ao meu ver, é a política de exploração de todos os recursos que vem sendo praticada desde a presença colonial e a falta de capacitação para a gestão da coisa pública. 

  

É SABIDO QUE O SOLO DO CONTINENTE AFRICANO É MUITO RICO EM MINÉRIOS. QUAIS SÃO? 

Na áfrica podemos encontrar ouro, diamante, cobre, fosfato, bauxita, manganês, chumbo, minério de ferro, enxofre, entre outros. 

  

O QUE RENDE DE FATO ESSA RIQUEZA MINERAL EXISTENTE NA ÁFRICA PARA OS PONTOS MAIS DEPENDENTES DO CONTINENTE? 

A renda para a população em situação de risco social é, ainda, muito pequena e a extração dos minérios que servem à exploração de grandes companhias é muito grande. 

  

COMO ESTÃO AS RELAÇÕES SOCIAIS NO CONTINENTE AFRICANO HOJE EM DIA? 

Essa pergunta não ficou muito clara para mim. Mas tentarei responder a partir do que penso ter entendido. 

Sobre o continente não podemos afirmar que exista uma regra ou um modelo único para todas as sociedades que lá vivem. Há muita diversidade cultural e cada país abriga várias particularidades. De maneira geral é possível afirmar que questões étnicas e conflitos civis ainda são presentes na realidade do povo africano, além da grande diferença de classes. 

  

QUAL É A IDELOGIA DE DESENVOLVIMENTO QUE CAMPEIA ATUALMENTE NO CONTINENTE AMERICANO? 

Confesso que essa pergunta também não ficou muito clara para mim, mas farei o mesmo esforço para tentar responder. 

No meu ponto de vista, percebo duas correntes com mais presença sobre o desenvolvimento no continente africano. Uma que ainda entende ser a África um território unicamente explorável e eternamente dependente. Outra defendendo a idéia de que o continente necessita de investimento para o desenvolvimento local e sustentabilidade das populações, principalmente aquelas que vivem em risco social. 

  

GOSTARIAMOS QUE FIZESSE AS SUAS CONSIDERAÇÕES FINAIS, E NOS FALASSE DE SEUS TRABALHOS ACADÊMICOS DISPONÍVEIS AO NOSSO PÚBLICO: 

No momento, tudo o que venho registrando sobre a minha experiência com o continente africano e minhas reflexões acadêmicas sobre a África ainda não estão disponíveis no Brasil. Mas já estou em diálogo com minha editoração para que eu possa, legalmente, partilhar essas experiências com os amigos e interessados na temática. 

Agradeço imensamente a honra de ter participado dessa entrevista e desejo todo sucesso aos integrantes do Centro de Pesquisas da Antiguidade e o Centro Cultural Jerusalém. Coloco-me à inteira disposição e deixo meu e-mail para contatos: ritaafricaconsulting@gmail.com. 

E, por fim, deixo uma reflexão final para aqueles que têm interesse nos Estudos Africanos. 

Atualmente o Continente Africano faz parte do interesse de diversos grupos nas diversas sociedades ao redor do mundo. Ainda existem aqueles que tomam a história da África, que foi construída pelo ocidente colonizador, como verdade absoluta. Porém, há os que, mais dispostos, acreditam que essa visão deva ser fortemente questionada e defendem a máxima de que a História do Continente Africano sempre esteve lá. Para esses, destaco três requisitos que julgo importantes para trilhar o caminho dos Estudos Africanos: disposição e abertura para admitir que o ocidente pecou quando decidiu apresentar a África ao mundo; desejo de encontrar autores africanos e suas literaturas e coragem para conhecer uma nova epistemologia sobre a África e os Africanos. Muito obrigada e um forte abraço!

ENTREVISTA – O professor Ronaldo Silva entrevistou a Professora Doutora Rita de Cássia Barros

Postado em ENTREVISTA com as tags em 11 11UTC Dezembro 11UTC 2009 por Prof. Ronaldo
ENTREVISTA – O professor e pesquisador do CPA Ronaldo Silva entrevistou a Professora Doutora em Ciências Sociais e Estudos Africanos pela UNICAMP Rita de Cássia Barros.

Inicialmente quero agradecer pela honra de ter sido convidada a dar essa entrevista para o Centro de Pesquisas da Antiguidade e Centro Cultural Jerusalém e ter como entrevistador meu ex-aluno o Prof. Ronaldo Silva.

QUAL É ÁREA ACADÊMICA QUE VOCÊ ESTÁ ATUANDO NO MOMENTO?

No momento trabalho com História Contemporânea, História da África e Relações Internacionais. 

 

COMO É A SUA ATUAÇÃO NA ÁFRICA?

Eu presto consultoria em desenvolvimento humano e políticas sociais para governos africanos e sou diretora da Fundação Muxima para o desenvolvimento da África.

 

QUAL É A SUA RELAÇÃO EM TERMOS DE ATUAÇÃO E ESTUDOS NA ÁFRICA COM O BRASIL?

Minha atuação tem sido a seguinte: sou Diretora da Africa Consulting Desenvolvimento Humano e Relações Internacionais, trabalhamos diretamente com esse continente e sou Diretora da Escola de Diplomacia DIPLOMATA. Além disso, sou professora universitária e, normalmente, fico responsável pela cadeira de História Contemporânea e História da África.

No momento estamos lançando uma pós-graduação lato sensu em Estudos Africanos: Desenvolvimento Humano e Docência, com estágio optativo na África, a única pós em Estudos Africanos no Rio de Janeiro. Se alguém estiver interessado, poderá escrever para sejadiplomata@isep.com.br. Será um prazer atendê-los.

 

QUAIS SÃO AS MEDIDAS DESENVOLVIDAS QUE FAVORECERAM UM INTERCÂMBIO BRASIL ÁFRICA?

Algumas medidas sobre as quais eu tenho alguma informação estão por conta de acordos bilaterais entre o Brasil e alguns países africanos. Certos acordos prevêem transferência de tecnologia e intercâmbio cultural; outras medidas, porém, surgem através de parcerias com instituições privadas que motivam o investimento no continente africano e intercâmbio estudantil.

 

NOS EXPLIQUE O MOTIVO QUE VEM LEVANDO AO DESENVOLVIMENTO NO BRASIL UM OLHAR PARA O ESTUDO DA CULTURA AFRICANA NO BRASIL?

Primeiramente acredito que haja uma certa pressão da lei federal de n° 10639, de 2003 que determina a inclusão do estudo da história da África, dos africanos e da cultura negra no Brasil nos currículos das escolas de ensino fundamental e médio.

Um outro motivo, na minha opinião, se deve ao fato de que a comunidade acadêmica está tomando consciência de que aquela História da África, criada pelo ocidente colonizador, precisa ser revista com urgência e isso tem motivado o conhecimento de uma literatura africana e de autores africanos.

Professora Doutora Rita de Cássia Barros

QUAL É O MOTIVO QUE QUANDO ESTUDAMOS “EGITO” TEMOS A SENSAÇÃO DE QUE NÃO ESTAMOS VENDO A ÁFRICA COMO UM TODO?

Eu acredito que essa sensação, já antiga, de achar que o Egito não faz parte da África ou que é um lugar à parte do continente, se deve a um erro pedagógico de ensino e aprendizagem, na minha opinião.

 

A QUE VOCE ATRIBUI O FOCO SOBRE O “EGITO”?

Acredito que o foco sobre o Egito repouse no fato de termos mais informações sobre essa sociedade do que o restante do continente.

 

É SABIDO PELA HISTÓRIA, A EXPLORAÇÃO DESENVOLVIDA PELOS PAÍSES EUROPEUS, TANTO NA COLONIZAÇÃO, FRUTO DA EXPANSÃO MARÍTIMA NO SÉCULO XVI, SEGUIDA PELO IMPERIALISMO DO SÉCULO XX, LEVANDO A DEFICIÊNCIA ECONÔMICA E SOCIAL DO CONTINENTE AFRICANO. E HOJE QUAIS SÃO AS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS E SOCIAIS PARA O CONTINENTE AFRICANO?

Pelo que tenho visto e ouvido in loco porque tenho vivido no continente africano, há grande expectativa sobre o crescimento do Continente. Para orgulho dos brasileiros, o Brasil tem sido uma liderança de países periféricos. Também existe hoje, um pool de mega companhias que estão criando suas filiais na África. Assim, a perspectiva de investimento parece ser grande; no entanto, as contradições sociais e a pobreza extrema que existem na África colocam essas perspectivas em xeque.

 

O SUL DA ÁFRICA É BEM RESOLVIDO ECONOMICAMENTE, DESTACANDO A SUA CAPITAL JOANESBURGO. O QUE LEVA A ÁFRICA DO SUL ESTE LUGAR DE DESTAQUE? E QUAL É A SUA RELAÇÃO COM O RESTANTE POBRE DO CONTINENTE?

Eu, particularmente, não concordo com essa idéia de que a África do Sul é bem resolvida economicamente. Há muita pobreza e diferença social nesse país e o que os meios de comunicação mostram, normalmente, é uma diminuta parcela da população, branca inclusive, que reside nas capitais da África do Sul com uma vida mais estabilizada.

Acompanhe a segunda parte da entrevista da Prof. Drª Rita Barros na próxima sexta-feira dia 18/12/09

Semana da Consciência Negra – Última parte

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, CURSOS & EVENTOS com as tags em 23 23UTC Novembro 23UTC 2009 por Prof. Ronaldo

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA (20 de novembro)

20 de novembro é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira, celebrado desde 1960.

Anteriormente os negros só contavam com o dia 13 de Maio (abolição da escravatura). Que no momento é rejeitado, por se tratar de uma generosidade da Princesa Isabel – uma atitude branca.

A data que supostamente coincide com o dia da morte de Zumbi dos Palmares em 1695. Nos últimos anos se comprovou que Zumbi mantinha escravos particulares.

O 20 de novembro é uma data que procura desenvolver o dia da CONSCIÊNCIA NEGRA, lembrando da sua resistência à escravidão desde o primeiro transporte forçado de africanos para o solo brasileiro – 1594.

AS MANIFESTAÇÕES

Procura-se evitar o desenvolvimento do autopreconceito, ou seja, da inferiorização perante a sociedade;
A inserção do negro no mercado de trabalho;
Cotas universitárias;
A discriminação por parte da Polícia Militar;
A identificação do negro na moda e beleza negra

ESTATÍSTICA DO IBGE – 1999/2000 da população do Brasil – se declaram:

BRANCOS 54%
NEGROS 5,4%
PARDOS 39,9%
AMARELOS E INDÍGENAS 0,6%

 

IBGE – 1999/2000 ENSINO MÉDIO(15 a 17 anos) ENSINO SUPERIORAté 24 anos
NEGROS 36,3% 18,4%
BRANCOS 60% 57,2%

 

IBGE – 1999/2000 RENDIMENTO MÉDIO
NEGROS $ 409,00
BRANCOS $ 821,00

 

Semana da Consciência Negra – Referências Bibliográficas:

COSTA, Emilia Viotti da. Da senzala à colônia, -4ª ed. –São Paulo: Fundação Editora da UMESP, 1998.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder, 3ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.

. Vigiar e Punir: histórias da violência nas prisões. 12ª ed. Petrópolis: Vozes, 1987.

GORENDER, Jacob. O Escravismo Colonial, -6ª ed. São Paulo: Editora Ática, 1992.

LARA, Silvia Hunold. “O Castigo Exemplar” em Campos da Violência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

MACHADO, Maria Helena Pereira Toledo. Crime e escravidão: trabalho, luta e resistência nas lavouras paulistas (1830-1888). São Paulo: Brasiliense, 1987.

MATTOSO, Kátia de Queirós. Ser escravo no Brasil. 3ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1990.

MOTT, Luiz. “Terror na Casa da Torre: Tortura de escravos na Bahia Colonial”, In: J.J. Reis (org.). Escravidão e Invenção da Liberdade. São Paulo: Brasiliense, 1998.

NEVES, Maria de Fátima Rodrigues das. Documentos sobre a escravidão no Brasil. São Paulo: Contexto, 1996. – (Textos e documentos; 6).

RUGENDAS, Johann-Moritz. Viagens pitorescas através do Brasil. São Paulo: Martins-EDUSP, 1972.

FLORENTINO, Manolo. Ensaios sobre escravidão. Minas Gerais: UFMG, 2003.

MELTZER, Milton. História ilustrada da escravidão. São Paulo: Ediouro, 2004.

ROLAND, Maria Inês. A Revolta da Chibata. São Paulo: Editora Saraiva, 2000. ISBN 8502030957

SILVA, M. A. da. Contra a Chibata: marinheiros brasileiros em 1910. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 11-12. (Coleção Tudo é História)

Semana da Consciência Negra – Parte 5

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, CURSOS & EVENTOS com as tags em 19 19UTC Novembro 19UTC 2009 por Prof. Ronaldo
DITADURA MILITAR (1964-1986)

Muitos negros morreram na luta contra a ditadura militar no Brasil.

A Historiografia não teve o cuidado e a preocupação de resgatar a luta dos negros ao longo da História do Brasil.

Levar o conhecimento da luta dos negros no Brasil contribui para o fortalecimento da identidade nacional.

Durante o regime militar as Escolas ensinavam que Zumbi dos Palmares – localizado na Serra da Barriga – região que atualmente pertence ao Estado de Alagoas – foi um negro insurreto.

Essa versão de valores atualmente é repudiada pela Historiografia, que através da manifestação do Movimento Negro e mobilização de governadores após a ditadura militar, trabalharam na construção de valores nacionais.

O Brasil deve tomar conhecimento que temos heróis negros, brancos e mestiços; que todos formaram o nosso país.

CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988

A repercussão do MNU culminou com a criação em 1984 do primeiro órgão público voltado para o apoio dos movimentos sociais afro-brasileiros – Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra.

Franco Montoro, governador de São Paulo, indicou um representante para a Comissão Arinos, que criminalizou a Discriminação Racial no Brasil. Oficializada na Constituição brasileira de 1988. Na presidência de José Sarney (1987-1989).

Os anos seguintes a Constituição de 1988, registrou um avanço na luta institucional contra o racismo, maior discussão e aceitação na sociedade.

COMO SE COLOCOU OS PARTIDOS DE ESQUERDA CONTRA O RACISMO?

Nem sempre os partidos de esquerda foram responsáveis pelos avanços notáveis na luta antidiscriminação racial. A ideologia dos partidos de esquerda na luta antidiscriminação racial tinha um forte parâmetro Reducista. Minimizou a questão das relações sociais no âmbito CAPITAL x TRABALHO.

A partir 1990 a questão racial entrou na pauta de discussão das Centrais Sindicais: CUT (central única dos trabalhadores), CGT (central geral dos trabalhadores), FS (força sindical).

JOEL RUFINO DOS SANTOS

Joel Rufino dos Santos, historiador, professor e escritor. Na atualidade um nome de referência sobre a cultura africana no Brasil.

Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Foi exilado por conta das suas idéias contra a ditadura militar (Bolívia). Foi detido em 1973 quando retornava ao Brasil.

Semana da Consciência Negra – Parte 4

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, CURSOS & EVENTOS com as tags em 19 19UTC Novembro 19UTC 2009 por Prof. Ronaldo
MOVIMENTOS NEGROS A PARTIR DO SÉCULO XX

A partir do século XX, os negros mais organizados e conscientes do seu papel na sociedade do país, desenvolvem medidas mais elaboradas e articuladas de resistência, conquistando maior alcance dos seus objetivos.

REVOLTA DA CHIBATA

A revolta da Chibata (1910) não apresentou projeto de transformação social mais amplo. Seu objetivo era a extinção dos castigos corporais, melhoria das condições de trabalho a bordo dos navios.

Mas não podemos deixar de salientar que os negros estavam cada vez mais conscientes do seu papel dentro da sociedade brasileira.

A partir de 1910 os negros trilham alternativas na luta pela cidadania e a evolução dos seus movimentos em âmbito nacional.

Durante o período da Primeira República (1889-1930), a política continuou sendo uma prática elitista, o povo em sua maioria negro, é chamado para aplaudir. Ou é visto como um mal necessário para legitimar uma democracia de fachada.

Sem espaço na política institucional do país, esse contingente africano no Brasil, desenvolveu sua atuação amparada por uma imprensa própria, surgida nas primeiras décadas do século XX.

A IMPRENSA NEGRA PAULISTA – com os seguintes jornais:

O Manelik – 1915
A Rua – 1916
O Alfaiate – 1918
A Liberdade – 1919
A Sentinela – 1920
O Getuliano e o Clarin D’Alvorada – 1924

A iniciativa de uma imprensa própria para os negros africanos no Brasil, confluiu para um grande envolvimento da massa popular urbana do Rio de Janeiro. O negro começava a construir o seu próprio espaço de atuação, com objetivo de influir o jogo político do Brasil.

A FRENTE NEGRA BRASILEIRA

No bojo da movimentação da comunidade negra paulista, através dos jornais, surge a FRENTE NEGRA BRASILEIRA. Um movimento de caráter nacional, com repercussão internacional.

Surgiu da vontade de negros abnegados como: Francisco Laucrécio, Raul Joviano do Amaral, José Correia Leite em 16 de setembro de 1931.

Sua sede social central se localizava na rua da Liberdade – SP, dirigida por um conselho de 20 membros.

A Frente Negra Brasileira criou a FRENTE NEGRINA, uma espécie de organização paramilitar, seus integrantes usavam camisas brancas e recebiam um rígido treinamento militar como se fossem soldados.

No início da Frente Negra Brasileira houve muita incompreensão, acusando-os de estarem fazendo racismo ao contrário.

Com o passar do tempo à entidade foi conquistando confiança da comunidade negra e da sociedade paulista.

Seus membros possuíam carteira de identidade expedida pela Frente Negra Brasileira. Quando a autoridade policial encontrava o negro com esse documento, respeitavam-no, porque sabiam que na Frente Negra Brasileira só encontravam pessoas do bem.

A Frente Negra Brasileira inscreveu mais de 400 negros, muitos deles fizeram carreira militar.

Pelos êxitos alcançados a Frente Negra Brasileira resolve se transformar em partido político, que foi concedido. Durando pouco tempo, em 1937 o golpe do Estado Novo de Vargas, dissolve todos os partidos políticos, entre eles a Frente Negra Brasileira.

A grande comunidade negra que acompanhava ou militava na entidade sentiram-se desamparados politicamente.

Um dos seus fundadores, Raul Joviano do Amaral tentou conservar a entidade, mudando seu nome para União Negra Brasileira. O jornal A voz da Raça deixa de circular.

A censura do Estado Novo é generalizada, a União Negra Brasileira que procurou substituir a Frente Negra Brasileira, morre melancolicamente em 1938, exatamente quando se comemorava 50 anos da Abolição dos Escravos no Brasil.

ABDIAS NASCIMENTO

O maior nome que lutou pela democracia étnica africana na sociedade brasileira, desenvolvendo políticas e ações que contemplaram a conscientização e mobilização, tanto dos negros, como da classe dominante por uma equiparação social.

Semana da Consciência Negra – Parte 3

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, CURSOS & EVENTOS com as tags em 18 18UTC Novembro 18UTC 2009 por Prof. Ronaldo
MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA NEGRA

ANTES DE 1888 - Era clandestino e radical, seu objetivo era libertar os cativos. A exemplo da Inconfidência Baiana ou Revolta dos Alfaiates (1798) que foi marcada por reivindicações populares.

QUILOMBOS – Os quilombos se constituíram como um mecanismo de resistência à escravidão que se desenvolveu no Brasil pelos colonizadores europeus.

TIPOS DE QUILOMBOS – Rompimento e Urbano.

ROMPIMENTO – Se caracterizava para romper o modelo da civilização que foi implantada no Brasil, com objetivo de recriar o mundo africano.

URBANO – Se caracterizava como uma forma de sobrevivência articulada com a civilização européia implantada no Brasil, seu objetivo era combinar as necessidades da sociedade social e econômica desenvolvidas na época.

NA REPÚBLICA 1889 - O contingente africano no Brasil desenvolveu formas alternativas de resistência no âmbito esportivo, lazer, culinário, econômico e etc.

A contribuição dos Quilombos Urbanos foi decisiva para a construção de uma sociedade mesclada com os moldes africanos e europeus. Adaptados a necessidade econômica e cultural que se desenvolvia dentro da cidade do Rio de Janeiro, o centro cultural e econômico do país na época da república.

Foi inevitável a sociedade dominante européia no Brasil conter as transformações que estavam se promovendo, a relação humana independe de um determinismo, ela é construída principalmente pela necessidade do dia-a-dia e do envolvimento das relações de ambos.

Zumbi dos Palmares

A articulação do negro africano dentro da sociedade brasileira, lhes dava a maleabilidade necessária para escapar da penúria, da fome, da violência, do mandonismo da classe dominante que, inviabilizavam a sua sobrevivência.

Principalmente a tentativa de romper o ideário europeu de etnia superior, que não coaduna com o momento que iremos encontrar no Brasil na Primeira República.

As tradições herdadas dos africanos floresceram no espaço urbano. A roda de capoeira é um espaço físico onde são travados os diálogos, uma metáfora da vida real, um lugar onde o negro criara um espaço de mudança nas relações sociais. É o momento em que há a possibilidade de o mais fraco etnicamente, ser o mais ágil e o mais mandingueiro.

Para Muniz Sodré a capoeira é um “saber selvagem”, que tem a utilidade prática, o objetivo de desenvolver a força, o reflexo e o raciocínio.

Na segunda metade do século XIX, ocorreu uma simbiose do universo da capoeiragem com o mundo militar. Aproveitaram os capoeiras das rixas entre militares e policiais para protegerem-se ao final da Guerra do Paraguai (1864-1870).

A capoeira é a representação de uma cultura, que se atribui como forma de resistência para quem se encontrava marginalizado social, político e economicamente. Na luta de capoeira o negro africano estaria pronto para um ataque preciso, daí a sua associação de quem a pratica, a figura do malandro urbano.

Para SKIDMORE a dinâmica da rápida expansão industrial retirou do negro a condição de um gradual aprendizado na mentalidade e do comportamento requerido pelo novo estilo de vida.

Aos negros e seus descendentes lhes restou os trabalhos urbanos inferiores, sendo maus remunerados. Trabalhos que não exigiam uma qualificação acadêmica ou técnica. Permanecendo marginalizados da política governamental, que não desenvolvia ações para a inserção desse contingente na mão-de-obra econômica dominante brasileira.

Excluídos da organização formal dos operários e sindicatos criados pelo nascente movimento operário no Brasil, de predominância ideológica anarquista. A população negra não constava nos cálculos da política social. Sendo visto como uma classe perigosa para a ordem social do país.

Para FLORESTAN FERNANDES, a modernidade republicana abandonou os negros a própria sorte, um modo funesto e imprevisto em escala coletiva. Falta-lhes a liberdade de ser feliz onde quiser em como queira.

Semana da Consciência Negra – Parte 2

Postado em CURSOS & EVENTOS, HISTÓRIA ANTIGA com as tags em 17 17UTC Novembro 17UTC 2009 por Prof. Ronaldo

TEORIA DO BRANQUEAMENTO – Após 1888 a classe dominante brasileira tinha o interesse de passar o país a limpo no campo étnico, para tanto passaram a desenvolver teorias.

A Teoria do Branqueamento foi introduzida no Brasil, estimulando a miscigenação como forma da mistura étnica ser o mecanismo para purificar a espécie humana em maior número no Brasil, o negro africano.

Supostamente no cruzamento com o branco europeu, purificaria a sua etnia, dotando estes descendentes das mais puras qualidades genéticas européias. Os compositores da classe dominante colocam um modelo étnico a ser seguido e almejado.

O pensamento era trabalhar no íntimo do sentimento e na consciência deste homem social, que traria menor hostilidade e apuro na etnia brasileira. O conforto em aspirar melhores dias, gerando uma suposta ambiência de DEMOCRACIA RACIAL.

BRANQUEAMENTO – É entendido como um projeto nacional que será implementado por meio da miscigenação seletiva e de políticas de povoamento e estímulo a imigração européia.

A DEMOCRACIA SOCIAL – Desenvolvida pela elite política e intelectuais do país, possuindo o pensamento que esta viria a partir da harmonia e tolerância racial, gerando na sociedade brasileira a ausência do preconceito e da discriminação étnica.

THOMAS SKIDMORE – “Preto no Branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro”

A tese do branqueamento baseia-se na presunção da superioridade branca, vê na miscigenação a saída para tornar a população mais clara, acredita que o gene da raça branca prevaleceria sobre as demais e que as pessoas em geral procurariam por parceiros mais claros do que elas. Assim o branqueamento produziria uma população mestiça sadia, capaz de tornar-se sempre mais branca, tanto cultural como fisicamente.

FLORESTAN FERNANDES

O ideal da miscigenação era um mecanismo mais ou menos eficaz de absorção do mestiço, não era nem a ascensão social de certa porção de negros e de mulatos, nem a igualdade racial, mas, ao contrário, a hegemonia da raça dominante.

MULHER NEGRA – A dignidade da mulher negra africana é violentada, atingindo a sua honra no âmbito moral e sexual, através de uniões mantidas a força, sob a égide do medo, da insegurança, onde as crianças eram concebidas legalmente sem pai.

Permanecendo no status de escrava, não havendo assim nenhum enriquecimento racial e cultural de civilização alguma.

MARTINIANO J. SILVA – Diz que não podemos confundir a descaracterização de um povo pela violência sexual com a hipótese de uma democracia racial.

Por outro lado podemos entender que a mulher negra africana, via no acasalamento com o branco europeu a oportunidade de conquistar algumas regalias para a sua vida cotidiana. Ter a simpatia do branco europeu, era a conquista de privilégios que diminuíam as agruras impostas pela desigualdade social que existe no Brasil na época.

Semana da Consciência Negra – Parte 1

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, HISTÓRIA ANTIGA em 16 16UTC Novembro 16UTC 2009 por Prof. Ronaldo
Em consonância ao Dia da Consciência Negra, esta semana postaremos no blog do Centro de Pesquisas da Antiguidade (CPA) entradas com assuntos dedicados à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. Esperamos desta forma, contribuir para o resgate das contribuições dos povos negros nas áreas social, econômica e política ao longo da história do país.

 Escravidão

A base da população do Brasil após a abolição dos escravos é composta dos negros africanos, que foram trazidos para o Brasil.

O escravismo surge no Mercantilismo (XV-XVIII) e se consolida na expansão do Capitalismo (XX), que é o elemento básico da acumulação primitiva de capital. No Brasil segundo Clóvis Moura foi o açúcar, o ouro e o café, que proporcionaram esse acúmulo primitivo de capital.

SOCIEDADE – A classe dominante era formada pelo branco europeu que se entendia como civilizado, trazia a sua ideologia de superioridade étnica em relação ao negro. Considerado inferior, uma peça que podia ser coisificado a bel prazer do seu dono.

Esse sentimento europeu dentro da classe dominante (elite) da sociedade brasileira irá criar mecanismo para sustentar a idéia de superioridade européia em relação ao negro com as seguintes ações de repressão:

Repressão às atividades culturais africanas;
Restrição a certas profissões; (profissionais liberais)
Restrição a logradouros públicos;
Restrição de moradia em áreas dos brancos;
Restrição na política (principalmente).

IGREJA OFICIAL – Corrobora no sentimento da classe dominante. O negro africano necessitava de receber os ensinamentos cristãos – libertar-se dos seus costumes e da sua cultura considerada pagã.

Nos primeiros séculos da existência do Brasil, os africanos não tiveram liberdade para praticar os seus cultos religiosos. No período colonial, a religiosidade africana era vista como arte do diabo.

Já no Brasil império essa religiosidade será vista como uma desordem pública, sendo um atentado contra a civilização de ideologia européia.

Sendo assim, a sociedade brasileira possuía um campo muito fértil para o desenvolvimento do preconceito étnico africano, que dificultava a integração social do negro africano.

LUTA RACIAL – Tem início com negros africanos, a luta pela conquista de uma inserção na sociedade brasileira, que a princípio consistia apenas num mero fator de sobrevivência, ou seja, uma melhor qualidade de vida.

Posteriormente, esse contingente negro passa a influenciar nos costumes e hábitos da sociedade dominante brasileira. O negro africano contribuiu não somente como base da economia brasileira, como também na construção de um país que acabara de nascer.

Com o passar do tempo à contribuição africana irá se desenvolver no campo gastronômico, cultural, religioso e principalmente no lazer do cotidiano citadino que irá se repercutir futuramente em toda a sociedade brasileira.

“ A ESCRAVIDÃO NÃO É SINÔNIMO DE ÁFRICA”

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, HISTÓRIA ANTIGA com as tags em 1 01UTC Outubro 01UTC 2009 por Prof. Ronaldo

 

Escrava sendo leiloada na Antigüidade,

Escrava sendo leiloada na Antigüidade, em quadro do pintor francês Jean-Léon Gérôme

         É muito comum quando pensamos em escravidão, associamos logo ao continente africano. Tal prática está inserida inconscientemente dentro de nossa formação brasileira, e campeiam, nos mais variados discursos populares.

         Entendemos a escravidão como uma forma de relação social onde se toma posse da vida de outro indivíduo, fazendo uso desta, para as mais diversas finalidades de exploração, seja econômica ou social.

         Este fenômeno social, não é privilégio das relações desenvolvida no continente africano, a verdade, é que os europeus registraram no tempo, as suas duras ações de incursão neste continente, deixando marcas profundas das ações truculentas e desumanas.

         A escravidão é uma prática social, na qual um ser humano tem os direitos de propriedade sobre o outro, designado por escravo, ao qual lhe é imposto tal condição por meio da força.

         A forma arquetípica melhor conhecida de trabalho escravo, é o uso deste como propriedade, na qual o trabalhador é legalmente considerado patrimônio do seu possuidor por toda a sua vida, podendo ser comprado, vendido ou trocado por seu proprietário, sem nunca, ou raramente, receber qualquer benefício pessoal por seu trabalho.

         Um tipo de relação que há na História da Humanidade. Já na antiguidade, o Código de Amurabi, que compreendia um conjunto de leis escritas na civilização babilônica, que discutia a relação entre os escravos e seus senhores. Utilizados entre egípcios, assírios, hebreus, gregos, romanos, e etc.; trata-se de um fenômeno histórico extenso e diverso.

         A escravidão, era muito comum em muitas sociedades antigas, incluindo a Grécia Antiga, Roma Antiga, Israel Antigo, China Antiga, sociedades na África e América. Onde ser vendido como escravo era um destino comum para as populações conquistadas em guerras.

         A relação escravista que se desenvolveram dentro das sociedades antigas, se pautou numa prática cultural, onde identificamos o escravo na cidade de Esparta na Grécia Antiga, que não podia ser vendido, trocado ou comprado, não sendo considerado propriedade particular do seu dono.

         Mesmo assim, já se verificava a existência de uma superioridade étnica dentro da sociedade, principalmente quando existia bastante diferença fenotípicas.

         Nas muitas cidades-estados gregas os escravos eram bárbaros, ou seja, indivíduos que não possuíam a cidadania grega.

         Os piratas atacavam cidadezinhas na costa de outros territórios capturando seus habitantes, fazendo-os escravos. Depois, os vendiam as pessoas como se fosse uma mercadoria qualquer. Seus compradores escolhiam os homens mais saudáveis e as mulheres que mais lhes agradassem.

         O amo (dono) do escravo tinha plenos poderes, podia castigá-lo da forma que considerasse conveniente, até mesmo matá-lo.

         O escravo era desprezado e considerado um “não-homem”. O Estado também era dono de escravos, utilizado-os nas obras públicas, na construção de templos religiosos ou de cais de algum porto. Havendo ainda, aqueles que trabalhavam para os donos de grandes extensões de terra. Nas cidades, trabalhavam nas oficinas de artesanato, ajudando no manuseio do couro, produzindo vasos de cerâmica, abatendo porcos e forjando metais.

         Em Atenas, boa parte dos escravos era obtida por meio das guerras contra diversos povos de origem estrangeira. Os traficantes realizavam a compra dos inimigos capturados e logo tratavam de oferecê-los em algum lucrativo ponto comercial.

         Mesmo ocupando uma posição social desprivilegiada, tinham diferentes posições dentro da sociedade ateniense. Alguns eram utilizados para formarem as forças policiais da cidade, outros, usualmente empregados em atividades que por conta de suas habilidades técnicas, tinham uma posição social de destaque, sem deixar de ser-lhes imputados o estigma social de escravo.

         Em certos casos, um escravo poderia possuir uma fonte de renda própria, e, em momento oportuno comprar a sua própria liberdade.

         Convém destacar a importância social do escravo, sendo fundamental na sociedade ateniense com relação a sua utilização, contribuindo para a maior disponibilidade de tempo aos homens livres, na participação das assembléias, debates públicos, reuniões filosóficas, produção de obras de arte e etc. A escravidão se caracterizou por ser uma terrível mancha na sociedade grega.

O efervescente legado democrático desenvolvido por essa civilização, nos serviu de motivo cabal para dizermos que, a suposta democracia ateniense foi incompleta; ou, por que não, dizer, inexistente?

         Já em Roma, a utilização da mão-de-obra escrava, teve importância significativa, em geral, trabalhava nas propriedades dos patrícios, grupo social romano que detinha o controle da maior parte das terras cultiváveis do império romano.

         Assim, como em Atenas, o escravo romano também exercia diferentes funções, podendo administrar a sua própria liberdade. A única restrição romana a um ex-escravo era jurídica, impedindo-o de exercer qualquer cargo público.

         A escravidão romana se assenta na exploração do trabalho forçado da mão-de-obra, o senhor alimentava o escravo e apropriava-se do produto resultante do seu trabalho. O que tornava possível a produção de excedentes, fornecendo a base para o desenvolvimento econômico e cultural como: construção de diques, canais de irrigação, exploração das minas, abertura de estradas, construção de pontes, fontes de defesa cidadina, etc.

         A escravidão também contribuiu para determinar o status social de riqueza e prestígio de um indivíduo dentro da sociedade, à medida que, desenvolvia a conquista de novos territórios capazes de fornecer o maior número possível de escravos.

         Já na América pré-colombiana, o escravo não era obrigado a permanecer nessa condição durante toda a sua vida, deixando-a quando quitava sua dívida. Podendo mudar de classe social.

         Como escravo, era empregado na agricultura e no exército, onde recebia uma pequena propriedade rural. Plantando para o sustento de sua família, reservando ao imperador uma parcela maior da sua produção em relação a produção oferecida pelos  cidadãos livres.

         Afastando-nos da linha temporal da antiguidade, alcançando a Era Moderna, podemos verificar a modificação de todo o conceito de escravidão.

         A escravidão contratual ou por empreitada, foi à forma mais comum desenvolvida na sociedade moderna, na qual, o trabalhador assina um contrato para trabalhar por um período específico, sendo pago apenas com acomodações e alimentos, ou acréscimo de benefícios limitados, tais como: quitação de algum débito, ou dos custos de transporte para uma determinada região.

         A expansão da cultura do café no Brasil, provocou a entrada maciça de trabalhadores europeus, sobretudo entre 1870 e 1940, pela necessidade de produzir alimentos agrícolas para o mercado interno, mas principalmente atender a produção básica da economia cafeeira exportadora.

         No fim do século XIX, a maioria dos imigrantes europeus vindos para o Brasil, em substituição à mão-de-obra escrava, se destinou ao campesinato.

         Também conhecida no Brasil, como sistema de “barracão” ou de “cantina”. como forma de pagamento por algum tipo de empréstimo através do trabalho direto, ao invés de utilizar a moeda corrente ou de algum bem.

         Entendemos escravidão não sendo sinônimo de África. A História retrata ser um fenômeno social que teria surgido com as primeiras lutas entre os humanos em priscas Eras, tendo a sua origem no direito da força, que foi corporificando e se espalhando entre os homens, isolado-os em outras sociedades. Diferente da sua cultura e território. Destes às famílias, às tribos e por fim, às nações e aos Estados organizados.

         O pensamento, e por não dizer, o sentimento de “Escravidão/África”, se relaciona a imagem deixada pelo continente europeu em relação ao africano, repercutindo no imaginário humano pelo mundo, a partir das atrocidades desenvolvidas, e covardemente justificada pela Igreja.

         Observando as variadas relações escravistas existentes nas inúmeras sociedades ao longo da história das civilizações; o continente africano foi o que mais capitaneou a relação escravista sobre a égide de diversas sociedades em vários continentes, principalmente europeu, que na gênese das relações econômicas pelo mundo, tatuou na epiderme das sociedades africanas as cicatrizes de uma história de escravidão.

         A ferocidade do vencedor exalta sobre o vencido a causa principal do processo escravizatório do homem desde a remota antiguidade que a História pôde assim reconhecer.

 

 BIBLIOGRAFIA SOBRE A ESCRAVIDÃO

J. Avelãs Nunes. Os Sistemas Econômicos, Gênese e Evolução do Capitalismo. Coimbra: 2006.

FLORENTINO, Manolo. Ensaios sobre escravidão. Minas Gerais: UFMG, 2003.

MELTZER, Milton. História ilustrada da escravidão. São Paulo: Ediouro, 2004.

Desvendando os segredos da feijoada

Postado em CULTURA E SOCIEDADE com as tags , , em 8 08UTC Setembro 08UTC 2009 por Prof. Ronaldo

Prof. Ronaldo J. Silva

Feijoada

         Durante muito tempo, ouvimos falar que a feijoada prato típico da culinária brasileira, com diversos tipos de acompanhamento: arroz, mandioca frita, torresmo, laranja, caipirinha e outros; teria a sua gênese na escravidão. Iguaria atribuída a alimentação dos negros africanos escravizados no Brasil nas suas refeições nas senzalas.

         Tal refeição era constituída de “restos” de pertences miúdos de porcos: orelha, rabo, fissuras internas, pé e outros animais, segundo o que se difundiu era especificamente miúdos de suíno renegado na culinária dos senhores de engenho e escravos.

         Culinária que haveria surgido dentro das senzalas no Brasil, no período do século XVIII e meados do século XIX. Época em que o Brasil viveu o apogeu da escravidão, com base econômica na cana-de-açúcar, café e mineração.

         Precisamos entender que a economia brasileira gravitava em tornos destas culturas que a sustentava, encontramos neste momento um Brasil agrário, monocultor e escravista. O complemento alimentar tanto para os senhores de engenho como do restante da população necessitava da importação.

         A base alimentar era constituída por farinha de mandioca e/ou de milho desde os primórdios da escravidão no Brasil, preparada com água e alguns poucos complementos.

         A sociedade escravista do Brasil no século XVIII e parte do século XIX foram constantemente assoladas pela escassez e carestia de alimentos básicos decorrente da monocultura que estruturava o país economicamente. Também por conta da dedicação exclusiva à mineração, do estímulo e investimento do trabalho escravo.

         Não era rara a morte por deficiência alimentar, incluindo também a morte dos próprios senhores europeus que compunha a classe dominante brasileira.

         Os negros escravos eram a força motriz, trabalhavam muito, encontramos neste a principal máquina humana de produção econômica. Sendo o seu custo muito elevado.

         Para tal encontramos uma rotina alimentar seqüenciada, devendo comer três vezes ao dia, almoçando às oito horas da manhã, jantando à uma hora da tarde e ceando entre as vinte e vinte uma hora da noite.

         Podemos verificar no cardápio dos escravos a presença de angu de fubá de milho ou de farinha de mandioca, feijão temperado com sal e gordura, servido muito ralo, com uma ocasional aparição de algum pedaço de carne de vaca ou porco.

         Em certas ocasiões a presença de laranja colhida do pé como complemento. Quando se realizava uma boa colheita de café, onde capataz cedia um porco inteiro aos escravos, mas isso era exceção.

         A relação que encontramos neste período entre os negros escravizados e seus senhores é multifacetada, analisando pela tipologia moderna se evidencia nesta sociedade da época três tipos de Poder: Poder econômico – aquele que é exercido através da posse de bens para controlar quem não os possui; Poder Ideológico – que está fundamentado na influência das idéias sobre as pessoas; e Poder Político – que está fundamentado na posse de instrumento necessários ao exercício do poder coativo.

         A relação de poder está estabelecida num fenômeno típico das relações sociais, não deixando de observar as relações entre o negro escravo e seu senhor uma relação autoritária, a contar que este primeiro põe uso do Poder Individual – que é a capacidade de controlar ou influenciar pessoas com base na força física ou habilidade de convencimento.

         A alimentação deste negro no momento escravo se vislumbra conforme a sobrevivência e necessidade. Haja vista que encontramos escravos domésticos, escravos de ganho; e estes privam em certo momento da ambiência culinária do seu senhor.

         Um recibo datado de 1889 pela Casa Imperial num açougue em Petrópolis na cidade do Estado do Rio de Janeiro, registra a compra de carne verde, vitela, carneiro, porco, lingüiça, lingüiça de sangue, fígado, rins, língua, miolos, fressura de boi e molhos de tripas.

         Comprovando que não era somente os escravos que comiam essas iguarias, e de nenhum modo considerado “restos”, ao contrário era considerada iguaria. Em 1817 regulamenta-se a profissão de tripeiro na cidade carioca, vendedores ambulantes se abasteciam nos matadouros de gado, porco e partes destes animais.

         O fígado, coração e tripas eram utilizados para fazer o angu, comumente vendidos pelas escravas de ganho ou forras nas praças e ruas da cidade.

         Evidenciando que até este momento a culinária brasileira não era inelástica, pelo contrário, reflexo da manifestação da relação social que sempre existiu entre senhor e escravo no período escravista brasileiro.

         Tal relação não nos permite fundamentar que o aparecimento culinário da feijoada seja restrito aos escravos na senzala, quando também a encontramos na culinária européia o apreço por cozidos, principalmente em Portugal nas regiões de Estremaduras, das Beiras, Trás-os-Montes e Alto Douro.

         Misturando lingüiça, pé de porco e orelha a cozidos, muito comuns na Europa. Quando este europeu no Brasil interage com esta mão-de-obra africana escravista como fonte de produção e alimentação.

         Nos leva a concluir que a feijoada, prato típico da culinária brasileira, foi um tipo de alimento que se evoluiu dentro do país a partir de influências trazidas da cultura gastronômica européia e não necessariamente originária direta e unicamente pelo negro escravo.

         No início do século XIX a feijoada já era bastante conhecida dentro do território brasileiro, já intitulada como a “feijoada brasileira”. Quando em 1848 o Jornal Diário de Pernambuco registra um anúncio revelando a venda de carne de toucinho própria para feijoada ao custo de oitenta réis de Libra.

         Em 1849 o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, registra que no dia seis de janeiro na recém instalada Casa de Pasto “Novo Café do Comércio”, junto ao botequim da “Fama do Café com Leite” será servida a pedido de muitos fregueses a “bela feijoada à brasileira”, todas as terças-feiras e quintas-feiras.

         Luís da Câmara Cascudo, Historiador, Folclorista, Antropólogo, Advogado e Jornalista, em uma das suas observações, concluiu que o processo culinário da feijoada ainda continuava em desenvolvimento.

         A relação socioeconômica do negro africano quando escravo no Brasil, se constituiu de base totêmica – fenômeno que certas sociedades primitivas se julgam ligadas de modo específico. A contextualização da feijoada como prato culinário de gênese brasileira remonta de uma lenda contemporânea, romanceada das relações sociais e culturais da escravidão no Brasil.

         Portanto, a feijoada brasileira não passa de um hibridismo cultural, social e econômico.

 

Referências:

  • CASCUDO, Luís da Câmara – História da Alimentação no Brasil – 2 vols. 2ª ed. Itatitaia, Rio de Janeiro, 1983.
  • DITADI, Carlos Augusto Silva – Cozinha Brasileira: Feijoada Completa- Revista Gula, n. 67, Editora Trad, São Paulo. 1998.
  • ELIAS, Rodrigo – Breve História da Feijoada – Revista Nossa História, ano 1, n. 4, Editora Vera Cruz, São Paulo. Fevereiro de 2004.
  • FIGUEIREDO, Guilherme – Comidas, Meu Santo – Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1964.