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A rainha Nitócris

Postado em POLÍTICA com as tags em 9 09UTC Dezembro 09UTC 2009 por Prof. Márcio Sant'Anna

Quando Heródoto esteve no Egito ouviu falar, através dos sacerdotes com quem conversou, de uma antiga soberana egípcia quase mítica, a rainha Nitócris. Sobre ela, o pai da História escreveu que “entre os trezentos e trinta reis que governaram o Egito depois de Menes, figuram dezoito Etíopes e uma mulher natural do país. Todos os outros eram homens e Egípcios. A mulher chamava-se Nitócris, como a rainha da Babilônia”.

De acordo com Maneton, historiador egípcio da antiguidade que fez uma lista dos faraós, esta rainha teria reinado no final da VI dinastia (por volta de 2130 a.C.) por pouco tempo – nos anais reais do período raméssida está escrito que Nitócris reinou por dois anos, um mês e um dia – e subiu ao trono após o assassinato do irmão, o faraó Merenre II.

Maneton destacou também a beleza e a bravura da rainha: “Houve uma mulher Nitócris, que reinou; ela era mais corajosa que todos os homens de seu tempo e a mais bela de todas as mulheres; tinha o físico de uma loura de faces rosadas”. Cabe destacar, a respeito desta descrição física de Nitócris feita por Maneton – uma egípcia loura – que a mesma possui fundamentação arqueológica, visto que as pinturas encontradas em tumbas da V dinastia mostram princesas egípcias enfeitadas com perucas de cabelos claros.

Entretanto, o final do reinado da corajosa Nitócris foi trágico: a rainha vingou-se dos assassinos do irmão através de uma armadilha e em seguida suicidou-se. Heródoto escreveu sobre esse episódio em sua obra sobre o Egito:

“Contaram-me que os Egípcios, depois de haverem matado o rei, irmão de Nitócris, coroaram-na rainha, e ela, para vingar a morte do irmão, fez perecer, por um artifício, grande numero de Egípcios. Mandou construir uma vasta galeria subterrânea e, sob o pretexto de inaugurá-la, convidou para um banquete vários Egípcios que ela sabia terem sido os principais autores da morte do irmão. Quando eles se achavam à mesa, fez penetrar até o recinto as águas do rio, por um grande canal secreto. Quase mais nada se diz sobre essa princesa, senão que, depois de ter perpetrado essa vingança, precipitou-se num cubículo cheio de brasas, para subtrair-se à vingança do povo”.

Após o reinado de Nitócris o Egito mergulhou na guerra civil. Era o fim do Antigo Império e início do Primeiro Período Intermediário. Aproximadamente mil anos após a unificação por Menes era a primeira vez que o Estado egípcio se desorganizava.

 

Referências bibliográficas

HERÓDOTO. História. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
NOBLECOURT, Christiane Desroches. A mulher no tempo dos Faraós. Campinas: Papirus, 1994.

O incesto no Egito faraônico

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, HISTÓRIA ANTIGA com as tags em 4 04UTC Dezembro 04UTC 2009 por Prof. Márcio Sant'Anna

Muitas pessoas, ao falarmos sobre o Egito do tempo dos faraós, consideram esta civilização como o berço das relações incestuosas. Entretanto, isto não era a regra e sim a exceção.

Questões ligadas à legitimidade poderiam fazer com que um faraó casasse com uma meio-irmã ou mesmo com uma de suas filhas. Famosos são os casos de Ramsés II, Amenhotep III e Akhenaton – este último, segundo algumas correntes historiográficas e ainda na dependência de comprovação – que desposaram as filhas, respectivamente Meritamon, Sitamon e Meritaton. Heródoto, o pai da História, em sua viagem ao Egito ouviu falar da paixão do faraó Miquerinos por sua própria filha, fato que resultou em uma verdadeira tragédia:

“Conta-se ainda [que] Miquerinos, tendo-se apaixonado pela filha, violou-a, e que a jovem princesa, cheia de desespero e vergonha, enforcou-se, tendo então o soberano colocado a corpo dentro da novilha de madeira [o sarcófago]. Vingando-se do ultraje, a mãe da jovem mandou cortar as mãos das damas de companhia da filha, pela sua conivência no atentado”.  (II, CXXXI)

Nas camadas populares, entretanto, o casamento entre parentes não era uma situação comum. Com base no material disponível, nada sugere que o incesto tenha sido uma prática majoritária entre a população egípcia. De acordo com a egiptóloga Lise Manniche em sua obra A vida sexual no antigo Egito, “das inúmeras ligações amorosas passíveis de serem pesquisadas, existe apenas uma que se pode dizer incestuosa; duas são ‘quase certas’, outras duas são ‘improváveis mas possíveis’”.

Casal representado na tumba de Ramose, vizir do faraó Amenhotep III. Sheikh Abd el-Qurna, Egito.

Outra possibilidade que conduziu ao erro de análise em relação ao incesto na sociedade egípcia foi a prática dos esposos e amantes tratarem-se carinhosamente por “meu irmão” e “minha irmã” em todas as classes sociais, o que levou a uma interpretação literal destas expressões pelos primeiros egiptólogos.  

 

Referências bibliográficas

HERÓDOTO. História. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
MANNICHE, Lise. A vida sexual no antigo Egito. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
NOBLECOURT, Christiane Desroches. A mulher no tempo dos Faraós. Campinas: Papirus, 1994.
TYLDESLEY, Joyce. Chronicle of the queens of Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2006.

Você sabia…

Postado em VOCÊ SABIA... com as tags em 1 01UTC Dezembro 01UTC 2009 por Prof. Márcio Sant'Anna
 
Dois dos mais famosos paramentos dos faraós eram o cetro e o cajado. Mas o que tais acessórios significavam dentro da construção da imagem do monarca egípcio?

Os dois objetos eram considerados atributos do poder divino, entregues ao soberano no momento em que este ascendia ao trono. Tanto o cajado (hekat) quanto o flagelo (nekhakha) eram utilizados por Osíris e outras divindades e tradicionalmente estavam ligados respectivamente ao Alto e ao Baixo Egito, mas também às atividades de pastoreio. O rei como pastor de seu povo seria responsável por guiá-lo com o cajado no caminho da retidão – Maat – ou castigá-lo violentamente pelas faltas com o uso do flagelo. 

O cetro hekat e o flagelo nekhakha: símbolos do poder faraônico.

 

Referência bibliográfica

TRAUNECKER, Claude. Os deuses do Egito. Brasília: UNB, 1995.

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Postado em VOCÊ SABIA... com as tags , em 24 24UTC Novembro 24UTC 2009 por Prof. Márcio Sant'Anna

Que havia suspeitas dos egípcios para com os embalsamadores dos cadáveres que realizavam o processo de mumificação. Acreditavam que os corpos das mulheres mais belas eram violados pelos profissionais e de acordo com Heródoto havia até uma precaução tomada para evitar a necrofilia – o sexo com os mortos:

“Tratando-se de mulher, e se esta é bonita ou de destaque, o cadáver só é levado para embalsamamento decorridos três ou quatro dias após o seu falecimento. Toma-se essa precaução pelo receio de que os embalsamadores venham a violar o corpo. Conta-se que, por denúncia de um dos colegas, foi um deles descoberto em flagrante com o cadáver de uma mulher recém-falecida”. (II, XCI)

Representação do Livro dos Mortos apresentando um embalsamador, com a máscara do deus-chacal Anúbis, preparando uma múmia.

 

Referências bibliográficas

HERÓDOTO. História. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. 
MANNICHE, Lise. A vida sexual no antigo Egito. Rio de Janeiro: Imago, 1990. 

Ramsés III e a primeira greve mencionada pela História

Postado em POLÍTICA com as tags , , em 13 13UTC Novembro 13UTC 2009 por Prof. Márcio Sant'Anna

Ramsés III foi, certamente, o último governante realmente forte do Egito faraônico. Em seu governo (por volta de 1182 a.C. a 1151 a.C.), segundo o Papiro Harris, a ordem no Estado foi restabelecida após um período de lutas internas e externas pelo poder. Não conseguiu, no entanto, fazê-lo facilmente. Teve que comandar uma verdadeira guerra contra os Povos do Mar[1].

Fragmento do Papiro Harris, com a representação (da direita para a esquerda) do faraó Ramsés III perante os deuses Ptah, Sekhmet e Neferten. British Museum, Londres.

Fragmento do Papiro Harris, com a representação (da direita para a esquerda) do faraó Ramsés III perante os deuses Ptah, Sekhmet e Neferten. British Museum, Londres.

Por essa época, o Delta do Nilo já estava totalmente nas mãos de estrangeiros, e desta forma Ramsés III reunindo os recursos de que dispunha, enviou um exército para lá. Suas tropas derrotaram os invasores, que estavam coligados aos líbios, cortaram suas linhas de comunicação e os isolaram. Contudo, devido à coligação anteriormente mencionada, as tropas invasoras receberam reforços navais vindos das ilhas do Mediterrâneo a caminho do Delta. Ramsés III armou uma poderosa frota e aguardou os invasores nas águas rasas da foz do Nilo. Houve então a batalha da qual os egípcios saíram vitoriosos e na qual obtiveram a reunificação de seu país sob um só faraó.

O governo de Ramsés III, contudo, não pôde ser apenas um eterno enaltecer das glórias de batalhas passadas, visto que a fome se havia tornado crônica e a corrupção endêmica. É possível que os últimos recursos disponíveis no tesouro nacional tenham sido gastos para derrotar os Povos do Mar.

Por volta do final de seu reinado, o faraó foi obrigado a enfrentar, devido à frágil situação econômica do país, uma greve dos trabalhadores que construíam sua tumba. Eles alegavam falta de trigo e até de óleos para o corpo. Pedreiros, cinzeladores, pintores, carpinteiros, marceneiros, mumificadores, guardas, artesãos de todos os tipos, todos eram pagos mensalmente com cereais. Entretanto, há um mês ou dois não se via pagamento algum.

Os trabalhadores cruzaram os braços, apesar dos apelos das autoridades para que voltassem ao trabalho. Como não houve solução nos três dias que se seguiram, os trabalhadores resolveram invadir o Ramesseum, templo funerário do faraó Ramsés II. A ocupação foi feita de forma ordenada e somente foi resolvida temporariamente após os operários solicitarem a intervenção do próprio faraó e do vizir, como destaca o texto do Papiro Harris:

“Apesar de disciplinados, os operários declararam: ‘Viemos até aqui (no Ramesseum) porque temos fome, porque não temos roupa, nem peixe, nem óleo, nem verduras. Contai isto ao faraó, nosso Bom Senhor, e ao Vizir, nosso Chefe. Fazei com que possamos viver’”.

De acordo com a narração contida no papiro Harris, nos dois meses seguintes o pagamento continuou ocorrendo de forma intermitente, o que provocou novos protestos e paralisações dos trabalhadores. A solução definitiva somente ocorreu quando houve o pagamento dos sacos de cereal atrasados e um adiantamento de cinqüenta sacos, devidamente retirados pelo Estado das ofertas feitas no mesmo Ramesseum invadido anteriormente, visto que os celeiros egípcios continuavam passando por um período de carestia.


[1] Aqueus, sardos, danaos, teucros, filisteus, misos, sículos, lícios, dárdanos e etruscos, entre outros.

 

Referências Bibliográficas:

JOHNSON, Paul. História ilustrada do Egito antigo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

MELLA, Federico A. Arborio. O Egito dos faraós: história, civilização, cultura. São Paulo: Hemus, 1998.

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Postado em VOCÊ SABIA... com as tags , em 4 04UTC Novembro 04UTC 2009 por Prof. Márcio Sant'Anna

Que durante o governo do faraó Merenptah (aproximadamente entre 1224 a.C. e 1214 a.C.), filho e sucessor de Ramsés II, os egípcios realizaram uma grande campanha militar contra os líbios e, para comprovar a vitória avassaladora foram cortados e trazidos os pênis de mais de sete mil inimigos mortos nos campos de batalha. Todos foram depositados no templo de Karnak, na antiga capital egípcia Tebas, como oferendas ao deus Amon-Rá, patrono do Império egípcio.

Estela com imagem representando o faraó Merenptah abatendo os inimigos do Egito

Estela com imagem representando o faraó Merenptah abatendo os inimigos do Egito

A teogamia no Egito antigo: recurso de legitimação de poder

Postado em ARQUEOLOGIA, CULTURA E SOCIEDADE, HISTÓRIA ANTIGA com as tags em 30 30UTC Outubro 30UTC 2009 por Prof. Márcio Sant'Anna

Normalmente no Egito antigo os faraós somente completavam seu caminho para tornarem-se divindades após a morte, quando penetravam no Mundo dos Mortos e tinham sua imagem vinculada a do deus Osíris, rei deste local. A partir daí passavam a receber culto como mais uma das divindades do panteão egípcio. Entretanto, alguns faraós não quiseram esperar a morte para gozarem deste privilégio e valeram-se de estratagemas para garantir acesso a divindade de uma forma mais rápida e ainda em vida. O caso mais bem sucedido, sem dúvida, é o do faraó Ramsés II, terceiro soberano da XIX dinastia egípcia, que governou por volta de 1279 a.C. a 1212 a.C. a maior potência da antiguidade.

Um dos recursos utilizados por Ramsés II para justificar sua divindade ainda em vida foi afirmar que seus pais eram deuses. Esta estratégia, entretanto, já havia sido utilizada anteriormente por outros reis durante no Novo Império.

Estátuas de Ptah, Amon, Ramsés II e Rá no interior do grande templo de Abu Simbel. Note que o faraó é representado do mesmo tamanho que os deuses, sendo desta forma um igual entre eles.

Estátuas de Ptah, Amon, Ramsés II e Rá no interior do grande templo de Abu Simbel. Note que o faraó é representado do mesmo tamanho que os deuses, sendo desta forma um igual entre eles.

A primeira a fazer isso foi a rainha-faraó Hatshepsut, que se utilizou da teogamia – a união divina – para legitimar sua ascensão ao trono frente ao herdeiro escolhido pelo oráculo, Thutmés III. Para tornar passível de crença a legitimidade da rainha, o clero de Amon criou o mito do nascimento divino da soberana: a mãe de Hatshepsut, Ahmés, encontrava-se no palácio real. O deus Amon observou-a e, depois de consultar um conselho composto por doze divindades, decidiu que chegara a hora de gerar um novo faraó. O deus tomou a aparência do faraó Thutmés I, e encontrou a rainha no quarto, adormecida. Ela acordou ao sentir o perfume que emanava do corpo do esposo e o deus Amon se mostrou em toda sua plenitude. Ahmés caiu aos prantos em emoção pela grandiosidade do deus. O casal uniu-se sexualmente e depois Amon decretou que a filha que nasceria da união dos dois governaria o Egito de acordo com seus desígnios. Posteriormente, Hatshepsut mandou entalhar nos murais de seu templo funerário em Deir el-Bahari as cenas desta teogamia.

Anos depois, o faraó Amenhotep III também lançou mão da teogamia – que mandou esculpir no templo de Amon, em Luxor – baseado no exemplo deixado por Hatshepsut. Neste caso, a mãe do faraó, Mutemwia recebeu a visita de Amon na forma de seu esposo, o faraó Thutmés IV e desta forma geraram o herdeiro do trono. Tal situação visava legitimar Amenhotep III no poder, visto que seu pai não era o legitimo herdeiro do trono quando o avô, Thutmés IV, morreu, fato que poderia gerar rivalidades e alimentar disputas pelo poder.

A novidade introduzida por Ramsés II foi que tanto seu pai, quanto sua mãe seriam divinos na sua teogamia: de acordo com uma primeira versão, encontrada no templo de Abu Simbel, o faraó era filho de Mut, a deusa da guerra e de Amon, o deus solar criador do mundo na mitologia da cidade de Tebas – antiga capital do Egito – e que havia se tornado deus patrono de todo o império egípcio. No mural do templo que retrata a batalha de Qadesh, liderada por Ramsés II contra os hititas, há uma inscrição onde Amon revela o real motivo de ajudar o soberano rumo à vitória: “Estou com você, sou seu pai, minha mão está contigo”.

Ramsés II, representado entre os deuses Amon e Mut. Museu Egípcio de Turim.

Ramsés II, representado entre os deuses Amon e Mut. Museu Egípcio de Turim.

Para reforçar ainda mais sua natureza divina, Ramsés II elegeu outro casal de pais divinos. Na sala hipóstila – que funcionava como uma espécie de salão de recepção do deus ao qual o templo era dedicado e cujo acesso era restrito ao faraó, aos sacerdotes, escribas e altos funcionários – do templo de Abu Simbel, aparece uma inscrição chamada “Benção de Ptah”. Nela o deus Ptah da cidade de Mênfis proclama em relação a Ramsés II: “Te fiz nascer em sua nobre mãe, porque sabia que serias um protetor e que realizaria boas ações para meu espírito. Quando você nasceu, eu te alcei perante os deuses”. Desta forma, Ramsés II seria filho do casal Ptah, deus criador do mundo e de todas as coisas de acordo com o mito de Mênfis e de sua esposa, a deusa leoa Sekhmet, filha de Rá que representava as forças da destruição.

Diante de tais progenitores, nada podia colocar em dúvida a divindade de Ramsés II.

 

Referências bibliográficas:

GRALHA, Júlio. Deuses, faraós e o poder: legitimidade e imagem do deus dinástico e do monarca no antigo Egito. Rio de Janeiro: Barroso Produções Editoriais, 2002.
JOHNSON, Paul. História ilustrada do Egito antigo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.
MELLA, Federico A. Arborio. O Egito dos faraós: história, civilização, cultura. São Paulo: Hemus, 1998.
MENU, Bernadette. Ramsés II:soberano dos soberanos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
TYLDESLEY, Joyce. Chronicle of the queens of Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2006.

Gueixa, a arte da companhia

Postado em CULTURA E SOCIEDADE em 23 23UTC Outubro 23UTC 2009 por Prof. Márcio Sant'Anna

Um dos costumes japoneses mais antigos e, talvez, um dos mais admirados pelo Ocidente após a abertura do Japão para o restante do mundo no século XIX, as gueixas sempre despertaram interesse seja através da literatura, cinema ou como representantes de tradições que existem há aproximadamente quatro séculos.

Jovens meninas abandonavam suas famílias para viver nos kuruwa, bairros das cidades japonesas dedicados ao lazer e à satisfação dos sentidos, cujos primeiros exemplares remontam à cidade de Edo, atual Tóquio, no início do século XVII. Nestes lugares, que não eram prostíbulos, mas áreas fechadas, contornadas por muros e onde havia um controle rigoroso da entrada e saída de pessoas, estas meninas tornavam-se assistentes das yūjo, prostitutas japonesas ou “damas da noite”, mestres de cerimônia e amantes profissionais.

Cabe ressaltar que inicialmente as gueixas, cujo significado etimológico da palavra é pessoa de talentos artísticos, eram homens. Com o passar do tempo, entretanto, as mulheres foram ocupando cada vez mais espaço nesta profissão e os homens tornaram-se otoko gueixas, gueixas masculinas.

 Também com o passar do tempo, foram criados os hanamachi, ou comunidades licenciadas de gueixas, que não tinham relação alguma com a prostituição. Lá, as maiko, aprendizes de gueixas, passaram a ser adotadas pelas okāsan, termo usado para designar uma gueixa mais velha que dirige uma casa de chá e pode ser compreendida como “mãe” de um grupo de gueixas. Na sociedade das gueixas, existe a primazia da irmandade feminina, formando-se uma espécie de matriarcado.

Recebiam um nome artístico e passavam anos obtendo a formação necessária para todas as gueixas, ou minarai: aprendiam a dançar, cantar e a tocar o shamisen, instrumento de cordas tradicional da cultura japonesa. A função de treinamento de uma maiko cabia a uma gueixa mais velha, a onēsan – “irmã mais velha” – e apresentava-se aí uma relação hierárquica onde o laço de irmandade não tinha conotação de igualdade como no Ocidente, mas sim uma relação onde a irmã mais nova apresentava deferência e em troca sua onēsan seria sua mentora e amiga. Para marcar a aceitação de uma nova maiko numa comunidade de gueixas, era realizado o ritual do sansan-kudo, onde as duas irmãs bebiam saquê em três taças diferentes, uma após a outra para marcarem a aceitação da irmã mais nova. Também para sair do mundo das gueixas havia um ritual chamado hiki iwai – “comemoração da separação” – onde a gueixa que estava se retirando da profissão, normalmente por casamento, outra oportunidade de trabalho ou mesmo por ter encontrado um protetor, o danna, se despedia de suas companheiras de profissão comendo um prato de arroz com as mesmas.

Jovens maiko em Quioto, Japão.

Jovens maiko em Quioto, Japão.

Num país onde as mulheres são conhecidas pela discrição, as gueixas eram companhias femininas agradáveis aos homens que podiam pagar. Elas eram cultas e dominavam a arte de entreter com conversas, poemas, espetáculos de dança e música. As próprias esposas japonesas não encaravam as gueixas como suas rivais, mas as viam num papel complementar, visto que o papel de esposa no Japão coloca a mulher no centro do lar, não se espera dela relações sociais com os colegas do marido, este papel cabe à gueixa. Esposas e gueixas se vêem em lados opostos de uma linha: as esposas no mundo social interno e as gueixas no externo.

Entretanto, dentre todas as formas de entretenimento oferecidas pelas gueixas, uma sempre foi considerada um tabu: as gueixas praticavam sexo com seus clientes? A resposta é sim, mas isso não era uma obrigatoriedade e nem uma atribuição essencial da profissão. O sexo ocorria em determinadas noites, como durante o mizu-age, ritual em que as jovens gueixas perdiam a virgindade com os clientes que dessem o lance mais alto para ter esse privilégio numa espécie de leilão, que chegava a ser extremamente concorrido dependendo da jovem. Após esta cerimônia, a jovem deixava de ser uma maiko e tornava-se uma gueixa iniciada. Passava, então, a marcar suas experiências sexuais com tinta na própria nuca.

Gueixa andando pelo tradicional bairro de Pontochō em Quioto, Japão.

Gueixa andando pelo tradicional bairro de Pontochō em Quioto, Japão.

Segundo Liza Dalby, antropóloga norte-americana que para realizar sua tese de graduação viveu numa comunidade de gueixas no Japão, no fim do século XIX as gueixas eram vistas como vanguardistas, pois lançavam moda e eram muito respeitadas. Entretanto com a ocidentalização do Japão e, principalmente, após a 2ª Guerra Mundial, quando muitas mulheres foram trabalhar em fábricas, elas se tornaram símbolos de velhas tradições consideradas por muitos ultrapassadas. Estima-se que hoje ainda existam cerca de mil gueixas em atividade no Japão.

 

Referência Bibliográfica

DALBY, Liza. Gueixa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

A condição feminina na Grécia antiga

Postado em HISTÓRIA ANTIGA com as tags , em 19 19UTC Outubro 19UTC 2009 por Prof. Márcio Sant'Anna

Quando lançou sua música Mulheres de Atenas, Chico Buarque de Hollanda foi classificado na época de machista pelo movimento feminista no Brasil. O autor se justificou dizendo que a idéia principal de tal canção era justamente levar as mulheres contemporâneas à reflexão para não sofrerem situações análogas às da antiguidade, especificamente aquelas ligadas às mulheres da Grécia antiga.

Na sociedade atual, as mulheres vivem uma condição bem diferente daquela na qual as gregas antigas estavam inseridas – apesar de esbarrarem ainda em certos preconceitos culturais e, em algumas sociedades encontrarmos comportamentos considerados extremamente estranhos e violentos, como a extirpação do clitóris em algumas localidades do continente africano – pois tem seus direitos legalmente reconhecidos e podem exercer sua cidadania.

As mulheres gregas, principalmente as atenienses eram consideradas objetos que poderiam ter suas vidas dispostas da forma que seus tutores (pais, marido, etc) desejassem. A educação das meninas ficava a cargo das mulheres mais velhas da casa: mãe, avó e criadas, com quem aprendiam os trabalhos domésticos, sobretudo a cozinhar e a tecer, e frequentemente também um pouco de leitura, cálculo e música, apesar de isso não lhes ser imprescindível. Tinham, portanto, uma vida reclusa. No casamento, representavam apenas um bom negócio para a família, onde realizavam alianças. A mulher jamais poderia escolher seu marido, essa tarefa era exclusiva do pai.

 

Casal em carruagem. Ânfora ática de figuras negras com tampa atribuída a Exéquias. Data: c. 540 a.C. New York, Metropolitan Museum of Art.

Casal em carruagem. Ânfora ática de figuras negras com tampa atribuída a Exéquias. Data: c. 540 a.C. New York, Metropolitan Museum of Art.

Uma vez casada estava submetida às ordens de seu marido, que lhe dava a tarefa de administrar o lar seguindo suas orientações, desta forma não tinha autonomia para resolver nada, passava seus dias reclusa em uma sala onde podia apenas praticar atividades domesticas, como trabalhos manuais, os cuidados com os filhos e outras tarefas deste porte.

Xenofonte, um autor do século IV a.C., retrata a condição feminina no casamento em sua obra Econômico, a partir da ótica de um marido, Iscomaco, que conta a Sócrates como instruiu sua esposa para que ela pudesse cuidar dos assuntos que lhe diziam respeito, mostrando-lhe os motivos do casamento e as tarefas do marido e da mulher:

(…) eu te escolhi e teus pais me escolheram entre outros partidos. E nós cuidaremos de educar nossos filhos da melhor maneira possível, pois teremos a felicidade de encontrarmos neles os defensores e nutridores da nossa velhice. (…) Eu penso que os deuses escolheram o casal que chamamos macho e fêmea a partir de uma reflexão, e para o bem da comunidade. Em primeiro lugar os casais se unem para procriar; depois, entre os humanos, os pais, quando velhos serão alimentados pelos filhos; e como os homens não vivem ao ar livre como as animais, precisam de abrigos. E se os homens querem ter coisas para trazer para os seus abrigos, precisam fazer trabalhos ao ar livre, de onde se traz o que é necessário para a vida, a agricultura e a criação de animais. E quando as provisões chegam ao abrigo, é preciso alguém para conservá-las. Há outros trabalhos que só podem ser feitos em lugares fechados: cozinhar, tecer e educar as crianças. Ora, como essas duas funções, do interior e do exterior, exigem atividade e cuidado, os deuses tornaram a natureza da mulher própria aos trabalhos do interior, e a do homem própria para os trabalhos do exterior. (…) será necessário que fique na casa, que mande sair o grupo de empregados que tenha o que fazer fora, que supervisione o trabalho daqueles que ficam na casa, que receba as provisões que trouxerem, distribuindo as que precisarem ser consumidas e guardando as outras, cuidando para não gastar as reservas do ano em um mês. Quando trouxerem a lã, deverá cuidar para que teçam roupas para aqueles que precisam. Deverá também cuidar da conservação dos alimentos armazenados. Uma de suas ocupações, e da qual talvez não goste, será tratar dos empregados que adoecerem.”[1]

Mesmo levando uma vida tão submissa não se têm relatos de insubordinação, no que podemos concluir que o comportamento feminino, em vias gerais, era a resignação.

Dentro deste contexto, encontramos casos de mulheres que tinham autorização de seus maridos para saírem de casa, porém eram apenas nos casos das famílias menos favorecidas economicamente, que por extrema necessidade tinham que provir o sustento da família. Um exemplo típico era o da mulher do pescador, que vendia o peixe que o marido pescava.

As diferenças entre as classes sociais alteravam, modificando alguns hábitos, não tornando a vida dessas mulheres mais dignas. Elas eram desprovidas do direito à cidadania dentro de sua civilização.

Suportavam o desprezo dos seus maridos que, as utilizavam apenas para fins de procriação, não havendo uma relação afetuosa entre o casal. À mulher cabia a função de gerar filhos[2] – que iriam dar continuidade ao patrimônio, fariam a manutenção do culto doméstico, protegeriam os pais na velhice e dariam continuidade à ordem cívica e ao equilíbrio entre o espaço público e espaço privado, fatores essenciais para a manutenção da sociedade grega.[3] 

 


[1] XENOFONTE. Econômico. VII, 4-39, pp. 364-369.

[2] O nascimento de uma filha não atendia aos interesses do casamento. Portanto o filho era esperado, desejado e necessário.

[3] THEML, Neyde. O Público e o Privado na Grécia do VIIIº ao IVº século a.C: o Modelo Ateniense. Rio de Janeiro. Sette Letras, 1998, p. 88. 

Perfil Histórico – Amenhotep II, faraó do Egito

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, Perfil Histórico com as tags , em 7 07UTC Outubro 07UTC 2009 por Prof. Márcio Sant'Anna

 

Akheperura – “Grandes são as manifestações de Rá”

Akheperura – “Grandes são as manifestações de Rá”

Amenhotep heqawaset – “Amon está satisfeito, governante de Tebas”

Amenhotep heqawaset – “Amon está satisfeito, governante de Tebas”

Amenhotep II governou o Egito entre 1436-1401 a.C., aproximadamente e entrou para a cronologia dos reis egípcios com a alcunha de “faraó atleta”. Este rei, filho do grande Tutmés III – governante que expandiu as fronteiras do império egípcio até seu ponto máximo através de diversas expansões militares chegando às margens do rio Eufrates na Mesopotâmia – e cujo nome de nascimento significa “Amon está satisfeito” foi criado para ser um guerreiro, seguindo o exemplo deixado pelo pai.

Uma de suas imagens mais famosas (fig.1) o mostra sobre seu carro de combate puxado por cavalos, com as rédeas atadas a sua cintura e apontando com o arco. Os hieróglifos da imagem descrevem como Amenhotep II era capaz de fazer suas flechas atravessarem pequenos orificios abertos em uma placa de metal, demonstrando sua destreza no manejo do arco. Outros relevos e estelas elaborados durante seu reinado também enaltecem suas proezas atléticas e guerreiras.

Relevo do templo de Karnak onde aparece o faraó Amenhotep II sobre seu carro de guerra manejando o arco. À direita a placa de metal atravessada pelas flechas do rei.

Relevo do templo de Karnak onde aparece o faraó Amenhotep II sobre seu carro de guerra manejando o arco. À direita a placa de metal atravessada pelas flechas do rei.

Entretanto, Amenhotep II teve poucas oportunidades para exercitar suas habilidades guerreiras contra exércitos estrangeiros pois seu pai já havia deixado, ao morrer, os domínios egípcios bem estabelecidos e as fronteiras guarnecidas. A mais importante destas oportunidades foi também aquela que serviria para deixá-lo famoso por atos de crueldade até então não praticados por nenhum faraó.

Os príncipes da Síria, região que nesta época era tributária do Estado egípcio, ao saberem da morte de Tutmés III se recusaram a honrar seus compromissos com o novo faraó, que assumira o nome de trono Akheperura – “Grandes são as manifestações de Rá”. Amenhotep II partiu então para sufocar a rebelião liderando o exército pessoalmente e capturou, de acordo com as inscrições que nos chegaram da época, oitenta prisioneiros e sessenta cavalos. Ao retornar a Tebas, o faraó ordenou que sete príncipes sírios que estavam entre os rebeldes fossem amarrados à proa de seu barco, outros seis foram sacrificados no altar do deus Amon e um foi enforcado nos muros da fortaleza de Nápata, na fronteira do Egito com a Núbia.

Amenhotep II oferecendo vinho aos deuses. Museu egípcio do Cairo.

Amenhotep II oferecendo vinho aos deuses. Museu egípcio do Cairo.

Nenhum outro Estado ousou se levantar novamente contra o Egito durante seu governo. Os próprios mitanos, inimigos tradicionais dos egípcios que habitavam a região entre o Eufrates e o Khabur, neste momento desfrutaram de uma certa amizade com estes últimos conforme outra inscrição realizada durante o governo de Amenhotep II. Os núbios também foram pacificados através da diplomacia que parece ter sido muito efetiva, ao lado da espada.

Amenhotep II realizou também muitas construções como acréscimos ao templo de Amon em Karnak, a construção do templo de Kalabasha na região de Assuã e de outros monumentos com seu nome desde o Delta até a Núbia.

Ao morrer, foi sucedido por seu filho Tutmés IV e sepultado em um túmulo luxuoso, o mais profundo escavado no Vale dos Reis (recebeu dos arqueólogos o número 35), onde sua múmia permaneceu até ser encontrada pelos arqueólogos em 1898 e levada para o Museu do Cairo no ínicio do século XX. Dos soberanos que construíram seus túmulos no Vale dos Reis somente Amenhotep II e Tutankhamon obtiveram tal favor da sorte.

No túmulo de Amenhotep II também foram encontradas as múmias de outros faraós egípcios, transferidas para lá pelos antigos sacerdotes após terem suas tumbas profanadas no decorrer dos anos, como Tutmés IV, Amenhotep III, Merenptah, Seti II, Siptah, Sethnakht, Ramsés IV, Ramsés V e Ramsés VI.

 

Referências Bibliográficas:

JACQ, Christian. O Egito dos grandes faraós. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
JOHNSON, Paul. História ilustrada do Egito antigo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.
MELLA, Federico A. Arborio. O Egito dos faraós: história, civilização, cultura. São Paulo: Hemus, 1998.