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A historiografia judaica segundo Arnaldo Momigliano

22 jun

 

Arnaldo Momigliano nascido na Itália em 1908 foi professor de história romana na Universidade de Turim em 1936. Mas por causa da perseguição racial de Mussolini foi expulso em 1939. Domiciliou-se em Londres onde foi professor de história antiga nas universidades de Oxford e College London. Momigliano é conceituado hoje como um dos mais importantes historiadores de história antiga.

O fato de sido um judeu exilado, acabou por corroborar para a integibilidade de sua obra, ampliando sua visão quanto à intensidade e volume nas transformações provocadas pelos acontecimentos, assim como também sua linguagem tornou-se mais clara e de fácil tradução expandindo seu conhecimento intelectual. Revelando uma influência positiva da diáspora em sua produção acadêmica.

Momigliano apresentou o historiador como um contínuo inventariante, compactuando da historiografia tucidiana[1], o historiador deve buscar a compreensão das transformações, para isso necessita esmiuçar, perscrutar, dentro de uma composição analógica Não apenas verificando de forma simplista as causas dos eventos. Portanto a função básica do historiador para Momigliano era construir um apanhado geral sem descuidar das especificidades dos fatos, sustentado sempre num referencial que sirva de modelo as propensas constatações.

O Professor Doutor Vicente Dobroruka[2] que vem se dedicando a estudos do judaísmo e do mundo helenístico na Universidade de Brasília, conceitua Momigliano, como o maior sintetizador nos estudos de intensidade da helenização no Oriente.

Segundo Momigliano os judeus escreveram uma história, visando reclamar seus direitos e explicitando as sofridas injustiças, já que durante a antiguidade estiveram sempre sobre diversas dominações estrangeiras. As conquistas de Alexandre, inclusive sobre a Judéia, embora muito provavelmente ele nunca tenha estado na Judéia propiciou a entrada ampla do helenismo, ainda mais forte sobre domínio dos Ptolomeus[3], após a morte de Alexandre. No entanto as relações comerciais de gregos e judeus decorriam na preponderância grega.

Momigliano lembra que Flávio Josefo, historiador judeu contemporâneo ao segundo templo no século I d.C. tinha por hábito utilizar documentos de historiadores antecessores, como Túcidides que fez uso de arquivos. O que não exime da aparição de originalidades nos respectivos trabalhos conceituais, assim como relata a capacidade de organização de Josefo nos registros públicos, embora o historiador do primeiro século desconhecesse a metodologia utilizada pelos gregos para este fim.

A constante preocupação judaica era em escrever a história num contexto amplo, uma história que insiste na descrição desde a criação do mundo, e que permeia os feitos de Javé em prol dos hebreus, decorre portanto na marca do interesse nos registros históricos judaicos no relacionamento de Javé com a nação hebraica. E que por associação da história hebréia estava diretamente relacionada aos aspectos doutrinários religiosos, o princípio era a transmissão verdadeira de todos esses acontecimentos conforme relata Momigliano “A lembrança do passado é uma obrigação religiosa do judeu que era desconhecida para os gregos. Conseqüentemente, a confiabilidade em termos judeus coincide com a veracidade dos transmissores e com a verdade última do deus em que acreditam os transmissores”. (2004, p. 40)

A história tinha para os judeus uma conotação religiosa de identificação da nação hebréia, mas a recusa no empenho de uma pesquisa histórica consistente aliada a uma total desmotivação oriunda do próprio padrão de desdobramento do judaísmo, inserindo como seu objeto principal de registro histórico, o divino, como atesta Momigliano: “… todo desenvolvimento do judaísmo conduziu a algo que não era histórico, que era eterno, a Lei, a Torá” (2004, p.44). Logo a história foi destituída, por não mais interpretar os acontecimentos, essa função passou a ser concebida teologicamente. Todo conhecimento advinha da Torá e dos profetas.

O próprio Flávio Josefo, conforme Momigliano não escrevia para judeus, seu público alvo era os gentios. Onde ele poderia apresentar a história judaica de forma a nobilitar a grandeza da memória hebréia, possivelmente numa tentativa de fortalecer e restaurar seu elo particular com o judaísmo, já que Josefo foi desconsiderado na Judéia, se domiciliando em Roma, que detinha a tutela de sua terra natal, destruindo Jerusalém e o segundo templo. Entretanto não se pode negar a importância dos registros de Josefo, que em sua grande maioria utilizava a língua grega. Seus relatos em grande parte constituem fontes de pesquisas primordiais sobre a Judéia e o judaísmo. Servindo até de respaldo a história eclesiástica.

Portanto, fica claro que a ausência da historicidade determinou o desaparecimento da historiografia judaica no século II d.C., que só retornou catorze séculos depois. Embora o judaísmo tenha sofrido o impacto do helenismo em todos os seus segmentos, a historiografia judaica não seguiu o modelo da historiografia grega. Como afirma Momigliano: “O judeu culto era tradicionalmente um comentador de textos sagrados e não um historiador” (2004, p. 49)

A historiografia judaica que se iniciou enfatizando a história com centro da vida judaica, e ganhou impacto com o historiador Flávio Josefo, perdeu-se em sua ânsia pela busca da verdade religiosa. A fé judaica foi eficaz para transpor o helenismo e toda dominação que sofreu, até nas destruições, e exílios manteve-se graças a sua obstinada crença. Entretanto historicamente entrou em um paradoxo, sua doutrina religiosa bastava para explicar os acontecimentos, desprestigiando a pesquisa histórica que não encontrava fontes para se estabelecer. Desencadeando a inexistência da historiografia judaica por catorze séculos.

[1] Tucídides (460 – 400 a.C.) Historiador que implantou na história uma utilidade oriunda da investigação, da pesquisa histórica

[2]  Vicente Dobroruka professor da Universidade de Brasília fez doutorado em teologia e mestrado em Estudos Orientais e História Social da Cultura

[3] Ptolomeus dinastia que dominou o Egito e a Palestina após a morte de Alexandre o grande.

Referência Bibliográfica:

MOMIGLIANO, Arnaldo. As raízes clássicas da historiografia moderna. São Paulo: EDUSC, 2004.

MOMIGLIANO, Arnaldo. Os Limites da Helenização. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.

 

 

 

 


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Uma resposta para “A historiografia judaica segundo Arnaldo Momigliano

  1. Wholesale Judaica

    11/07/2010 at 4:07 AM

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