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OS PRIMEIROS HABITANTES DO BRASIL: OS SAMBAQUIEIROS

21 ago

Autor: José Lúcio Nascimento Júnior

Ao falar em Arqueologia brasileira um tema que aparece sempre em nossa mente é o Sambaqui. A primeira questão a ser resolvida é definir o que entendemos por sambaquis.  Definimo-los como um tipo de sítio arqueológico formado pela ocupação de um local por gerações de autóctones antes da chegada dos conquistadores europeus as terras sul-americanas. “Os sítios são caracterizados basicamente por serem uma elevação de forma arredondada que, em algumas regiões do Brasil, chega a ter mais de 30 metros de altura. São construídos basicamente com restos faunísticos como conchas, ossos de peixes e mamíferos” (GASPAR: 2004, 09).

Para mais bem compreendermos a definição acima, Eduardo G. Neves nos apresenta uma forma de compreender o que é um sítio arqueológico. “Um sítio arqueológico é o resultado de uma ou mais intervenções em um determinado espaço por uma população no passado” (NEVES: 1998, 173).

Nos sambaquis as escavações se dão através da demarcação do território para a pesquisa. Após este procedimento inicia-se com pequenas demarcações, de 1m x 1m, para que se iniciem as escavações propriamente dita. A estratigrafia entra em questão para melhor analisar as camadas formadoras deste sítio. Nestas camadas podem ser encontrados vários vestígios de utilização do local. Em sambaqui, de uma maneira geral, encontramos marcas de fogueiras, de habitações, restos de alimento e dezenas de sepultamentos. Encontramos, ainda, muitos dos instrumentos que os grupos utilizavam em suas atividades, como pontas projéteis em osso, lâminas de machado, quebra-coquinhos, entre outros objetos. A partir do encontrado inicia-se o processo de análise e interpretação dos vestígios encontrados numa tentativa de se reconstruir o passado (o contexto sócio-cultural) dos habitantes destes locais.

A partir da cultura material (“os objetos encontrados”) encontrada e dos níveis escavados é que se torna possível estabelecer, aproximadamente, alguma datação acerca daquele sítio arqueológico. Quanto à cultura material, sua compreensão torna-se mais facilitada ao analisarmos a localização do sítio, para, a partir daí, entender a predominância de alguns artefatos e não outros.

Se prestarmos a atenção perceberemos que estes sítios se situam em zonas de transição de ambiente natural, como, por exemplo, o caso do Sambaqui encontrado em Saquarema que a principio localizava-se entre um mangue e o oceano. A explicação para tal fenômeno encontra-se na alimentação dos sambaquieiros. Estes eram caçadores e pescadores, necessitando de um ambiente que lhe propicie uma alimentação diversificada.

No Brasileiro predomina os sambaquis em regiões litorâneas, como caso do Rio de Janeiro, Santa Catarina e outros. Porém “há também sambaqui no litoral do Pará e sambaquis fluviais, como por exemplo no vale médio do rio Ribeira de Iguape (SP) e nos baixos cursos do Xingu e Amazonas (PA)” (NEVES: 1998:181), assim como encontramos sambaqui em Duque de Caxias.

Por se tratar de uma contextualização geral do tema proposto para abarcar a localização e a datação de alguns sambaquis do Brasil segue-se um quadro expositivo com sambaquis e suas respectivas datações.

Sítio Estado Data maisantiga Data maisrecente diferença
Piaçaguera

SP

4930

4890

40

Morrote

SC

2051

1951

100

Garopaba do Sul

SC

2816

2681

135

Moa

RJ

3960

3610

350

Ilha da Boa Vista I

RJ

3480

3110

370

Pontinha

RJ

2270

1790

480

Saquarema

PR

4430

3905

525

Ponta das Almas

SC

4289

3620

669

Espinheiros – I

SC

2920

2220

700

Beirada

RJ

4520

3800

720

Saquarema

RJ

3280

2550

730

Carmiça – IA

SC

3400

2460

940

Carmiça – I

SC

3350

2400

950

Jabuticabeira – II

SC

2856

1771

1085

Zé Espinho

RJ

2260

1180

1180

Corondó

RJ

4260

3010

1250

Porto Maurício

PR

6030

4540

1490

Ilha da Boa Vista

RJ

3670

2060

1610

Macedo

 

4970

3271

1699

Espinheiros

SC

2970

1160

1810

Godo

PR

4790

2980

1810

I. Boa Vista – IV

RJ

3740

1920

1820

Forte

RJ

4330

2240

2090

Caieira

RJ

3370

710

2660

Cambinhas

RJ

4475

1410

3065

Malhada

RJ

4020

710

3310

Forte M. Luz

SC

4290

620

3670

Tabela adaptada de MaDu Gaspar: 2004.

A partir das datações apresentadas na tabela uma duvida pode surgir, os habitantes dos sambaquis foram povos nômades ou sedentários. Existam várias hipóteses para explicar esta questão. MaDu Gaspar trabalha com a hipótese de os samquieiros terem sido sedentários. Para ela, os samquieiros sendo nômades não conseguiriam construir um local tão complexo e em tão pouco tempo como o sambaqui. Analisando os vestígios encontrados considera-os sedentários, sendo pescadores e coletores que detinham algum conhecimento de construção de embarcações e utensílios de caça.

Esta autora dá ao sambaqui tripla função: a de moradia, de cemitério e atividades do cotidiano. Para ela, como para inúmeros autores, os sambaquis não existiam isolados, eles mantinham uma rede de relações com outros sambaquis e moradores de outras regiões do continente. Existiam em dado momento relações de troca com ceramistas do interior, já que os sambaquieiros não conheciam a técnica de produção de cerâmica. A partir da era cristã, em um segundo momento, estes ceramistas passaram a se transferir para o litoral, acabando por colonizar a região litorânea. “Considerando as características dos grupos que estavam na costa brasileira quando os europeus chegaram, os sambaquieiros devem ter sido incorporados ou eliminados” (GASPAR: 2004,68).

Outra vertente trabalha com a hipótese dos sambaquieiros serem nômades. Para chegar a tal conclusão ela vai analisar os restos faunísticos que podem ser atribuídos à dieta alimentar para estabelecer o fato dos sambaquieiros serem nômades. Estes autores atribuem ao sambaqui à função de cemitério, por isso a quantidade de enterramentos, e de depósito de resto de moluscos e alimentação, explicando a quantidade de material faunístico encontrado.

Além destas duas explicações mais recentes, outras já foram dadas para explicar este fenômeno. Angyone Costa, em seu livro Introdução a arqueologia brasileira, definiu sambaquis como “monumentos arqueológicos brasileiros”. Por monumentos arqueológicos?

Em um primeiro momento os sambaquis foram tratados como monumentos por seu tamanho (alguns chegando a mais de trinta metros de altura) e sua contribuição para melhor se conhecer o passado dos habitantes. Em sua época os estudos arqueológicos nacional ainda eram realizados, em grande parte, por especialistas estrangeiros. Faltavam “profissionais” para as pesquisas na área [como ainda faltam atualmente], daí não se tratava os mesmos com olhar necessário para compreender a complexidade que os mesmos traziam. Tal fato se torna latente ao observamos as primeiras definições para sambaqui, estes eram vistos como “a lixeira dos povos antigos”. Este autor dedica poucas páginas do seu livro para tratar de sambaquis, mas reconhece que “o primeiro elemento encontrado nos sambaquis é a ostra” (Costa: 1980, 62).

Tratando como monumento formado, essencialmente, por ostras este autor vai sintetizar as correntes que explicaram, primeiramente, a formação destes sítios: a primeira corrente ele denomina como “corrente naturalista”. Estes arqueólogos explicam a formação dos sambaquis como natural e “vêem nos sambaquis o recuo estático do mar, determinado pelo afastamento do oceano, a ação eólia exercida sobre as conchas lançadas na praia” (Costa: 1980, 62).

Outra corrente é a “artificialista”. Para estes, os sambaquis são prova de uma antiga existência de civilizações antes de 1500. Apresentam a ação humana como única na formação destes sítios, não observando a contribuição da natureza.

Para finalizar, Angyone traz a terceira e ultima corrente, a mista que trabalha na combinação dos dois fatores: ação humana e influência da natureza. “Se afiguram verdadeiros depósitos de cascas e moluscos, podendo ter artefatos líticos, detritos e ossos humanos, material, em suma, representativo da ação simultânea dos homens e do mar” (Costa: 1980, 66). Esta vertente é que tem suas idéias mais aceitas atualmente e que motiva novos debates acerca de sambaquis. O importante notar é que mesmo passando mais de sessenta anos sua definição ainda se presta a contextualizar o referido assunto.

Não se pode falar que as definições dadas por Costa estão ultrapassadas, já que MaDu Gaspar também a utiliza em seu livro. Porém ela trata à corrente artificialista a partir de duas vertentes distintas: “A primeira considera os sambaquis devido à grande quantidade de retos faunísticos que os compõem, são o resultado da acumulação casual dos restos de cozinha. A outra, em decorrência da presença de muitos sepultamentos, supõe que são monumentos funerários” (Gaspar: 2004, 13). Como percebemos as hipóteses explicativas são varias e leva-nos a pensar sambaqui através de vários olhares. Todas estas buscam explicar o surgimento e como foi habitado tal sítio, porém elas nos deixam margens para aumentar nosso conhecimento sobre os mesmos.

Qual será o significado da palavra sambaqui, poderia perguntar qual quer pessoa após ter um primeiro contato com o assunto. Para MaDu Gaspar sambaqui provém do Tupi e “Tamba significa conchas e ki amontoado, que são características mais marcantes desse tipo de sítio” (Gaspar: 2004, 9). A partir daí podemos entendê-lo como amontoado de conchas cujos vários significados são atribuídos através das pesquisas realizadas.

Em suma, a análise dos sambaquis nos remete há conhecer um pouco mais acerca dos primeiros moradores do continente, reconhecendo sua complexidade nos registros por eles deixados. A Arqueologia apresenta-se então como uma ciência de grande relevância no estudo do passado, uma que contribui junto com a História, a Antropologia e outras áreas do saber a melhor conhecermos como eram as sociedades há tempos atrás.

 

Bibliografia:

COSTA, Angyone. Introdução à arqueologia brasileira. 4º ed. SP: Nacional, 1980.

GASPAR, MaDu. Sambaqui: uma arqueologia do litoral brasileiro. RJ: JZE, 2004.

NEVES, Eduardo G. Os Índios antes de Cabral. in.: LOPES DA SILVA, Aracy & GRUPIONE, Luis D. A temática indígena na sala de aula. SP: Global, 1998.

Pesquisador convidado: Professor José Lúcio Nascimento Júnior

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3 Respostas para “OS PRIMEIROS HABITANTES DO BRASIL: OS SAMBAQUIEIROS

  1. Taiane Morais

    15/04/2011 at 2:40 PM

    Olá.Primeiramente,obrigada pela sua contribuição em relação ao “sambaqui”.EStou resolvendo uma questão e nesta há duas alternativas,denteas cinco,indagando se os sambaquis fora sedentários ou nômades.Pelo que entendi em seu texto,há duas considerações.Porém continuo cm problema em responder a questão.,já que tenho que escolher apenas uma alternativa.

    Grata,Taiane F. M. Rubem.

     
  2. leticia

    03/04/2011 at 7:41 PM

    eu queria sabre que foi o primeiro habitante do brasil”indios”

     
  3. Lupercina Rocha Conte

    04/07/2010 at 5:06 PM

    Pretendo elaborar trabalho científico sobre as causas de extermínio dos indios no Brasil, no período compreendido entre os séculos XVI e o XVIII. O artigo sobre os sambaquis me ajudou muito a entender mais de cultura índia e a sua localização no litoral. Para a ocupação deste espaço não há quase registros históricos, daí a dificuldade de se conhecer exatamente ou relativamente as populações indígenas que ocuparam o litoral brasileiro.

     

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