Candaces (G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro, 2007)
Autores: Dudu Botelho, Marcelo Motta, Zé Paulo e Luiz Pião
Majestosa África
Berço dos meus ancestrais
Reflete no espelho da vida
A saga das negras e seus ideais
Mães feiticeiras, donas do destino…
Senhoras do ventre do mundo
Raiz da criação
Do mito a história
Encanto e beleza
Seduzindo a realeza
Candaces mulheres, guerreiras
Na luta… Justiça e liberdade (bis)
Rainhas soberanas
Florescendo pra eternidade
Novo mundo, novos tempos
O suor da escravidão
A bravura persistiu
Aportaram em nosso chão
Na Bahia… Alforria
Nas feiras tradição
Mães de santo, mães do samba
Pedem proteção
E nesse canto de fé
Salgueiro traz o axé
E faz a louvação
Odoyá Iemanjá, Saluba Nanã
Eparrei Oyá (bis)
Orayê Yêo, Oxum
Oba Xi Obá
Em 2007 o Salgueiro trouxe para o Carnaval a figura de mulheres que na antiguidade foram governantes, guerreiras, sacerdotisas, fortes no seu jeito de ser e principalmente, provedoras da vida. O enredo falava das Candaces, dinastia de rainhas da África Oriental que comandaram, antes do início da era cristã, um dos mais prósperos impérios localizados naquele continente.
O enredo inicia evocando duas rainhas na antiguidade que comandaram seus povos e seriam ancestrais das Candaces. A primeira seria a Mekeda, a rainha de Sabá, que comandava uma sociedade matrilinear próspera na qual o poder era passado aos descendestes através da via feminina. Exuberante rainha negra, ela teria se encantado com a fama, riqueza e sabedoria de Salomão, rei dos judeus e partiu para Jerusalém a fim de encontrá-lo com uma caravana que levava grandes quantidades de perfumes, ouro e pedras preciosas. O encontro dos dois é lembrado até os dias de hoje pela rainha ter cativado um dos maiores soberanos da época com sua beleza, inteligência e diplomacia.
A segunda antepassada das Candaces apresentada pelo enredo é Nefertiti, rainha egípcia que é considerada até hoje referência de beleza. Junto com seu esposo, o faraó Akhenaton, ela implementou reformas culturais e religiosas no Egito, como o culto a Aton, o círculo solar, e foi imortalizada como uma deusa em vida nas paredes dos templos do período.
A partir destas duas soberanas, o enredo trata especificamente das Candaces, soberanas do reino de Meroé, ao sul do Egito, banhado pelo rio Nilo. Reinavam por direito próprio e não na qualidade de consortes. Em uma terra de fartura, abençoada pelo grande rio, realizavam intenso comércio com hebreus, assírios, gregos e indianos. Ergueram pirâmides e fortalezas e ainda tinham à sua disposição metais e pedras preciosas. Seus exércitos usavam armas de ferro e cavalaria, ferramentas e habilidades herdadas dos núbios, que lhes davam vantagem no campo de batalha.
A prosperidade da região atraiu a atenção da maior força bélica existente na época: o Império Romano. Entretanto, as Candaces uniram seu povo e enfrentaram o grande exército invasor utilizando técnicas de guerrilha e diplomacia. Após a invasão do general romano Petronius ao seu território, a rainha Candace esperou que as tropas inimigas dormissem e ordenou um ataque surpresa. Este movimento permitiu que fosse aberta a possibilidade de negociação diplomática com os romanos, nos termos ofertados pela rainha. O território de Meroé foi demarcado e os soldados romanos retiraram-se.

Salgueiro 2007: as Candaces na avenida.
As descendentes destas poderosas rainhas posteriormente foram escravizadas pelos europeus e se viram obrigadas a realizar trabalhos forçados nas terras do chamado Novo Mundo. Entretanto, inspiradas pelas suas gloriosas antepassadas não deixaram esmorecer a sua força e a busca pela liberdade. Para elas, ser livre era também reverenciar seus costumes, reviver o passado soberano, encenar a memória dos seus antepassados. Em folguedos, foram eternizadas na glória real da corte negra. No novo continente, houve o despertar para o misticismo trazido do outro lado do Atlântico. A construção da identidade africana no Brasil encontrou em celebrações e ritos toda uma reverência à mulher como mediadora entre os deuses e a humanidade.
Na Bahia, as negras de ganho vendiam a produção em feiras e mercados e poupavam para comprar suas alforrias e a dos maridos, tornando-as mulheres com voz ativa. No chão brasileiro, era revivida a tradição das feiras iorubanas, um espaço não só para trocas de mercadorias, mas também para trocas simbólicas. A mulher concentrava o poder de fechar negócios, disseminar notícias, modas, receitas, músicas, e, sobretudo, aconselhar.
Rainhas, escravas, apreciadas, depreciadas, mas antes de tudo mulheres. Tiveram suprimido o poder real que possuíam na África, mas passaram a exercer o poder espiritual por aqui e tornaram-se as defensoras da tradição e dos costumes advindos da antiguidade.





















