Antiguidade dá samba II

Postado em ARTES, CULTURA E SOCIEDADE, CURSOS & EVENTOS, HISTÓRIA ANTIGA com as tags em 9 09UTC fevereiro 09UTC 2010 por Prof. Márcio Sant'Anna
Candaces (G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro, 2007)
Autores: Dudu Botelho, Marcelo Motta, Zé Paulo e Luiz Pião

Majestosa África
Berço dos meus ancestrais
Reflete no espelho da vida
A saga das negras e seus ideais
Mães feiticeiras, donas do destino…
Senhoras do ventre do mundo
Raiz da criação
Do mito a história
Encanto e beleza
Seduzindo a realeza

Candaces mulheres, guerreiras
Na luta… Justiça e liberdade (bis)
Rainhas soberanas
Florescendo pra eternidade

Novo mundo, novos tempos
O suor da escravidão
A bravura persistiu
Aportaram em nosso chão
Na Bahia… Alforria
Nas feiras tradição
Mães de santo, mães do samba
Pedem proteção
E nesse canto de fé
Salgueiro traz o axé
E faz a louvação

Odoyá Iemanjá, Saluba Nanã
Eparrei Oyá (bis)
Orayê Yêo, Oxum
Oba Xi Obá

Em 2007 o Salgueiro trouxe para o Carnaval a figura de mulheres que na antiguidade foram governantes, guerreiras, sacerdotisas, fortes no seu jeito de ser e principalmente, provedoras da vida. O enredo falava das Candaces, dinastia de rainhas da África Oriental que comandaram, antes do início da era cristã, um dos mais prósperos impérios localizados naquele continente.

O enredo inicia evocando duas rainhas na antiguidade que comandaram seus povos e seriam ancestrais das Candaces. A primeira seria a Mekeda, a rainha de Sabá, que comandava uma sociedade matrilinear próspera na qual o poder era passado aos descendestes através da via feminina. Exuberante rainha negra, ela teria se encantado com a fama, riqueza e sabedoria de Salomão, rei dos judeus e partiu para Jerusalém a fim de encontrá-lo com uma caravana que levava grandes quantidades de perfumes, ouro e pedras preciosas. O encontro dos dois é lembrado até os dias de hoje pela rainha ter cativado um dos maiores soberanos da época com sua beleza, inteligência e diplomacia.

A segunda antepassada das Candaces apresentada pelo enredo é Nefertiti, rainha egípcia que é considerada até hoje referência de beleza. Junto com seu esposo, o faraó Akhenaton, ela implementou reformas culturais e religiosas no Egito, como o culto a Aton, o círculo solar, e foi imortalizada como uma deusa em vida nas paredes dos templos do período.

A partir destas duas soberanas, o enredo trata especificamente das Candaces, soberanas do reino de Meroé, ao sul do Egito, banhado pelo rio Nilo. Reinavam por direito próprio e não na qualidade de consortes. Em uma terra de fartura, abençoada pelo grande rio, realizavam intenso comércio com hebreus, assírios, gregos e indianos. Ergueram pirâmides e fortalezas e ainda tinham à sua disposição metais e pedras preciosas. Seus exércitos usavam armas de ferro e cavalaria, ferramentas e habilidades herdadas dos núbios, que lhes davam vantagem no campo de batalha.

A prosperidade da região atraiu a atenção da maior força bélica existente na época: o Império Romano. Entretanto, as Candaces uniram seu povo e enfrentaram o grande exército invasor utilizando técnicas de guerrilha e diplomacia. Após a invasão do general romano Petronius ao seu território, a rainha Candace esperou que as tropas inimigas dormissem e ordenou um ataque surpresa. Este movimento permitiu que fosse aberta a possibilidade de negociação diplomática com os romanos, nos termos ofertados pela rainha. O território de Meroé foi demarcado e os soldados romanos retiraram-se.

Salgueiro 2007: as Candaces na avenida.

As descendentes destas poderosas rainhas posteriormente foram escravizadas pelos europeus e se viram obrigadas a realizar trabalhos forçados nas terras do chamado Novo Mundo. Entretanto, inspiradas pelas suas gloriosas antepassadas não deixaram esmorecer a sua força e a busca pela liberdade. Para elas, ser livre era também reverenciar seus costumes, reviver o passado soberano, encenar a memória dos seus antepassados. Em folguedos, foram eternizadas na glória real da corte negra. No novo continente, houve o despertar para o misticismo trazido do outro lado do Atlântico. A construção da identidade africana no Brasil encontrou em celebrações e ritos toda uma reverência à mulher como mediadora entre os deuses e a humanidade.

Na Bahia, as negras de ganho vendiam a produção em feiras e mercados e poupavam para comprar suas alforrias e a dos maridos, tornando-as mulheres com voz ativa. No chão brasileiro, era revivida a tradição das feiras iorubanas, um espaço não só para trocas de mercadorias, mas também para trocas simbólicas. A mulher concentrava o poder de fechar negócios, disseminar notícias, modas, receitas, músicas, e, sobretudo, aconselhar.

Rainhas, escravas, apreciadas, depreciadas, mas antes de tudo mulheres. Tiveram suprimido o poder real que possuíam na África, mas passaram a exercer o poder espiritual por aqui e tornaram-se as defensoras da tradição e dos costumes advindos da antiguidade.

 

Antiguidade dá samba

Postado em ARTES, CULTURA E SOCIEDADE, CURSOS & EVENTOS, HISTÓRIA ANTIGA com as tags em 8 08UTC fevereiro 08UTC 2010 por Prof. Márcio Sant'Anna

Nesta semana pré-Carnaval postaremos no blog cinco sambas-enredo que foram defendidos por agremiações do Rio de Janeiro nos desfiles do Grupo Especial em anos anteriores e que possuem uma característica em comum: todos têm uma relação direta com temas ligados à antiguidade.

Desta forma procuramos demonstrar como uma das mais conhecidas manifestações culturais da atualidade constantemente busca inspiração nestes temas, que para muitos parecem tão distantes de nós, para engrandecer ainda mais este espetáculo tão rico de cores, sons e emoções que é o Carnaval do Rio de Janeiro.

Acompanhem-nos nesta semana quando a festa de Momo está prestes a começar e divirtam-se.

A seiva da vida
(G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira, 2001)
Autores: Marcelo D’Aguiã, Gilson Bernini e Bizuca Clovis Pê 

NOS MARES DA POESIA, NAVEGUEI
CRUZANDO AS FRONTEIRAS DO TEMPO
EU APORTEI… NAS TERRAS DE CANAÃ
O POVO FENÍCIO ENCONTREI
DO CEDRO, CONSTRUÍAM AS EMBARCAÇÕES
BANHANDO COM SABEDORIA,
OUTRAS CIVILIZAÇÕES
E A EXPANSÃO COMERCIAL
GEROU O INTERCÂMBIO CULTURAL
MISTÉRIO! A SEIVA DA VIDA
CHEGA AO PAÍS DO CARNAVAL

É PROMETIDA, ESTA TERRA!
ABENÇOADO NOSSO CHÃO
ONDE A SEMENTE DA PAZ É VERDE E ROSA
E BROTA NO MEU CORAÇÃO

DA ARTE ASSÍRIA, A INSPIRAÇÃO
O REI MANDOU CONSTRUIR
O MONUMENTO AO AMOR
E A RAINHA NEGRA OFERTOU
TEM MASCATES, TROCA-TROCA, GRITARIA
A DANÇA DO VENTRE ATÉ HOJE CONTAGIA
VOU PRO SAARA COMPRAR, NO DIA-A-DIA
DESCENDO O MORRO
VOU VENDENDO ALEGRIA

EU SOU A ESSÊNCIA DO SAMBA,
A MINHA RAÍZ É DE BAMBA
SOU MANGUEIRA
O TRONCO FORTE QUE DÁ FRUTO
A VIDA INTEIRA

Este samba-enredo, defendido pela Mangueira no Carnaval de 2001, conta a trajetória dos  fenícios e de suas contribuições para os outros povos da antiguidade que conviveram no mesmo período. De acordo com o enredo, o povo fenício – que vivia na região do atual Líbano – fazia seus barcos utilizando o cedro, madeira leve e de bom cerne, e saía de suas terras navegando os mares para conquistar outras regiões. Através destas navegações contribuíram para espalhar o conhecimento pelas regiões por onde passavam. Inventaram um novo alfabeto que facilitava o contato entre as diversas culturas e desta forma também influenciaram a literatura.

Da Assíria, com seus monumentais templos, inspiraram-se para construir palácios majestosos, dos quais um em especial é lembrado: o que foi ofertado pelo rei Salomão à rainha de Sabá. No decorrer da letra do samba, podemos perceber outra referência importante aos hebreus no que tange ao episódio da promessa feita por Javé a este povo em relação à terra prometida de Canaã.  O Egito antigo é lembrado pela referência à dança do ventre, sensual e ritual ao mesmo tempo, esta manifestação antiga permaneceu até os dias de hoje, atravessando séculos de história.

Mangueira 2001: fenícios, comércio, dança do ventre e antiguidade unidos pelo Carnaval

Samba enredo da Mangueira, 2001 – Clique aqui para ouvir em seu player.

 

O enredo também relembra as contribuições dos fenícios para com o comércio, através de uma expansão que permitiu a abertura de vias comerciais entre o Oriente e o Ocidente por onde circulavam os mais variados produtos. E para o Brasil – que muitas vezes é visto como distante de todos os processos que se relacionam à antiguidade – a atividade comercial foi alimentada com as migrações dos povos descendentes dos antigos fenícios, assírios e hebreus: árabes, turcos, libaneses e judeus que se instalaram e tornaram-se mascates em nossas terras tropicais ao longo de nossa história.

Você sabia…

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, HISTÓRIA ANTIGA, VOCÊ SABIA... com as tags em 5 05UTC fevereiro 05UTC 2010 por Prof. Márcio Sant'Anna

Que na iconografia o faraó possuía não uma, mas quatro coroas diferentes. As coroas egípcias eram símbolos do poder dos monarcas e estavam igualmente associadas aos deuses da mitologia egípcia. A palavra egípcia para designar coroa era khau.

O soberano do Egito podia ser representado com a coroa vermelha (decheret) do Baixo Egito, com a coroa branca (hedjet) do Alto Egito, com a dupla coroa (pschent) que simbolizava a união dos dois reinos sob o poder do faraó. A quarta era a coroa azul (khepresh) utilizada pelo rei em campanhas militares (apesar de que alguns soberanos, como Akhenaton, fizeram-se representar utilizando esta coroa mesmo em períodos de paz).

A coroa vermelha e a coroa branca. Atributos das deusas Uadjit e Nekhbet do Baixo e do Alto Egito, respectivamente.

Representações do faraó com a dupla coroa e com a coroa azul.

Muitas vezes o faraó também era representado utilizando um toucado (nemes) que trazia à testa do rei a serpente sagrada Uraeus cuja finalidade era defender o monarca de seus inimigos.

Ilustração representado o faraó portando o toucado com a serpente Uraeus.

 

Referências Bibliográficas

MELLA, Federico A. Arborio. O Egito dos faraós: história, civilização, cultura. São Paulo: Hemus, 1998.

TRAUNECKER, Claude. Os deuses do Egito. Brasília: UNB, 1995.

Fique por dentro, confira!

Postado em Fique por dentro com as tags , , , , , , em 4 04UTC fevereiro 04UTC 2010 por CPA/RJ

Segundo site da ANPUH (Associação Nacional dos Professores Universitários de História), o objetivo desta quinta edição do simpósio é: “fomentar análises comparativas entre regiões e entre temáticas complementares, estudos relativos ao universo dos ex-escravos e de seus descendentes e discussões proporcionadas por diferentes enfoques, conceitos, metodologias e abordagens historiográficas, estimulando o diálogo entre os especialistas e entre eles e o público interessado. É objetivo, também, dar continuidade ao mapeamento e à divulgação de estudos, pesquisas, projetos e eventos relativos à temática, o que tem facilitado o intercâmbio entre instituições e a circulação dos pesquisadores associados ao grupo. Dentro das perspectivas de organização da área de História que vêm sendo delineadas em fóruns nacionais e internacionais, desejamos constituir uma rede de pesquisadores e de instituições que se dediquem a essa temática, que possa captar recursos, promover encontros e publicações regulares e projetos coletivos, conectando-nos com outras redes já existentes e em fase de organização no Brasil e no exterior”.

MAIS INFORMAÇÕES NO SITE: www.anpuh.org

Σαπφώ – SAFO – A POETIZA DE LESBOS…

Postado em ARTES, CULTURA E SOCIEDADE, HISTORIOGRAFIA, HISTÓRIA ANTIGA com as tags , , em 3 03UTC fevereiro 03UTC 2010 por Prof. Maurício dos Santos

Safo

Safo é considerada uma das primeiras autoras de literatura da Europa, para os que pesquisam a cultura clássica ela representa a perfeição em forma de verso.

Uma mulher que na sociedade grega, misógina, sofria de todos os preconceitos em uma época em que as mulheres não tinham acesso a este tipo de arte.

Antigo busto grego de Safo, século 5 a.C.

A grande poetisa nasceu na ilha de Lesbos por volta do VII século a.C., exercia seu papel de esposa e de mãe, como era de se esperar de uma mulher das polis helenas, contudo encontrava tempo para criar nove volumes dedicado a poesia lírica que foram reunidos posteriormente na biblioteca de Alexandria.

Sua fama como poetisa transcendeu seu espaço restrito de mulher em um mundo de preconceitos chegando até nós, um de seus poemas foi encontrado em um invólucro de papiro junto a uma múmia egípcia e com isto demonstra a dimensão da propagação de suas poesias pelo mundo.

Poema de Safo encontrado junto a uma múmia egípcia

Da beleza (fr 16 PF)

Uns dizem que é uma hoste de cavalaria, outros de infantaria;

Outros dizem ser uma frota de naus, na terá negra,

A coisa mais bela: mas eu digo ser aquilo

Que se ama.

 

Muito fácil é tornar isto compreensível

A toda e qualquer pessoa: ela de longe

À raça humana sobrelevava em beleza, Helena,

O nobre marido

 

Deixou e foi a navegar até Tróia.

Nem da filha nem dos pais amados

Quis de todo saber, mas arrastou-a…

 

 

… agora de Anactória me lembrei,

embora ela esteja ausente:

 

eu queria antes ver o seu amoroso andar

e o brilho refulgente do seu rosto

do que ver os carros e a infantaria dos Lídios

com suas armas.

Safo e Alceu tela em óleo 1881

 

Outros poemas:

Quando eu te Vejo

Quando eu te vejo, penso que jamais
Hermíone foi tua semelhante;
que justo é comparar-te à loura Helena,
não a qualquer mortal;

oh eu farei à tua formosura
o sacrifício dos meus pensamentos,
todos eles, eu digo, e adorarte-ei
com tudo quanto eu sinto.

 

O Amor

O amor, esse ser invencível, doce e sublime
que desata os membros, de novo me socorre.
Ele agita meu espírito como a avalanche
sacode monte abaixo as encostas. Lutar
contra o amor é impossível, pois como uma
criança faz ao ver sua mãe, vôo para ele.
Minha alma está dividida: algo a detém aqui,
mas algo diz a ela para no amor viver…

 

As Rosas de Piéria

E morta jazerás: de ti
não restará lembrança, em tempo algum,
nem mesmo compaixão jamais despertarás:
nas rosas de Piéria não tiveste parte.

Desconhecida até na casa de Hades,
errante esvoaçarás em meio a obscuros mortos.

 

A Lua já se Pôs

A lua já se pôs,
as Plêiades também:
meia-noite; foge o tempo,
e estou deitada sozinha.


Para Mnesídice

Com as meigas mãos, ó Dice,
trança ramos de aneto,
e põe essa coroa
em teus cabelos:

fogem as Graças
de quem não tem grinalda,
mas felizes acolhem
quem se enfeita de flores.

 

Como a Doce Maçã

Como a doce maçã que rubra, muito rubra,
lá em cima, no alto do mais alto ramo
os colhedores esqueceram; não,
não esqueceram, não puderam atingir.

 

Palavras de Alceu a Safo

Ó cheia de pureza,
ó Safo coroada de violetas
que docemente ris:

eu te diria de bom grado certa coisa,
se não fosse a vergonha que me impede.

Safo e Alceu


Resposta de Safo a Alceu

Se quisesses tão só o bom e o belo,
se em tua boca más palavras não tramasses,
não haveria essa vergonha nos teus olhos
e poderias exprimir-te francamente.

 

Referências:

LOURENÇO, Frederico (org.). Poesia grega: de Álcman a Teócrito. – Lisboa: Livros Cotovia e Frederico Lourenço, 2006.

Fique por dentro

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, CURSOS & EVENTOS, Fique por dentro com as tags , em 2 02UTC fevereiro 02UTC 2010 por Prof. Elaine Herrera

O Centro Cultural Jerusalém está realizando a exposição virtual “Holocausto”. A exposição conta com fotografias e textos abordando torturas e execuções das aproximadamente 7.500.000 vítimas do genocídio nazista, além das tentativas de resistência dos perseguidos.

Esta exposição tem como objetivos lembrar este período aterrorizante da história, em virtude do dia 27 de janeiro, instituído pela ONU “Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto”. E de reflexão do mundo em que vivemos, e da história que estamos construído agora.

Clique na imagem para visitar a exposição online

Tutmés IV e a Grande Esfinge

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, HISTÓRIA ANTIGA, RELIGIÃO & MITOLOGIA com as tags , , , em 1 01UTC fevereiro 01UTC 2010 por Prof. Márcio Sant'Anna

A Grande Esfinge de Gizé, guardiã das pirâmides dos faraós Miquerinos, Quefrén e Queóps – esta última conhecida como “A Resplandecente” e a única das Sete Maravilhas do mundo antigo ainda de pé – foi construída por volta de 2500 a.C., a mando do faraó Quefrén. Entretanto sabe-se que durante o longo período da história do Egito antigo este monumento foi coberto várias vezes pelas areias do deserto. Milhares de anos depois de sua construção, por volta de 1413 a.C., ela encontrava-se coberta até o pescoço.

Foi nesta época que o jovem príncipe Tutmés, filho do faraó Amenhotep II, teve um sonho ao adormecer sob a esfinge durante uma caçada:

“Andando a caçar certo dia no deserto, sentou-se para descansar à sombra da grande Esfinge, ou ao menos daquilo que dela emergia da areia. Cansado, adormeceu e sonhou que a Esfinge lhe falava, ‘como um pai fala a um filho: Olha-me, pois, meu filho Tutmés, eu sou o teu pai Harmachis-Quéfren-Rá-Atum (…) Tu unirás a Coroa Branca e a Vermelha sobre o Trono de Geb, o Rei dos deuses (…) o meu coração está voltado para ti, porque tu deves ser o meu protetor. O meu coração está acabado e a areia do deserto me oprime; socorre-me e faze o que é o meu desejo, já que tu és o meu filho e Eu estou contigo; Eu sou o teu guia’. O príncipe desperta e coloca ‘as palavras do deus no silêncio do coração’”.

As palavras acima foram gravadas na chamada Estela do Sonho, que se ergue ainda hoje entre as patas da Esfinge, após o monumento ter sido desenterrado das areias do deserto por ordem do príncipe Tutmés quando este ascendeu ao trono com o nome de Tutmés IV, o oitavo faraó da XVIII dinastia egípcia, que governou o país de 1413 a.C. a 1405 a.C aproximadamente. E através delas pode-se deduzir que o príncipe Tutmés não estava, pelo menos a princípio, destinado ao trono do Egito.

Estátua de Tutmés IV e sua mãe, Tia, abraçados. Museu Egípcio do Cairo.

Seguindo através deste raciocínio percebemos que neste episódio apareceu uma outra forma de tentativa de legitimação do poder real pelo faraó ou por seus partidários: a própria divindade, representada pela Esfinge, interveio no mundo dos homens e escolheu o sucessor do rei, recompensando-o com o trono real. 

A Grande Esfinge de Gizé, com a Estela do Sonho, colocada a mando do faraó Tutmés IV, entre suas patas. Gizé, Egito.

A chegada de Tutmés IV ao trono foi um golpe nos poderosos sacerdotes do deus Amon, da cidade de Tebas, que estavam acumulando poder com o favorecimento dos monarcas anteriores. O novo faraó demonstrou sua preferência para com Rá, divindade solar da cidade de Heliópolis, num episódio que é considerado pelos egiptólogos como o embrião da reforma religiosa realizada anos depois pelo faraó Akhenaton[1].

Detalhe da Estela do Sonho. Gizé, Egito.

 

[1] Quando por ordem do soberano foram proibidos os cultos a quase todas as divindades egípcias, com exceção de Aton, o disco solar. Os templos foram fechados e houve uma campanha que perseguiu principalmente o culto a Amon. Esta culminou com a raspagem do nome do deus dos templos e com a mudança da capital do Egito de Tebas, cidade cujo patrono era Amon, para uma nova cidade construída ao norte, Akhetaton (“O Horizonte de Aton”).

 

Referências Bibliográficas:

JOHNSON, Paul. História ilustrada do Egito antigo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

MELLA, Federico A. Arborio. O Egito dos faraós: história, civilização, cultura. São Paulo: Hemus, 1998.

TYLDESLEY, Joyce. Chronicle of the queens of Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2006.

A Helenização: Uma visão geral das modificações sócio-políticas que levaram o Mediterrâneo do domínio comercial grego ao bélico dos romanos

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, ECONOMIA & TECNOLOGIA, HISTÓRIA ANTIGA, POLÍTICA com as tags , , , , , , , , em 29 29UTC janeiro 29UTC 2010 por CPA/RJ
Por professor e pesquisador convidado - Roger Ribeiro

Em 336 a.C., a Macedônia vê morto o seu rei, Felipe, deixando como herdeiro seu filho Alexandre, o que viria a ser conhecido como O Magno. Depois de recuperar a lealdade da Grécia, Alexandre Magno embarcou na sua grande aventura, o ataque aos Persas em 334. No rio Granico derrotou os persas e assim libertou a Ásia Menor. No seguinte ano derrotou o rei persa Dario, na batalha de Isso, dominando consecutivamente todo o seu império e iniciando um processo de interação cultural Gréco-bárbaro, que se estendeu para além de sua morte e ao estabelecimento mundial do império dos romanos. E assim Alexandre viveu de guerra em guerra, construindo e anexando cidades da Magna Grécia ao noroeste da Índia, passando pelo Egito, Judéia e Mesopotâmia, morrendo em 323 a.C., atacado por uma febre, após treze anos de conquistas[1].

Fundamentados por uma forte estrutura militar, os herdeiros de Alexandre Magno fizeram-se valer de uma monarquia forte, onde o rei era a lei viva e encarnada, o que justificava seu caráter divino. A monarquia era hereditária e o filho mais velho sucedia ao pai. O rei fazia-se rodear por uma corte cujos usos faziam lembrar simultaneamente os da monarquia macedônia e os da monarquia persa, fazendo aparecer títulos áulicos, que criam uma espécie de nobreza de resto, pessoal e não hereditária. Dentre esta nobreza surgira um conselho administrativo real, formado por ministros e delegados do rei, como os das satrápias, dos Selêucidas e os das toparquias, dos Ptolomaicos[2].

Contudo, o monarca que deveria ser zeloso, benevolente para todos e especialmente para os humildes, devendo ser filantropo e piedoso, era também chefe militar, governante absoluto e sumo pontífice de seu culto e dos deuses. Se acrescentar o culto real e a presença da efígie real nas moedas, vê-se a importância de uma época em que se instituem usos muitos dos quais serão adotados pelos imperadores de Roma ou de Bizâncio e pelos soberanos modernos[3].

Para este monarca o exército continuaria a ser o de Alexandre, isto é, o exército macedônico modificado em contato com o Oriente. A força principal, assim como no período clássico, seria ainda a falange, massa compacta, armada e coberta de ferro. A cavalaria desempenharia um papel mais importante do que na época clássica, uma inovação do combate macedônico, distinguem-se, também, corpos ligeiros na escaramuça; surgem verdadeiros couraceiros, imitando a Pérsia. As tradições orientais não são menos importantes na utilização de carros, pelos Selêucidas e na de elefantes, por todos os príncipes que os conseguem arranjar. O elefante torna-se um elemento indispensável da força helenística[4].

Não somente no campo das armas a helenização mundializou idéias, sobre tudo o idioma grego é uma forte característica desta disseminação mista de culturas. Não só os gregos absorveram os conhecimentos dos bárbaros, também estes adquiriram costumes, filosofia e deuses gregos. No entanto a influência intelectual barbara só se fazia sentir no mundo helenístico na medida em que este se expressavam em grego. Apesar disso o mundo mediterrâneo encontrava uma língua comum e a acompanhou uma literatura incomparavelmente aberta a toda sorte de problemas, discussões e emoções[5].

De acordo com Arnaldo Momigliano[6], podemos classificar como Tempo Axial o desenvolvimento progressivo e conturbado em revoluções, de várias civilizações em linhas paralelas, comumente encontrado até a idade helenística, que por sua vez, constituiu uma grande novidade. A idade helenística proporcionou a circulação internacional de idéias ao mesmo tempo, na mesma língua e de inúmeras fontes diferentes de conhecimento, embora com um impacto revolucionário reduzido. Comparada ao Tempo Axial precedente, a idade helenística é inovadora, dócil e conservadora. Visível ainda no período dos Romanos, que assimilaram o pensamento religioso e filosófico grego, mesmo levando-os para a língua latina. Formando assim, a partir do III a.C., um helenismo latino diferenciado do grego, mas que nunca pôde se separar do mesmo.

É uma característica, sem duvidas, deste período perturbado que as maiores filosofias se lancem à procura da felicidade. No entanto, esta felicidade só seria possível no desprendimento da alma, que se arranca pela violência da ascese, às perturbações do mundo. Tal como, na crise dos séculos III e IV d.C., o impulso místico do neo-platonismo prometerá ao iniciado as beatudes da evasão[7]. Surge assim um ideal moral novo, ao herói dos primeiros tempos e ao cidadão das idades clássicas, sucede o sábio. Existindo certa resignação nesta concepção, uma fuga perante o real que é preciso dominar, porque não se pode assumir. A salvação que procuram então igualmente as religiões, merece-se através da luta. O helenismo inclina-se definitivamente para o individualismo, visto que a consciência está só perante o seu destino, mas ele não desiste de reformar o fato público, especialmente com os Estóicos, grandes conselheiros dos príncipes e não esquece, sobretudo, num impulso magnífico de caridade, a fraternidade entre os homens[8].

Assim sendo, na idade helenística vemos a insurreição de novos e antigos cultos de mistérios, subjetivos no que cerne a salvação última da alma/psique. Por todo o mediterrâneo, novos cultos nascem da mescla da religiosidade mistérica grega e as crenças locais, assim é com o culto à Ísis, Magna Mater e Mitra em Roma. Das Armas ao pensamento religioso, a idade helenística se mostra inovadora e criadora, formando uma perfeita junção entre o período de domínio comercial dos Gregos e o domínio bélico Romano, sobre o Mediterrâneo.

 

[1] JONES, 1997, p. 54-55.

[2] LÉVÊQUE, 1987, P. 51-53.

[3] Ibid.

[4] Ibid, 55-58.

[5] MOMIGLIANO, 1991, P. 14-17.

[6] Ibid.

[7]LÉVÊQUE, 121-123.

[8] Ibid.

 

Bibliografia:

JONES, Peter V. O Mundo de Atenas: Uma Introdução à Cultura Clássica Ateniense. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

LÉVÊQUE, Pierre. O Mundo Helenístico. Lisboa: Edições 70, 1987.

MOMIGLIANO, Arnaldo. Os Limites da Helenização: A Interação Cultural das Civilizações Grega, Romana, Céltica, Judaica e Persa. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.

 

O Professor e Pesquisador convidado, Roger Ribeiro da Silva, tem Licenciatura Plena em História pelo Centro Universitário Augusto Motta; é Pós-graduando Lato Sensu em História Antiga e Medieval pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro e Pesquisador do Grupo de Estudos da Antiguidade do Centro Universitário Augusto Motta (GEA/UNISUAM) e do Núcleo de Estudos da Antiguidade da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (NEA/UERJ).

Shabat

Postado em CULTURA E SOCIEDADE, RELIGIÃO & MITOLOGIA com as tags , , , , em 28 28UTC janeiro 28UTC 2010 por Prof. Alessandra Dahya

Segundo a crença judaica, o shabat constitui o sétimo dia da semana, em que se celebra a fé em Deus, no seu papel pleno de criador. Após a criação do mundo em seis dias, Ele descansou e nos dias de hoje, pede o mesmo de Seu povo.

A proposta do shabat dentro da crença judaica é de descanso, distanciamento e afastamento das tarefas cotidianas. Um momento de maior proximidade com a fé e consigo mesmo.

Só são executadas no shabat as tarefas voltadas para o próprio shabat. São elas:

Nerot: as velas de sexta-feira à noite

Duas ou mais velas são acesas ao cair da tarde de sexta-feira, onde tudo já deve estar pronto para o shabat: casa arrumada, mesa posta, todos os integrantes da família em casa e devidamente prontos para a ocasião. Acender as velas marca o início do shabat.

Kiddush: santificação

Todas as comemorações judaicas têm por finalidade o resgate da fé. O shabat não é diferente. A primeira bênção do shabat é feita com um cálice de vinho, representando além da própria bênção, a santificação por si só e o valor do trabalho do próprio Deus, que construiu o mundo em seis dias e descansou no sétimo.

Leitura da Torá:

A manhã de Sábado consiste na ida à Sinagoga para leitura da Torá, que é dividida em partes para leitura contínua durante este período.

Seudah: confraternização

O shabat compreende o encontro com Deus e o encontro com pessoas amigas; por isso, existe também esta socialização no decorrer do Sábado. Em média, três refeições são feitas neste propósito.

Havdalah: separação

Consiste na última cerimônia ao final do Sábado. A lembrança constante da razão principal do shabat, que é a separação do mundo, do dia-a-dia, para um encontro com Deus.

Mais uma vez fica nítida a relação do judeu frente ao tradicionalismo, que garante a manutenção de seus valores específicos para a propagação e conservação de sua cultura para as próximas gerações. Uma característica de princípios familiares, culturais e educacionais, centrados na religiosidade.  

 

Referências Bibliográficas:

Symbols of Judaism. Assouline Publishing, Paris, 2000

WOOL, Danny e YUDIN, Yefim (Chaim). O Ano Judaico Ilustrado. São Paulo, Sêfer Editora e Livraria, 2006

Museu Nacional de Belas Artes

Postado em ARTES, Antiga no Rio, CULTURA E SOCIEDADE, HISTÓRIA ANTIGA com as tags , em 27 27UTC janeiro 27UTC 2010 por CPA/RJ

O Museu Nacional de Belas Artes foi criado oficialmente em 13 de Janeiro de 1937. Mas seu acervo originou-se muito antes. Em 1808, com a vinda da família real portuguesa ao Brasil, as primeiras obras de artes do acervo foram frutos das coleções de D. João VI.

Posteriormente o acervo foi ampliado por Joachin Lebreton, hoje o museu conta com mais de 16.088 peças entre desenhos, gravuras, pinturas de Cândido Portinari, Tarsila do Amaral e muitos outros. Além de esculturas, réplicas do museu do Louvre. Essas esculturas retratam personagens da mitologia grega, imperador romano Otávio entre outros.

O Museu Nacional de Belas Artes é uma ótima dica para as férias. A visitação está aberta de terça a sexta-feira das 10h às 18h e de sábados, domingos e feriados das 12h às 17h. E é localizado na Av. Rio Branco, 199 – Centro (Cinelândia) – Rio de Janeiro.