(SÉC. V E IV A. C)
Por pesquisador convidado José Lúcio nascimento Júnior¹
A escrita foi uma das técnicas inventadas pelo ser humano que pôde transformar o modo de viver do próprio ser humano. Das primeiras formas de escrita, como a escrita Cuneiforme registrada na Mesopotâmia, até as novas modalidades de escrita em ambientes virtuais, está técnica de comunicação têm possibilitado novas possibilidades de integração e mudança social. Então, ao olharmos para algumas transformações ocorridas na antiguidade, podemos observar como as novas modalidades de escrita têm transformado a vida das pessoas na atualidade. Para tanto, olharemos para o caso ateniense, pois tanto a palavra oral como a palavra escrita tinha grande importância para este povo no seu período clássico.
De acordo com Neyde Theml, um dos fatores que possibilitaram o surgimento da Pólis no VIIIº século a. C. foi o aparecimento do alfabeto e da escrita fonética. Tal surgimento possibilitou que muitos eventos e fatos que existiam na cultura oral fossem escritos e fixados em diferentes lugares até mesmo para que todos pudessem ver. A palavra escrita “era para ser vista, lida em voz alta e ouvida, portanto pública” (THEML: 1998, p. 28). Mesmo em uma sociedade com poucos leitores, a palavra escrita passava a ser vista com um marco ou um monumento a ser apresentado.
Dentre os valores difundidos na Pólis ateniense era a que a pessoa deveria ter time (honra/prestigio). A publicação das leis, neste sentido, possibilitou a ampliação da díke (direito e/ou justiça) e as possibilidades das pessoas serem mais honrosas uma vez que conheciam as leis. Ao serem fixadas em locais públicos, como a Agorá, as leis possibilitavam a difusão da ideia de que todos eram iguais no contexto da políade, uma vez que todos seguiriam as mesmas leis e estas eram vistas por todos. Cabe ressaltar que o direito em Atenas ligava-se a normas, princípios e valores e não a leis estritas como ocorre na atualidade.
Não foi apenas no campo do direito que a palavra escrita modificou a vida dos atenienses. Foi também graças a palavras escrita que surgiram as epopeias, assim como foram elaborados vários documentos que nos permitem conhecer como era a vida deste povo. Como, por exemplo, foi graças a Platão (428-347 a. C.) que escreveu sobre as ideias de Sócrates que podemos ter contato com as suas ideias e sua forma de observar a vida social.
A escrita, no contexto de Atenas no período clássico, passou a ser algo muito valorizado entre os homens. Isso pode ser percebido no fato de que esta habilidade auxiliou os homens a registrar e divulgar o que faziam em diferentes espaços, tais como em tempos, santuários e na praça do mercado. De acordo com Maria Regina Candido, temos que “a grafia tornara-se um recurso da Polis utilizado para dar publicidade as leis, efetivar à cidadania através da identificação do cidadão no registro do dêmos e para servir de testemunho em diferentes transações comerciais” (CANDIDO: 2004, p. 58).
Contudo, o uso da grafia não ficou registra a esfera pública ou a aos registros de produção na esfera privada. Maria Regina Candido nos apresenta que uma das formas de uso da escrita era na prática mágica dos Katadesmoi. Nesta prática mágica, o uso da escrita fez com que o outro não tenha chance de defesa, pois como a escrita tem durabilidade maior que a para falada e outro por não saber da realização da prática não podia recorrer aos deuses ou mesmo questionar a ação. Os atenienses recorriam a estas práticas quando não tinha certeza de um resultado positivo em situações que eram julgadas publicamente, por exemplo.
Em suma, o uso da palavra escrita foi algo que se difundiu entre os homens, em especial na ástye (espaço urbano). Seus usos não se limitam aos apresentados acima, mas neles percebemos que a escrita teve um papel fundamental nas transformações que ocorrem em Atenas, em seu período clássico. Assim como no passado, a palavra escrita também provoca mudanças, em especial quando utilizadas no espaço virtual, espaço novo que junto com o ambiente urbano e rural compõem os “mundos” a serem vividos na atualidade.
Bibliografia:
CANDIDO, M. R. A Feitiçaria na Atenas Clássica. RJ: Letra Capital / Faperj, 2004.
THEML, N. O Público e o privado na Grécia do VIII ao IV século a. C. – o modelo ateniense. RJ: Sette Letras, 1988.
¹ José Lúcio N. Júnior é professor de História da rede pública e privada de ensino, graduado pela UNISUAM, especialista em História Contemporânea (UFF) e em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica (UGF), cursando atualmente Mestrado em Educação pela Universidade de Jaen (Espanha). Atualmente dedica-se a pesquisa sobre Metodologia de Ensino da História.
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